Seder Moed · Massechet Beitzá · Perek Guimel · Mishná 4 de 8

O primogênito que caiu num poço

בְּכוֹר שֶׁנָּפַל לְבוֹר
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná trata do primogênito de gado com uma possível mancha que o desqualificaria como sacrifício — uma mancha que, se permanente, permitiria abatê-lo como carne comum —, e discute se é permitido examiná-lo pela primeira vez no próprio dia de festa.

Um primogênito que caiu num poço — Rabi Yehudá diz: desça um perito e veja; se tem uma mancha, suba e o abata; e se não, não o abata.Um primogênito só pode ser abatido para consumo comum se tiver uma mancha permanente que o desqualifique como sacrifício; Rabi Yehudá permite que, mesmo em dia de festa, um perito desça ao poço para examinar o animal pela primeira vez, e caso constate a mancha, ele possa ser retirado e abatido — pois, sendo a mancha já existente, o animal já estava, potencialmente, apto a ser abatido desde a véspera.

Rabi Shimon diz: tudo o que sua mancha não é reconhecível desde antes do dia, isso não é do que já está preparado.Rabi Shimon discorda quanto ao próprio exame: para ele, permitir que a mancha seja verificada pela primeira vez no dia de festa equivaleria a "consertar" o animal naquele mesmo dia, tornando-o apto somente a partir de um ato realizado na festa — e por isso, sem que a mancha já fosse reconhecida como permanente desde a véspera, o animal não se enquadra entre o que estava pronto e preparado para uso.

בְּכוֹר שֶׁנָּפַל לְבוֹר, רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, יֵרֵד מֻמְחֶה וְיִרְאֶה, אִם יֶשׁ בּוֹ מוּם, יַעֲלֶה וְיִשְׁחֹט. וְאִם לָאו, לֹא יִשְׁחֹט. רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר, כֹּל שֶׁאֵין מוּמוֹ נִכָּר מִבְּעוֹד יוֹם, אֵין זֶה מִן הַמּוּכָן:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Devarim 15:21
וְכִי יִהְיֶה בוֹ מוּם, פִּסֵּחַ אוֹ עִוֵּר, כֹּל מוּם רָע — לֹא תִזְבָּחֶנּוּ לַה׳ אֱלֹהֶיךָ.
E se houver nele uma mancha, coxo ou cego, qualquer mancha grave — não o sacrificarás ao Eterno, teu Deus.

Este versículo ensina que uma mancha permanente retira do primogênito sua santidade destinada ao altar, tornando-o apto ao abate como qualquer outro animal comum. A disputa da mishná gira em torno do momento em que essa mancha precisa ser constatada: Rabi Yehudá permite que o exame ocorra pela primeira vez no próprio dia de festa, pois considera que a mancha, sendo um fato físico preexistente, já retirava a santidade do animal desde antes; Rabi Shimon exige que ela já fosse reconhecida como permanente desde a véspera, para que o animal se enquadre entre o que estava preparado com antecedência.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam explica a base da disputa — se é permitido examinar manchas de primogênitos em dia de festa — e fixa a halachá como Rabi Shimon; Bartenura detalha as duas leituras possíveis da frase final da mishná.

Rambam · Perush HaMishná, Beitzá 3:4
רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר רוֹאִין אֶת הַמּוּמִין בְּיוֹם טוֹב. וְרַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר אֵין רוֹאִין אֶת הַמּוּמִין בְּיוֹם טוֹב... וְרַבִּי שִׁמְעוֹן שֶׁאֵינוֹ מַתִּיר רְאִיַּת מוּמִין בְּיוֹם טוֹב, אִי אֶפְשָׁר לִרְאוֹת כְּלָל. וְהַהֲלָכָה כְּרַבִּי שִׁמְעוֹן:

Rabi Yehudá diz que se examinam manchas em dia de festa, e Rabi Shimon diz que não se examinam manchas em dia de festa (...) E Rabi Shimon, que não permite o exame de manchas em dia de festa, é impossível examinar de forma alguma. E a halachá segue Rabi Shimon.

Bartenura · Beitzá 3:4
יֵרֵד מֻמְחֶה. שֶׁבָּקִי לְהַבְחִין בֵּין מוּם קָבוּעַ לְמוּם עוֹבֵר. וְיִרְאֶה. מוּם שֶׁהָיָה בּוֹ אֶתְמוֹל, אִם מוּם קָבוּעַ הוּא. יַעֲלֶה וְיִשְׁחֹט. דְּמִשּׁוּם מֻקְצֶה לֵיכָּא, דְּמֵאֶתְמוֹל דַּעְתֵּיהּ עִילָּוֵיהּ. אֵין זֶה מִן הַמּוּכָן. לָאו מִשּׁוּם מֻקְצֶה אָסַר לֵיהּ, דְּהָא לֵית לֵיהּ לְרַבִּי שִׁמְעוֹן מֻקְצֶה, אֶלָּא מִפְּנֵי שֶׁמַּתִּירוֹ בְּיוֹם טוֹב הֲוָה לֵיהּ כִּמְתַקְּנוֹ, וְנִרְאֶה כְּדָן דִּין, דְּגָזוּר בֵּיהּ מִשּׁוּם שְׁבוּת.

“Desça um perito” — que seja hábil em distinguir mancha permanente de mancha passageira. “E veja” — a mancha que já havia nele desde ontem, se é permanente. “Suba e o abata” — pois não há aqui questão de muktzê, já que desde ontem sua intenção já estava voltada para ele. “Isso não é do que já está preparado” — Rabi Shimon não proíbe por causa do muktzê, pois ele nem sequer aceita o conceito de muktzê, mas porque permitir o exame em dia de festa seria como consertá-lo, parecendo um julgamento formal, o que os sábios proibiram por decreto.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi explica por que, na época da mishná, o primogênito sem mancha não pode mais ser abatido, e o motivo do temor de deixá-lo morrer no poço.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Beitzá 25b
מַתְנִי' בְּכוֹר שֶׁנָּפַל לְבוֹר — בְּכוֹר בִּזְמַן הַזֶּה אֵין נִשְׁחָט בְּלֹא מוּם, מִפְּנֵי שֶׁקֳּדָשִׁים הוּא, דְּמֵאֵלָיו הוּא קָדוֹשׁ, וְהַשּׁוֹחֲטוֹ כְּשֶׁהוּא תָּם הֲוֵי שׁוֹחֵט קֳדָשִׁים בַּחוּץ וְעָנוּשׁ כָּרֵת. שֶׁנָּפַל לְבוֹר — וְיָרֵא פֶּן יָמוּת שָׁם. מֻמְחֶה — בָּקִי בְּמוּמִין לְהַבְחִין בֵּין מוּם קָבוּעַ לְמוּם עוֹבֵר.

“A mishná: um primogênito que caiu num poço” — um primogênito, em nossos dias, não se abate sem uma mancha, pois é santidade que recai sobre ele por si mesmo, e quem o abate ainda inteiro estaria abatendo uma coisa sagrada fora do lugar devido, sujeito à pena de carêt. “Que caiu num poço” — e teme-se que venha a morrer ali. “Um perito” — hábil em manchas, para distinguir entre mancha permanente e mancha passageira.