Seder Moed · Massechet Beitzá · Perek Guimel · Mishná 5 de 8

O animal sagrado que morreu e a consulta a Rabi Tarfon

בְּהֵמָה שֶׁמֵּתָה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná trata de um animal de sacrifício que morreu em dia de festa, proibido de ser deslocado, e relata um episódio em que essa halachá — junto com o caso da hallá que se tornou impura — foi levada perante Rabi Tarfon para consulta.

Um animal que morreu não se desloca de seu lugar.Tratando-se de um animal de sacrifício que morreu — proibido de qualquer proveito e destinado à sepultura —, ele permanece muktzê mesmo em dia de festa, e por isso não se pode movê-lo de onde caiu, mesmo que isso implique deixá-lo ali até depois da festa.

E aconteceu que consultaram Rabi Tarfon sobre isso e sobre a hallá que se tornou impura, e ele entrou na Casa de Estudo e perguntou, e lhe disseram: não se deslocam de seu lugar.Mesmo Rabi Tarfon, sábio de grande autoridade, não decidiu essa questão por conta própria diante da comunidade que o consultava, preferindo entrar na Casa de Estudo e consultar os demais sábios; a resposta que recebeu, para ambos os casos — o animal morto e a porção de hallá tornada impura, imprópria para o cohen e proibida de ser queimada em dia de festa —, foi a mesma: nenhum dos dois pode ser deslocado de seu lugar.

בְּהֵמָה שֶׁמֵּתָה, לֹא יְזִיזֶנָּה מִמְּקוֹמָהּ. וּמַעֲשֶׂה וְשָׁאֲלוּ אֶת רַבִּי טַרְפוֹן עָלֶיהָ וְעַל הַחַלָּה שֶׁנִּטְמְאָה, וְנִכְנַס לְבֵית הַמִּדְרָשׁ וְשָׁאַל, וְאָמְרוּ לוֹ, לֹא יְזִיזֵם מִמְּקוֹמָם:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Vayikrá 7:17
וְהַנּוֹתָר מִבְּשַׂר הַזֶּבַח בַּיּוֹם הַשְּׁלִישִׁי, בָּאֵשׁ יִשָּׂרֵף.
E o que sobrar da carne do sacrifício até o terceiro dia, no fogo se queimará.

Esta lei — que aquilo que resta impróprio de um sacrifício deve ser eliminado pelo fogo, e não por outro meio — é a base da regra segundo a qual não se destroem nem se descartam coisas sagradas de qualquer forma que seja, incluindo alimentá-las a animais. Por isso, tanto o animal de sacrifício que morreu quanto a hallá que se tornou impura — ambos proibidos de qualquer proveito, e cuja eliminação exigiria um ato de queima que não se pode fazer em dia de festa sem necessidade real de alimento — permanecem intocados em seu lugar, pois não há, naquele dia, nenhuma forma permitida de lidar com eles.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam explica que a proibição se aplica apenas ao animal de sacrifício, e não à carne comum de um animal em perigo desde a véspera; Bartenura detalha o motivo pelo qual a hallá impura permanece intocada.

Rambam · Perush HaMishná, Beitzá 3:5
זֶה הַדָּבָר אֵינוֹ אֶלָּא בִּבְהֵמַת קָדָשִׁים שֶׁמֵּתָה, כִּי הָעִקָּר אֶצְלֵנוּ אֵין מַאֲכִילִין אֶת הַקֳּדָשִׁים לַכְּלָבִים, וּלְפִיכָךְ אֵין מְזִיזִים אוֹתָהּ מִמְּקוֹמָהּ. אֲבָל בְּהֵמַת חֻלִּין שֶׁמֵּתָה מְחַתְּכִין אוֹתָהּ וּמַאֲכִילִין אוֹתָהּ לַכְּלָבִים, וּבִתְנַאי שֶׁתִּהְיֶה מְסֻכֶּנֶת מֵעֶרֶב יוֹם טוֹב, אֲבָל אִם אֵינָהּ מְסֻכֶּנֶת מֻקְצֶה הִיא וְאָסוּר לְטַלְטֵל:

Esta regra se aplica apenas a um animal de sacrifício que morreu, pois o princípio entre nós é que não se alimentam cães com coisas sagradas, e por isso não se desloca o animal de seu lugar. Mas um animal comum que morreu, corta-se sua carne e alimenta-se os cães com ela — desde que estivesse em perigo já na véspera da festa; mas se não estava em perigo, é muktzê e proibido de ser deslocado.

