Um ovo que nasceu em dia de festa — Bet Shamai diz: pode ser comido. E Bet Hilel diz: não pode ser comido. — Quando uma galinha põe um ovo no próprio dia de festa, discute-se se esse ovo pode ser consumido nesse mesmo dia. Bet Hilel entende que o ovo só terminou de se formar durante o dia de festa, e por isso o dia de festa estaria, de certo modo, preparando para si mesmo — o que a hachaná exige que se faça apenas em dia comum; Bet Shamai discorda dessa restrição.
Bet Shamai diz: o fermento [é medido] no tamanho de uma azeitona, e o levedado no tamanho de uma tâmara seca. E Bet Hilel diz: tanto um quanto o outro, no tamanho de uma azeitona. — Sem relação direta com o tema do ovo, a mishná acrescenta aqui uma disputa sobre as medidas mínimas de fermento (se'or) e de massa já levedada (chametz) que obrigam sua eliminação antes de Pêssach — reunida com a mishná anterior por seguirem o mesmo padrão: Bet Shamai mais brando, Bet Hilel mais rigoroso.
Deste versículo, dito a respeito do maná, os sábios derivam o princípio geral da hachaná: dia comum prepara para Shabat, e dia comum prepara para dia de festa — mas um não prepara para o outro, pois ambos têm o mesmo grau de santidade e nenhum serve de véspera ao outro. É por isso que Bet Hilel proíbe o ovo posto no próprio dia de festa: caso este caia logo após o Shabat, o ovo teria terminado de se formar durante o Shabat, que assim estaria preparando para o dia de festa seguinte — o que o versículo, ao restringir a preparação ao dia comum, não permite.
O Rambam expõe os dois princípios que regem todo o tratado — muktzê e nolad — e a base bíblica da hachaná; Bartenura acrescenta o detalhe de que a proibição se estende a qualquer dia de festa, por decreto, mesmo quando não sucede imediatamente ao Shabat.
O que é muktzê torna-se proibido para consumo em dia de festa; e muktzê é aquilo que a pessoa afastou do uso alimentar e sobre o qual teve a intenção de não comer. E, do mesmo modo, o nolad — aquilo que nasce ou surge no próprio dia de festa sem que se tivesse pensado nele antes — é proibido em dia de festa. E sobre estes dois princípios gira todo este tratado.
A razão de Bet Hilel proibir é que todo ovo que nasce agora terminou de se formar desde ontem — de modo que o Shabat estaria preparando para o dia de festa. E proibiram o ovo nascido em qualquer dia de festa, mesmo quando este não sucede imediatamente ao Shabat, como decreto por causa do dia de festa que de fato sucede ao Shabat.
Rashi, na Guemará, é sucinto: explica a proibição do ovo pela mesma lógica da hachaná, remetendo ao desenvolvimento completo do argumento nas páginas seguintes.
“O ovo não pode ser comido” — no próprio dia em que nasceu; a razão é explicada adiante, na Guemará.