Seder Moed · Massechet Beitzá · Perek Dalet · Mishná 7 de 7 (última do perek)

Não se produz fogo, e a designação sobre o muktzê no sétimo ano

אֵין מוֹצִיאִין אֶת הָאוּר
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Fechando o Perek Dalet, a mishná proíbe produzir fogo do nada por qualquer meio em dia de festa, e registra uma segunda leniência de Rabi Eliezer sobre a designação verbal de frutos muktzê na véspera de Shabat do ano sabático.

Não se produz fogo, nem da madeira, nem das pedras, nem da terra, nem da água; e não se alvejam as telhas para assar sobre elas.Gerar uma chama do nada — seja atritando madeiras, seja com pedras que produzem faíscas ao serem talhadas, seja de certa terra que solta fogo ao ser escavada, seja concentrando o sol através de água em recipiente de vidro — é proibido em dia de festa por constituir uma criação nova (molid), e não uma simples transferência de uma chama já existente. E não se aquecem telhas novas ao fogo para que endureçam e sirvam de superfície para assar, pois isso é fabricar um utensílio.

E Rabi Eliezer disse ainda: fica a pessoa sobre o muktzê na véspera de Shabat do sétimo ano e diz: daqui como amanhã. E os sábios dizem: até que marque e diga: daqui até aqui.No sétimo ano, quando não há obrigação de separar dízimos, Rabi Eliezer permite que a pessoa se contente em designar verbalmente, de véspera, a área do muktzê da qual pretende comer no dia seguinte, sem necessidade de marcação física — pois entende que existe bereirá, o princípio segundo o qual a escolha futura pode retroagir e validar a designação anterior. Os sábios exigem mais: que a pessoa efetivamente marque um sinal delimitando o espaço específico, dizendo "daqui até aqui", pois não aceitam esse princípio de retroatividade.

אֵין מוֹצִיאִין אֶת הָאוּר לֹא מִן הָעֵצִים, וְלֹא מִן הָאֲבָנִים, וְלֹא מִן הֶעָפָר, וְלֹא מִן הַמַּיִם, וְאֵין מְלַבְּנִין אֶת הָרְעָפִים לִצְלוֹת בָּהֶן. וְעוֹד אָמַר רַבִּי אֱלִיעֶזֶר, עוֹמֵד אָדָם עַל הַמֻּקְצֶה עֶרֶב שַׁבָּת בַּשְּׁבִיעִית, וְאוֹמֵר, מִכָּאן אֲנִי אוֹכֵל לְמָחָר. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים, עַד שֶׁיִּרְשֹׁם וְיֹאמַר, מִכָּאן וְעַד כָּאן:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Bereshit 2:2-3
וַיְכַל אֱלֹהִים בַּיּוֹם הַשְּׁבִיעִי מְלַאכְתּוֹ אֲשֶׁר עָשָׂה... וַיְבָרֶךְ אֱלֹהִים אֶת יוֹם הַשְּׁבִיעִי וַיְקַדֵּשׁ אֹתוֹ.
E completou D-us no sétimo dia a Sua obra que fizera... e D-us abençoou o sétimo dia e o santificou.

Assim como D-us "completou" a criação no sétimo dia sem criar algo novo, também ao ser humano é vedado, em dia sagrado, o ato de trazer à existência algo que antes não havia — e a chama gerada do nada é o exemplo mais direto desse princípio. A tradição chama esse ato de molid, "gerar", termo que ecoa deliberadamente a linguagem da criação: transferir fogo já existente de uma vela a outra é permitido, pois nada de novo se cria, apenas se transporta; mas produzir a centelha original, por qualquer meio, é vedado tanto em Shabat quanto no dia de festa. A segunda parte da mishná, sobre a designação do muktzê no ano sabático, aplica esse mesmo cuidado com o "novo" a outra dimensão — o quanto a intenção humana, expressa apenas em palavras, pode determinar de antemão o que ainda não existe como escolha concreta.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam explica por que apenas telhas novas ficam proibidas de serem alvejadas, e detalha o fundamento da designação de Rabi Eliezer no sétimo ano, ligado à ausência de obrigação de dízimo; Bartenura acrescenta o motivo pelo qual a mishná introduz este segundo dito com a palavra "ainda".

