Seder Moed · Massechet Beitzá · Perek Guimel · Mishná 2 de 8

Armadilhas armadas na véspera e o peixe do não-judeu

מְצוּדוֹת חַיָּה וָעוֹף וְדָגִים
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná trata de armadilhas armadas antes da festa, cuja captura ocorrida no próprio dia de festa tornaria o animal muktzê — proibido por depender de um ato feito naquele mesmo dia — e ilustra o princípio com um episódio envolvendo Rabán Gamliel.

Armadilhas de animais, aves e peixes armadas na véspera da festa — não se tira delas no dia de festa, a menos que se saiba que foram capturados na véspera da festa.Quando não se sabe se a captura ocorreu antes ou durante o dia de festa, o animal permanece em dúvida quanto a ser muktzê, e essa dúvida basta para proibi-lo; só quando há certeza de que a captura já havia ocorrido na véspera é que o animal pode ser retirado da armadilha e usado.

E aconteceu com um não-judeu que trouxe peixes a Rabán Gamliel, e este disse: são permitidos, mas não quero recebê-los dele.Rabán Gamliel reconheceu que os peixes trazidos por aquele não-judeu eram permitidos quanto à lei de muktzê — pois sua aparência já indicava que não haviam sido pescados naquele mesmo dia —, mas ainda assim recusou recebê-los, por não querer aceitar presentes daquele homem em particular, que lhe era hostil.

מְצוּדוֹת חַיָּה וָעוֹף וְדָגִים שֶׁעֲשָׂאָן מֵעֶרֶב יוֹם טוֹב, לֹא יִטֹּל מֵהֶן בְּיוֹם טוֹב, אֶלָּא אִם כֵּן יוֹדֵעַ שֶׁנִּצּוֹדוּ מֵעֶרֶב יוֹם טוֹב. וּמַעֲשֶׂה בְנָכְרִי אֶחָד, שֶׁהֵבִיא דָגִים לְרַבָּן גַּמְלִיאֵל, וְאָמַר, מֻתָּרִין הֵן, אֶלָּא שֶׁאֵין רְצוֹנִי לְקַבֵּל הֵימֶנּוּ:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Shemot 16:5
וְהָיָה בַּיּוֹם הַשִּׁשִּׁי וְהֵכִינוּ אֵת אֲשֶׁר יָבִיאוּ, וְהָיָה מִשְׁנֶה עַל אֲשֶׁר יִלְקְטוּ יוֹם יוֹם.
E será no sexto dia: prepararão o que trouxerem, e será o dobro do que colherem a cada dia.

Deste versículo, dito a respeito do maná, os sábios derivam o princípio de que aquilo que se usa em dia sagrado precisa estar preparado — pronto e disponível — desde antes, e não pode depender de um ato realizado no próprio dia sagrado. Por isso, um animal capturado numa armadilha só pode ser retirado dela em dia de festa se há certeza de que a captura, o ato que o tornou disponível, já havia ocorrido na véspera; havendo dúvida, ele permanece na categoria do que "ainda não foi preparado" e por isso é proibido.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam explica que a halachá não segue Rabán Gamliel quanto à dúvida, e detalha as regras de fruta e peixe trazidos por não-judeu; Bartenura completa com a regra do limite territorial e dos dois dias de Rosh Hashaná.

Rambam · Perush HaMishná, Beitzá 3:2
רַבָּן גַּמְלִיאֵל סוֹבֵר כִּי סְפֵק מוּכָן מֻתָּר, וְכֵן סוֹבֵר כִּי נָכְרִי שֶׁהֵבִיא בְּיוֹם טוֹב דָּגִים אוֹ פֵּרוֹת אַף עַל פִּי שֶׁצָּדָן בְּיוֹם טוֹב מֻתָּרִין, וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבָּן גַּמְלִיאֵל. וּכְשֶׁהֵבִיא נָכְרִי פֵּרוֹת וְנִתְאַמֵּת אֶצְלֵנוּ מִצּוּרָתָן שֶׁלֹּא נִתְלְשׁוּ בְּיוֹם טוֹב, וְכֵן דָּגִים שֶׁנִּתְאַמֵּת אֶצְלֵנוּ שֶׁלֹּא נִצּוֹדוּ בְּיוֹם טוֹב וְלֹא בָּאוּ מִחוּץ לַתְּחוּם, שֶׁהֵן מֻתָּרִין לְאָכְלָן בְּיוֹם טוֹב וַאֲפִלּוּ לְאוֹתוֹ שֶׁבָּאוּ בִּשְׁבִילוֹ.

