Não se produz fogo, nem da madeira, nem das pedras, nem da terra, nem da água; e não se alvejam as telhas para assar sobre elas. — Gerar uma chama do nada — seja atritando madeiras, seja com pedras que produzem faíscas ao serem talhadas, seja de certa terra que solta fogo ao ser escavada, seja concentrando o sol através de água em recipiente de vidro — é proibido em dia de festa por constituir uma criação nova (molid), e não uma simples transferência de uma chama já existente. E não se aquecem telhas novas ao fogo para que endureçam e sirvam de superfície para assar, pois isso é fabricar um utensílio.
E Rabi Eliezer disse ainda: fica a pessoa sobre o muktzê na véspera de Shabat do sétimo ano e diz: daqui como amanhã. E os sábios dizem: até que marque e diga: daqui até aqui. — No sétimo ano, quando não há obrigação de separar dízimos, Rabi Eliezer permite que a pessoa se contente em designar verbalmente, de véspera, a área do muktzê da qual pretende comer no dia seguinte, sem necessidade de marcação física — pois entende que existe bereirá, o princípio segundo o qual a escolha futura pode retroagir e validar a designação anterior. Os sábios exigem mais: que a pessoa efetivamente marque um sinal delimitando o espaço específico, dizendo "daqui até aqui", pois não aceitam esse princípio de retroatividade.
Assim como D-us "completou" a criação no sétimo dia sem criar algo novo, também ao ser humano é vedado, em dia sagrado, o ato de trazer à existência algo que antes não havia — e a chama gerada do nada é o exemplo mais direto desse princípio. A tradição chama esse ato de molid, "gerar", termo que ecoa deliberadamente a linguagem da criação: transferir fogo já existente de uma vela a outra é permitido, pois nada de novo se cria, apenas se transporta; mas produzir a centelha original, por qualquer meio, é vedado tanto em Shabat quanto no dia de festa. A segunda parte da mishná, sobre a designação do muktzê no ano sabático, aplica esse mesmo cuidado com o "novo" a outra dimensão — o quanto a intenção humana, expressa apenas em palavras, pode determinar de antemão o que ainda não existe como escolha concreta.
O Rambam explica por que apenas telhas novas ficam proibidas de serem alvejadas, e detalha o fundamento da designação de Rabi Eliezer no sétimo ano, ligado à ausência de obrigação de dízimo; Bartenura acrescenta o motivo pelo qual a mishná introduz este segundo dito com a palavra "ainda".
"Não se produz fogo, nem da madeira etc." — "E Rabi Eliezer disse ainda: fica a pessoa sobre o muktzê etc." — "telhas" são tijolos queimados em fornalha, e a proibição de alvejá-las vale apenas para as novas dentre elas, pois estas se queimam e se fortalecem, e parece consertar um utensílio em dia de festa; mas as pedras e telhas velhas é permitido alvejá-las e cozinhar e assar sobre elas. E "muktzê" aqui é uma superfície onde se estendem figos, uvas e outros frutos para secar. E o que condicionou ao sétimo ano é porque em outro ano, que não seja sétimo, é proibido comer o que se encontra naquela superfície em dia de Shabat até que se retirem seus dízimos, pois o princípio entre nós é que o Shabat fixa a obrigação de dízimo; e o sétimo ano não está obrigado em dízimos. E a halachá não segue Rabi Eliezer.
"Não se produz fogo" — por gerar algo novo (molid), o que se assemelha a um trabalho, pois cria este fogo em dia de festa. "Da terra" — há solo que, ao ser escavado, produz fogo do próprio local escavado. "Nem da água" — coloca-se água num recipiente de vidro branco e o expõe ao sol quando está muito quente, e o vidro produz uma chama. "Telhas" — utensílios de barro ocos no meio, com que se cobrem os telhados. "Não se alvejam as telhas" — especificamente as novas, pois isso as transforma em utensílio nesse aquecimento, já que endurecem e se fortalecem por meio do fogo. "E disse ainda Rabi Eliezer" — porque ensinou uma leniência a respeito do muktzê e depois disse outra, por isso diz "ainda". "Fica a pessoa sobre o muktzê" — que precisa de designação, e a designação vale para ela. "Na véspera de Shabat do sétimo ano" — pois nele não vigora dízimo, e falta apenas a designação. "Daqui tomarei amanhã" — e basta com isso, pois há bereirá. "Até que marque" — com um sinal, pois não há bereirá. E a halachá segue os sábios.
Rashi explica, no início do daf, o fundamento do molid ao proibir gerar fogo a partir da água, encerrando o perek antes da abertura do daf seguinte com a continuação sobre o muktzê do sétimo ano.
"E não se produz fogo" — por gerar algo novo (molid). "Da água" — coloca-se água num recipiente de vidro branco e o expõe ao sol quando o sol está muito quente, e o vidro produz uma chama; e trazem estopa e a aproximam, e ela se acende.
"A mishná: e disse ainda Rabi Eliezer" — porque ensinou uma leniência a respeito do muktzê, e depois disse outra, por isso diz "ainda", introduzindo a segunda leniência que fecha o perek.
Aqui se completa o Perek Dalet — sete mishnayot dedicadas aos limites do que se pode transportar, cortar, rachar, fabricar ou acender em dia de festa: o transporte de jarros e palha em modo distinto do de dia comum (4:1), a madeira da sucá e do campo (4:2), o cutelo do açougueiro e a casa cheia de frutas (4:3), a lamparina e o pavio cortado com fogo (4:4), os cacos, o forno e a vara do animal (4:5), a lasca e os gravetos do quintal segundo Rabi Eliezer e os sábios (4:6), e o fogo que não se produz do nada, encerrando com a designação do muktzê no sétimo ano (4:7). O tratado prossegue no Perek Hei, o último de Massechet Beitzá.