Rambam · Perush HaMishná, Beitzá 4:7
אֵין מוֹצִיאִין אֶת הָאוּר לֹא מִן הָעֵצִים כוּ': וְעוֹד אָמַר רַבִּי אֱלִיעֶזֶר עוֹמֵד אָדָם עַל הַמֻּקְצֶה כוּ': רְעָפִים — לְבֵנִים שְׂרוּפוֹת בְּכִבְשָׁן, וְאֵינוֹ אוֹסֵר לְלַבֵּן הָרְעָפִים אֶלָּא הַחֲדָשִׁים מֵהֶם, לְפִי שֶׁהֵם נִשְׂרָפִים וּמִתְחַזְּקוֹת, וְנִרְאֶה כִּמְתַקֵּן כְּלִי בְּיוֹם טוֹב; אֲבָל הָאֲבָנִים וְהָרְעָפִים הַיְּשָׁנִים מֻתָּר לְלַבְּנָם וּלְבַשֵּׁל וְלִצְלוֹת עֲלֵיהֶם. וּמֻקְצֶה הוּא מִשְׁטָח שֶׁשּׁוֹטְחִין בּוֹ תְּאֵנִים וַעֲנָבִים וְזוּלָתָם לְיַבֵּשׁ. וּמַה שֶּׁהִתְנָה בַּשְּׁבִיעִית, לְפִי שֶׁבְּשָׁנָה אַחֶרֶת שֶׁלֹּא תִּהְיֶה שְׁבִיעִית אָסוּר לֶאֱכֹל מַה שֶּׁנִּמְצָא בְּאוֹתוֹ מִשְׁטָח בְּיוֹם שַׁבָּת עַד שֶׁיּוֹצִיאוּ מַעַשְׂרוֹתָיו, כִּי עִקָּר אֶצְלֵנוּ שַׁבָּת קוֹבַעַת לְמַעַשְׂרוֹת. וּשְׁבִיעִית אֵינָהּ חַיֶּבֶת בְּמַעַשְׂרוֹת. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי אֱלִיעֶזֶר.

"Não se produz fogo, nem da madeira etc." — "E Rabi Eliezer disse ainda: fica a pessoa sobre o muktzê etc." — "telhas" são tijolos queimados em fornalha, e a proibição de alvejá-las vale apenas para as novas dentre elas, pois estas se queimam e se fortalecem, e parece consertar um utensílio em dia de festa; mas as pedras e telhas velhas é permitido alvejá-las e cozinhar e assar sobre elas. E "muktzê" aqui é uma superfície onde se estendem figos, uvas e outros frutos para secar. E o que condicionou ao sétimo ano é porque em outro ano, que não seja sétimo, é proibido comer o que se encontra naquela superfície em dia de Shabat até que se retirem seus dízimos, pois o princípio entre nós é que o Shabat fixa a obrigação de dízimo; e o sétimo ano não está obrigado em dízimos. E a halachá não segue Rabi Eliezer.

Bartenura · Beitzá 4:7
אֵין מוֹצִיאִין אֶת הָאוּר. מִשּׁוּם דְּמוֹלִיד וְדָמֵי לִמְלָאכָה, שֶׁבּוֹרֵא הָאֵשׁ הַזֶּה בְּיוֹם טוֹב. מִן הֶעָפָר. יֵשׁ קַרְקַע כְּשֶׁחוֹפְרִין אוֹתָהּ מוֹצִיאָה אוּר מִמְּקוֹם מַחְפֹּרֶת שֶׁלָּהּ. וְלֹא מִן הַמַּיִם. נוֹתְנִים מַיִם בִּכְלִי זְכוּכִית לְבָנָה וְנוֹתְנוֹ בַּחַמָּה כְּשֶׁהַשֶּׁמֶשׁ חַם מְאֹד, וְהַזְּכוּכִית מוֹצִיאָה שַׁלְהֶבֶת. רְעָפִים. כְּלֵי חֶרֶס חֲלוּלִים בְּאֶמְצָעָן שֶׁמְּכַסִּים בָּהֶן הַגַּגּוֹת. אֵין מְלַבְּנִין אֶת הָרְעָפִים. דַּוְקָא בִּרְעָפִים חֲדָשִׁים, מִשּׁוּם דְּמַשְׁוֵי לֵיהּ מָנָא בְּהֶסֵּק זֶה, שֶׁהֵן מִתְחַסְּמִין וּמִתְחַזְּקִים עַל יְדֵי הָאוּר. וְעוֹד אָמַר רַבִּי אֱלִיעֶזֶר. מִשּׁוּם דְּתָנָא אַחַת לְקֻלָּא גַּבֵּי מֻקְצֶה וְהָדָר אָמַר אַחֲרִיתִי, קָאָמַר וְעוֹד. עוֹמֵד אָדָם עַל הַמֻּקְצֶה. הַצָּרִיךְ הַזְמָנָה, וְהַזְמָנָה מוֹעֶלֶת לוֹ. עֶרֶב שַׁבָּת בַּשְּׁבִיעִית. שֶׁאֵין מַעֲשֵׂר נוֹהֵג בָּהּ, וְאֵין מְחֻסָּר אֶלָּא הַזְמָנָה. מִכָּאן אֲנִי נוֹטֵל לְמָחָר. וְסַגִּי בְּהָכִי, דְּיֵשׁ בְּרֵרָה. עַד שֶׁיִּרְשֹׁם. בְּסִימָן, דְּאֵין בְּרֵרָה. וַהֲלָכָה כַּחֲכָמִים.

