Seder Moed · Massechet Beitzá · Perek Hei · Mishná 1 de 7

Deixar cair frutas pela clarabóia, e cobri-las contra a chuva

מַשִּׁילִין פֵּרוֹת דֶּרֶךְ אֲרֻבָּה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Abrindo o último perek de Massechet Beitzá, a mishná distingue o que é permitido em dia de festa mas não em Shabat — salvar frutas da chuva deixando-as cair pela clarabóia — do que é permitido em ambos, cobrir os produtos e recolher o gotejar num utensílio.

Deixa-se cair frutas pela clarabóia em dia de festa, mas não em Shabat. E cobrem-se frutas com utensílios contra o gotejar da chuva, e do mesmo modo jarros de vinho e jarros de azeite. E coloca-se um utensílio sob o gotejar em Shabat.Quem tinha grãos ou frutas estendidos no telhado para secar, e vê a chuva se aproximar, pode em dia de festa deixá-los cair pela abertura da clarabóia até o chão, pois esse esforço, embora incomum, é permitido para evitar prejuízo financeiro; mas em Shabat isso permanece proibido, pela diferença entre os dois dias que a mishná seguinte, 5:2, virá a detalhar. Já cobrir frutas ou jarros de vinho e de azeite com utensílios para que a chuva não os danifique é permitido tanto em dia de festa quanto em Shabat, pois não há nisso trabalho algum, apenas a colocação de um utensílio sobre outro; e pela mesma razão é permitido, mesmo em Shabat, colocar um recipiente para recolher a água que goteja do telhado, evitando que suje a casa.

מַשִּׁילִין פֵּרוֹת דֶּרֶךְ אֲרֻבָּה בְּיוֹם טוֹב, אֲבָל לֹא בְשַׁבָּת, וּמְכַסִּים פֵּרוֹת בְּכֵלִים מִפְּנֵי הַדֶּלֶף, וְכֵן כַּדֵּי יַיִן וְכַדֵּי שֶׁמֶן. וְנוֹתְנִין כְּלִי תַּחַת הַדֶּלֶף בְּשַׁבָּת:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Shemot 20:9-10
שֵׁשֶׁת יָמִים תַּעֲבֹד וְעָשִׂיתָ כָּל־מְלַאכְתֶּךָ. וְיוֹם הַשְּׁבִיעִי שַׁבָּת לַה' אֱלֹהֶיךָ לֹא־תַעֲשֶׂה כָל־מְלָאכָה.
Seis dias trabalharás e farás toda a tua obra. Mas o sétimo dia é Shabat para o Senhor teu D-us; não farás nenhuma obra.

Ao proibir "toda obra" sem exceção, o versículo do Shabat é mais absoluto do que o dia de festa, cuja permissão para o trabalho de comida (Shemot 12:16) os sábios de Bet Hilel estenderam também a outras necessidades da festa, como se verá na mishná seguinte. Deixar frutas caírem pela clarabóia para salvá-las da chuva é justamente um desses atos estendidos: não é preparo direto de comida, mas evita prejuízo, e por isso Bet Hilel o permite em dia de festa — porém não em Shabat, onde a proibição permanece na sua forma mais estrita. Cobrir os produtos e recolher o gotejar, por não envolverem esforço algum equiparável a trabalho, permanecem permitidos em ambos os dias.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam explica a diferença entre deixar cair pela clarabóia de um mesmo telhado e de um telhado a outro; Bartenura detalha por que apenas a abertura vertical da clarabóia é permitida, e não a janela lateral.

Rambam · Perush HaMishná, Beitzá 5:1
מַשִּׁילִין פֵּרוֹת דֶּרֶךְ אֲרֻבָּה בְּיוֹם טוֹב כוּ': מֻתָּר לְהַשִּׁיל פֵּרוֹת אֲרֻבָּה בְּגַג אֶחָד כְּשֶׁיִּרְצֶה לְטַלְטְלָן מִמָּקוֹם לְמָקוֹם, אֲבָל לְהַשִּׁילָן מִגַּג לְגַג אַחֵר אָסוּר. וְהַטַּעַם מַה שֶּׁאָמַרְנוּ כַּמָּה פְעָמִים, שֶׁלֹּא יַעֲשֶׂה כְּדֶרֶךְ שֶׁהוּא עוֹשֶׂה בְחֹל. וְדֶלֶף — הַמַּיִם הַנּוֹזְלִים מִן הַגַּגּוֹת הַתְּלוּשׁוֹת בְּעֵת יְרִידַת הַגְּשָׁמִים.

"Deixa-se cair frutas pela clarabóia em dia de festa etc." — é permitido deixar cair frutas pela clarabóia de um mesmo telhado quando se quer transferi-las de um lugar a outro, mas deixá-las cair de um telhado a outro é proibido. E a razão é o que já dissemos algumas vezes: que não se faça como se faz em dia comum. E "delef" são as águas que escorrem dos telhados, soltas no momento da queda das chuvas.

