Seder Kodashim · Massechet Bechorot · Perek Tet · Mishná 2 de 8

A combinação de rebanhos distantes para o dízimo

מַעְשַׂר בְּהֵמָה מִצְטָרֵף כִּמְלֹא רֶגֶל בְּהֵמָה רוֹעָה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A distância de combinação entre rebanhos: dezesseis mil, o intermediário e o Jordão

O dízimo do gado se combina até a distância de um passo de animal pastando. E quanto é o passo de um animal pastando? Dezesseis mil. Se havia entre estes e aqueles trinta e dois mil, não se combinam. Se tinha [um rebanho] no meio, traz e os dizima no meio. Rabi Meir diz: o Jordão separa para o dízimo do gado.

— A mishná anterior tratou de quais espécies se combinam para completar o número de dez; esta trata da distância geográfica. Animais do mesmo dono, espalhados por diferentes pastagens, ainda se consideram um único rebanho para fins do dízimo, desde que a distância entre eles não ultrapasse o alcance que um único pastor consegue vigiar — fixado em dezesseis mil (a milha romana, cerca de mil quatrocentos e cinquenta metros cada). Se a distância total entre os dois extremos chega a trinta e dois mil (o dobro), os dois grupos não se combinam, pois nenhum pastor sozinho poderia abranger ambos. Mas se há um terceiro rebanho do mesmo dono no meio do caminho — dentro do alcance de dezesseis mil de cada lado — ele funciona como ponte, e os três se reúnem e se dizimam juntos nesse ponto intermediário. Rabi Meir acrescenta uma exceção geográfica específica: o rio Jordão sempre separa os rebanhos em suas duas margens para este fim, mesmo que a distância entre eles seja mínima.

מַעְשַׂר בְּהֵמָה מִצְטָרֵף כִּמְלֹא רֶגֶל בְּהֵמָה רוֹעָה. וְכַמָּה הִיא רֶגֶל בְּהֵמָה רוֹעָה, שִׁשָּׁה עָשָׂר מִיל. הָיָה בֵּין אֵלּוּ לְאֵלּוּ שְׁלשִׁים וּשְׁנַיִם מִיל, אֵינָן מִצְטָרְפִין. הָיָה לוֹ בָאֶמְצַע, מֵבִיא וּמְעַשְּׂרָן בָּאֶמְצַע. רַבִּי מֵאִיר אוֹמֵר, הַיַּרְדֵּן מַפְסִיק לְמַעְשַׂר בְּהֵמָה:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Bechorot 9:2
מעשר בהמה מצטרף במלוא רגל בהמה רועה כו': מה שאמר אם היו בין שני העדרים שלשים ושנים מיל אין מצטרפין לפי שכבר ביאר שלא יהא צירוף ביותר מששה עשר מיל ואמר זה להודיענו שאם היה בינם עדר שלישי רחוק משתי הקצוות רחוק שוה שהוא מצרף שלשתן ואין הלכה כר"מ:

Rambam esclarece a lógica da mishná: como já se estabeleceu que a combinação não vale além de dezesseis mil, a menção de trinta e dois mil vem apenas para ensinar que, havendo um terceiro rebanho no meio — equidistante dos dois extremos —, ele une os três em um só. A lei não segue Rabi Meir quanto ao Jordão.

Bartenura · Bechorot 9:2
כִּמְלֹא רֶגֶל בְּהֵמָה רוֹעָה. כְּמוֹ שֶׁיְּכוֹלוֹת לְהִשְׁתַּמֵּר בְּרוֹעֶה אֶחָד כְּשֶׁהַבְּהֵמוֹת רוֹעוֹת מִתְרַחֲקוֹת זוֹ מִזּוֹ. וְהַיְנוּ שֵׁשׁ עֶשְׂרֵה מִיל, דִּבְהָכִי שָׁלְטָא עֵינָא דְּרוֹעֶה... הַיַּרְדֵּן מַפְסִיק. שֶׁאִם הָיוּ לוֹ חָמֵשׁ בְּהֵמוֹת מִכָּאן וְחָמֵשׁ בְּהֵמוֹת מִכָּאן וְיַרְדֵּן בְּאֶמְצַע, אֵין מִצְטָרְפִין וּפְטוּרוֹת. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי מֵאִיר:

Bartenura explica que o limite de dezesseis mil corresponde ao alcance da visão de um único pastor sobre o rebanho espalhado, apoiando-se no versículo de Yirmiyahu sobre as ovelhas que “passam pela mão de quem as conta”. Explica que o versículo “trinta e dois mil” existe apenas para preparar a regra seguinte, do rebanho intermediário que une os extremos. E ilustra a posição de Rabi Meir: mesmo cinco animais de cada lado do Jordão, com distância mínima entre eles, ficam isentos de se combinar — opinião que não é lei.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ"י
Sobre a Guemará, Bechorot 55a–55b
מכפר עותני לכפר חנניה — שנים ושלשים מילין וציפורי מצרפתן באמצע: עינתא דמדליין — עינות המים הנובעות בהרים רמים והנהו הוו גבוהים מפרת והיכי אתו מפרת: סולמי דפרת — מקלחין תחת הקרקע ועולין בהרים כמו סולם:

Rashi ilustra a regra do rebanho intermediário com um exemplo geográfico real da Guemará: entre Kefar Otni e Kefar Chananya há trinta e dois mil, e a cidade de Tzipori, situada no meio, une os dois lados. Já sobre a discussão em torno do Jordão e sua origem, explica — a propósito da pergunta de por que o rio se chama “Yardén” (por “descer de Dão”) — como se entendia que certas fontes de água nas montanhas, mais altas que o próprio Eufrates, ainda assim se alimentavam dele: as águas corriam sob a terra e subiam pelos montes como por uma escada.