"Não se produz fogo" — por gerar algo novo (molid), o que se assemelha a um trabalho, pois cria este fogo em dia de festa. "Da terra" — há solo que, ao ser escavado, produz fogo do próprio local escavado. "Nem da água" — coloca-se água num recipiente de vidro branco e o expõe ao sol quando está muito quente, e o vidro produz uma chama. "Telhas" — utensílios de barro ocos no meio, com que se cobrem os telhados. "Não se alvejam as telhas" — especificamente as novas, pois isso as transforma em utensílio nesse aquecimento, já que endurecem e se fortalecem por meio do fogo. "E disse ainda Rabi Eliezer" — porque ensinou uma leniência a respeito do muktzê e depois disse outra, por isso diz "ainda". "Fica a pessoa sobre o muktzê" — que precisa de designação, e a designação vale para ela. "Na véspera de Shabat do sétimo ano" — pois nele não vigora dízimo, e falta apenas a designação. "Daqui tomarei amanhã" — e basta com isso, pois há bereirá. "Até que marque" — com um sinal, pois não há bereirá. E a halachá segue os sábios.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi explica, no início do daf, o fundamento do molid ao proibir gerar fogo a partir da água, encerrando o perek antes da abertura do daf seguinte com a continuação sobre o muktzê do sétimo ano.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Beitzá 33a-34a
וְאֵין מוֹצִיאִין אֶת הָאוּר — מִשּׁוּם דְּמוֹלִיד. מִן הַמַּיִם — נוֹתְנִים מַיִם בִּכְלִי זְכוּכִית לְבָנָה וְנוֹתְנוֹ בַּחַמָּה כְּשֶׁהַשֶּׁמֶשׁ חַם מְאֹד וְהַזְּכוּכִית מוֹצִיאָה שַׁלְהֶבֶת, וּמְבִיאִין נְעֹרֶת וּמַגִּיעִים בָּהּ וְנִדְלֶקֶת. מַתְנִי' וְעוֹד אָמַר רַבִּי אֱלִיעֶזֶר — מִשּׁוּם דְּתָנָא אַחַת לְקֻלָּא גַּבֵּי מֻקְצֶה וְהָדָר אָמַר אַחֲרִיתִי, קָאָמַר וְעוֹד.

"E não se produz fogo" — por gerar algo novo (molid). "Da água" — coloca-se água num recipiente de vidro branco e o expõe ao sol quando o sol está muito quente, e o vidro produz uma chama; e trazem estopa e a aproximam, e ela se acende.

"A mishná: e disse ainda Rabi Eliezer" — porque ensinou uma leniência a respeito do muktzê, e depois disse outra, por isso diz "ainda", introduzindo a segunda leniência que fecha o perek.

Aqui se completa o Perek Dalet — sete mishnayot dedicadas aos limites do que se pode transportar, cortar, rachar, fabricar ou acender em dia de festa: o transporte de jarros e palha em modo distinto do de dia comum (4:1), a madeira da sucá e do campo (4:2), o cutelo do açougueiro e a casa cheia de frutas (4:3), a lamparina e o pavio cortado com fogo (4:4), os cacos, o forno e a vara do animal (4:5), a lasca e os gravetos do quintal segundo Rabi Eliezer e os sábios (4:6), e o fogo que não se produz do nada, encerrando com a designação do muktzê no sétimo ano (4:7). O tratado prossegue no Perek Hei, o último de Massechet Beitzá.