Bartenura · Beitzá 5:1
מַשִּׁילִין פֵּרוֹת דֶּרֶךְ אֲרֻבָּה. מִי שֶׁיֵּשׁ לוֹ פֵּרוֹת אוֹ תְּבוּאָה שָׁטוּחַ עַל גַּגּוֹ לְהִתְיַבֵּשׁ וְרָאָה גְּשָׁמִים מְמַשְׁמְשִׁים וּבָאִים, הִתִּירוּ לוֹ לִטְרֹחַ וּלְהַשְׁלִיךְ דֶּרֶךְ אֲרֻבָּה שֶׁבַּגַּג וְהֵם נוֹפְלִים לָאָרֶץ, דְּלֵיכָּא טִרְחָא יְתֵרָה. וְדַוְקָא אֲרֻבָּה, דְּכָל אֲרֻבָּה מִלְּמַעְלָה לְמַטָּה בְּתִקְרַת הַגַּג; אֲבָל חַלּוֹן, כְּגוֹן גַּג שֶׁמֻּקָּף מְחִצּוֹת וְחַלּוֹן בַּכֹּתֶל וְצָרִיךְ לְהַגְבִּיהוֹ עַד הַחַלּוֹן וּלְהַשְׁלִיכוֹ, כֻּלֵּי הַאי לֹא שָׁרוּ רַבָּנָן לְמִטְרָח. וּמְכַסִּין אֶת הַפֵּרוֹת. וְלֹא אָמְרִינַן טֹרַח שֶׁלֹּא לְצֹרֶךְ יוֹם טוֹב הוּא, דְּמִשּׁוּם הֶפְסֵד מָמוֹן שָׁרוּ לֵיהּ רַבָּנָן. דֶּלֶף. גְּשָׁמִים הַנּוֹטְפִים מִן הַגַּג. וְכֵן כַּדֵּי יַיִן וְכַדֵּי שֶׁמֶן. מְכַסִּים אוֹתָן מִפְּנֵי הַדֶּלֶף. תַּחַת הַדֶּלֶף. לְקַבֵּל אֶת הַמַּיִם שֶׁלֹּא יְטַנְּפוּ הַבַּיִת, וְאִם נִתְמַלֵּא הַכְּלִי, שׁוֹפֵךְ וְשׁוֹנֶה וְאֵינוֹ נִמְנָע.

"Deixa-se cair frutas pela clarabóia" — quem tem frutas ou grãos estendidos no telhado para secar, e vê a chuva se aproximando, foi-lhe permitido esforçar-se e lançá-los pela clarabóia do telhado, e eles caem no chão, pois não há esforço excessivo nisso; e especificamente pela clarabóia, pois toda clarabóia vai de cima para baixo no teto do telhado, mas uma janela — como um telhado cercado por paredes com uma janela na parede, que exigiria erguer os produtos até a janela e lançá-los — tanto esforço os sábios não permitiram. "E cobrem-se as frutas" — e não dizemos que é um esforço desnecessário ao dia de festa, pois por causa de prejuízo financeiro os sábios o permitiram. "Gotejar" — chuvas que pingam do telhado. "E do mesmo modo jarros de vinho e jarros de azeite" — cobrem-nos contra o gotejar. "Sob o gotejar" — para recolher a água, para que não sujem a casa; e se o utensílio se enche, esvazia-o e o coloca de novo, sem se abster.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi, no início do daf, discute a etimologia do primeiro verbo da mishná — mashilín, mashirín ou manshirín —, todas formas aceitas para descrever o ato de fazer cair os produtos pela abertura do telhado.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Beitzá 35b
מַתְנִי' מַשִּׁילִין פֵּרוֹת דֶּרֶךְ אֲרֻבָּה — מִי שֶׁיֵּשׁ לוֹ חִטִּין וּשְׂעוֹרִין שְׁטוּחִין עַל גַּגּוֹ לְהִתְיַבֵּשׁ וְרָאָה גְּשָׁמִים מְמַשְׁמְשִׁין וּבָאִין, מֻתָּר לְהַשִּׁילָן דֶּרֶךְ אֲרֻבָּה שֶׁבַּגַּג.

"A mishná: deixa-se cair frutas pela clarabóia" — quem tem trigo e cevada estendidos no telhado para secar, e vê a chuva se aproximando, é permitido deixá-los cair pela clarabóia do telhado; a Guemará discute ainda, sobre o verbo da mishná, se se diz "mashilín", "mashirín" ou "manshirín" — as três formas descrevendo o mesmo ato de lançar os produtos para baixo.