Rabán Gamliel entende que a dúvida quanto ao muktzê é permitida, e assim entende também que peixes ou frutas trazidos por um não-judeu em dia de festa, ainda que capturados ou colhidos no próprio dia de festa, são permitidos — mas a halachá não segue Rabán Gamliel. E quando um não-judeu traz frutas e nos certificamos por sua aparência que não foram colhidas no dia de festa, e do mesmo modo peixes que nos certificamos que não foram pescados no dia de festa e não vieram de fora do limite territorial, são permitidos para comer no dia de festa, mesmo para aquele em cujo favor foram trazidos.

Bartenura · Beitzá 3:2
וּמַעֲשֶׂה בְנָכְרִי אֶחָד. חִסּוּרֵי מִחַסְּרָא וְהָכִי קָתָנֵי, סָפֵק מוּכָן אָסוּר וְרַבָּן גַּמְלִיאֵל מַתִּיר, וּמַעֲשֶׂה בְּנָכְרִי אֶחָד וְכוּ'. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבָּן גַּמְלִיאֵל, אֶלָּא פֵּרוֹת וְדָגִים שֶׁהוּבְאוּ בְּיוֹם טוֹב, סָפֵק נִלְקְטוּ הַיּוֹם סָפֵק מֵאֶתְמוֹל, סָפֵק נִצּוֹדוּ הַיּוֹם סָפֵק מֵאֶתְמוֹל, אֲסוּרִים. אֶלָּא שֶׁאֵין רְצוֹנִי לְקַבֵּל מִמֶּנּוּ. שֶׁאֲנִי שׂוֹנֵא אוֹתוֹ.

“E aconteceu com um não-judeu” — a mishná está incompleta, e assim se deve entender: a dúvida quanto ao muktzê é proibida, e Rabán Gamliel permite, e aconteceu com um não-judeu etc. Mas a halachá não segue Rabán Gamliel — antes, frutas e peixes trazidos em dia de festa, havendo dúvida se foram colhidos ou pescados hoje ou ontem, são proibidos. “Mas não quero receber dele” — porque eu o odeio.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi esclarece a estranheza aparente da mishná — trazer um relato depois de enunciar uma proibição — e localiza a disputa sobre a dúvida do muktzê entre Rabán Gamliel e Rabi Yehoshua.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Beitzá 24a
מַעֲשֶׂה לִסְתּוֹר — בְּתִמְהָה, וְכִי דֶּרֶךְ הַמְדַבְּרִים לוֹמַר דָּבָר וּמְבִיאִין מַעֲשֶׂה אַחֲרָיו לְהַכְחִישׁ דִּבּוּר הָרִאשׁוֹן. סְפֵק מוּכָן — כְּלוֹמַר, וְזוֹ שֶׁאָמַרְנוּ לֹא יִטֹּל מֵהֶן מִסָּפֵק, דְּהַיְנוּ סְפֵק מוּכָן וּסְפֵק מֻקְצֶה, וְאָסוּר לָאו דִּבְרֵי הַכֹּל הִיא, אֶלָּא פְּלוּגְתָּא דְּרַבָּן גַּמְלִיאֵל וְרַבִּי יְהוֹשֻׁעַ הִיא, לְקַמָּן בִּשְׁמַעְתִּין מַיְיתִינַן לָהּ בְּבָרַיְתָא.

“Um relato que contradiz” — em tom de espanto: acaso é costume de quem fala dizer algo e depois trazer um relato que contradiz o que disse primeiro? “Dúvida quanto ao muktzê” — ou seja, o que dissemos, que não se tira delas por dúvida — isto é, dúvida se já está preparado ou se ainda é muktzê — e que isso é proibido, não é opinião unânime, mas sim uma disputa entre Rabán Gamliel e Rabi Yehoshua, que mais adiante nesta mesma sugyá trazemos numa baraita.