Bartenura · Beitzá 3:5
בְּהֵמָה שֶׁמֵּתָה. בְּבֶהֱמַת קָדָשִׁים מַיְרֵי, כִּדְקָתָנֵי עֲלֵיהּ וְעַל הַחַלָּה שֶׁנִּטְמֵאת. וּבֶהֱמַת קָדָשִׁים שֶׁמֵּתָה אֲסוּרָה בַּהֲנָאָה וּטְעוּנָה קְבוּרָה, הִלְכָּךְ לֹא יְזִיזֶנָּה מִמְּקוֹמָהּ. הַחַלָּה שֶׁנִּטְמֵאת. אֵינָהּ רְאוּיָה לְכֹהֵן בְּיוֹם טוֹב, אַף לַהַסָּקָה אוֹ לְתִתָּהּ לְכַלְבּוֹ, דְּאֵין מְבַעֲרִין קָדָשִׁים מִן הָעוֹלָם בְּיוֹם טוֹב, וַאֲפִלּוּ עַל יְדֵי אֲכִילַת בְּהֵמָה, דִּגְזֵרַת הַכָּתוּב הִיא שֶׁאֵין קָדָשִׁים טְמֵאִים מִתְבַּעֲרִים מִן הָעוֹלָם בְּיוֹם טוֹב.

“Um animal que morreu” — trata-se de um animal de sacrifício, como se depreende de ela ser mencionada junto à hallá que se tornou impura. E um animal de sacrifício que morreu é proibido de qualquer proveito e requer sepultamento, por isso não se desloca de seu lugar. Mas um animal comum, corta-se diante dos cães — isso quando já estava em perigo desde a véspera. “A hallá que se tornou impura” — não é apta ao cohen em dia de festa, nem sequer para aquecimento ou para dá-la a seu cão, pois não se eliminam coisas sagradas do mundo em dia de festa, mesmo por meio de um animal comendo-as, pois é decreto da Escritura que coisas sagradas impuras não se eliminam do mundo em dia de festa.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi esclarece por que a proibição de eliminar a hallá impura se estende até mesmo à alimentação de animais, remetendo à obrigação bíblica de queimar pelo fogo o que resta impróprio de coisas sagradas.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Beitzá 27b
מַתְנִי' חַלָּה שֶׁנִּטְמְאָה — אֵינָהּ רְאוּיָה לְכֹהֵן הַיּוֹם, דְּהָא בַּאֲכִילָה אֲסוּרָה לְעוֹלָם, וּבְהַסָּקָה אוֹ לְתִתָּהּ לְכַלְבּוֹ בְּיוֹם טוֹב אָסוּר, דְּאֵין מְבַעֲרִין קָדָשִׁים טְמֵאִים מִן הָעוֹלָם בְּיוֹם טוֹב, וַאֲפִלּוּ עַל יְדֵי אֲכִילַת בְּהֵמָה, דְּקַיְימָא לַן שֶׁאֵין שׂוֹרְפִין קָדָשִׁים בְּיוֹם טוֹב.

“A mishná: a hallá que se tornou impura” — não é apta ao cohen hoje, pois para comer é proibida para sempre, e para aquecimento ou para dá-la a seu cão em dia de festa é proibido, pois não se eliminam coisas sagradas impuras do mundo em dia de festa, mesmo por meio de um animal comendo-as, pois estabelecemos que não se queimam coisas sagradas em dia de festa.