Seder Zeraim · Massechet Bikurim · Perek Bet · Mishná 1

"A terumá e os bikurim"

הַתְּרוּמָה וְהַבִּכּוּרִים
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Mishná de abertura do Perek Bet: inicia uma sequência comparativa de cinco mishnayot que examina, ponto a ponto, o que terumá, bikurim e maasser sheni têm em comum e o que os distingue entre si — aqui, os traços que terumá e bikurim compartilham, ausentes do maasser

A terumá e os bikurim, são obrigados por eles morte e quinto (o estranho — não-cohen — que os come intencionalmente incorre em pena de morte pelas mãos do Céu; se os come por engano, deve restituir o valor principal acrescido de um quinto), e são proibidos aos estranhos (a não-cohanim, mesmo sem intenção de transgredir), e eles são bens do cohen (pertencem-lhe como propriedade plena, podendo vendê-los e adquirir com seu valor outros bens), e sobem em um e cem (se se misturam, sem que se saiba, com produtos comuns, anulam-se numa proporção de um para cem), e requerem lavagem das mãos e o pôr-do-sol (quem os toca precisa antes lavar as mãos; e o impuro que se imergiu não pode comê-los até o pôr-do-sol do mesmo dia). Eis que estes [traços aplicam-se] à terumá e aos bikurim, o que não é assim quanto ao maasser (o maasser — dízimo comum, ou "maasser rishon" — não compartilha nenhum destes cinco traços, como se detalhará na mishná seguinte).

הַתְּרוּמָה וְהַבִּכּוּרִים, חַיָּבִים עֲלֵיהֶן מִיתָה וְחֹמֶשׁ, וַאֲסוּרִים לְזָרִים, וְהֵם נִכְסֵי כֹהֵן, וְעוֹלִין בְּאֶחָד וּמֵאָה, וּטְעוּנִין רְחִיצַת יָדַיִם וְהַעֲרֵב שֶׁמֶשׁ. הֲרֵי אֵלּוּ בִתְרוּמָה וּבִכּוּרִים, מַה שֶׁאֵין כֵּן בַּמַּעֲשֵׂר:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

O Perek Bet muda de registro: em vez de detalhar quem traz bikurim e recita, compara sistematicamente bikurim com terumá e maasser. A base para a equiparação entre terumá e bikurim está na própria linguagem da Torá, que chama os bikurim de "terumá".

Devarim (Deuteronômio) 26:2-4 · Vaicrá (Levítico) 22:9
וְלָקַח הַכֹּהֵן הַטֶּנֶא מִיָּדֶךָ... וּשְׁמַרְתֶּם אֶת מִשְׁמַרְתִּי וְלֹא יִשְׂאוּ עָלָיו חֵטְא וּמֵתוּ בוֹ כִּי יְחַלְּלֻהוּ.
"E o cohen tomará o cesto de tua mão..." — a colocação dos bikurim na mão do cohen, tal como se dá com a terumá, é o que fundamenta a equiparação entre as duas. Já o versículo de Vaicrá, dito diretamente sobre a terumá — "e guardareis o Meu preceito, e não trarão sobre si pecado, e morrerão por isso quando o profanarem" — é a fonte da pena de morte pelas mãos do Céu para o estranho que a come intencionalmente. Como a Torá emprega, em outro lugar, a expressão "terumat yadecha" (a oferta alçada de tua mão) referindo-se aos bikurim, os Sábios aplicaram a eles, por extensão textual, todo o regime jurídico da terumá.

Por que o capítulo muda repentinamente de tom, deixando de tratar "quem traz e recita" para comparar categorias jurídicas inteiras? O Perek Alef mapeou o universo de pessoas e situações em relação ao ato de trazer bikurim. O Perek Bet dá um passo atrás e pergunta: uma vez que os bikurim chegam às mãos do cohen, que regime jurídico os rege — o da terumá, o do maasser, ou um regime próprio? A resposta da Mishná é sofisticada: os bikurim compartilham traços com ambos, e também têm traços exclusivamente seus. Esta mishná de abertura trata do primeiro bloco — o que bikurim compartilham com a terumá, mas não com o maasser: a gravidade da transgressão (morte e quinto), a proibição a estranhos, a propriedade plena do cohen, a anulação em cento e um, e as exigências rituais de pureza (lavagem das mãos e pôr-do-sol) para quem os toca ou come.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam codifica a equiparação entre bikurim e terumá em Hilchot Bikurim, capítulo 3, e reúne as leis de propriedade do cohen sobre bikurim, terumot e outros dons sacerdotais em Hilchot Bikurim, capítulo 4.

Rambam · Hilchot Bikurim 3:1
הַבִּכּוּרִים נוֹתְנִין אוֹתָן לְאַנְשֵׁי מִשְׁמָר וְהֵן מְחַלְּקִים אוֹתָן בֵּינֵיהֶן כְּקָדְשֵׁי הַמִּקְדָּשׁ. וּכְבָר בֵּאַרְנוּ שֶׁהֵן קְרוּיִין תְּרוּמָה. וּלְפִיכָךְ זָר שֶׁאָכַל בִּכּוּרִים בְּמֵזִיד לוֹקֶה וּמְשַׁלֵּם אֶת הַקֶּרֶן, וְאִם אֲכָלָן בְּשׁוֹגֵג מְשַׁלֵּם קֶרֶן וְחֹמֶשׁ כִּתְרוּמָה.
Os bikurim, dão-nos aos homens do turno sacerdotal, e eles os dividem entre si como as coisas sagradas do Templo. E já explicamos que eles são chamados de terumá. E por isso, o estranho que come bikurim intencionalmente é açoitado e paga o principal, e se os comeu por engano, paga o principal e o quinto, como na terumá (o Rambam confirma explicitamente, no início do capítulo dedicado justamente aos direitos do cohen sobre os bikurim, que o fundamento de toda a equiparação desta mishná é o próprio nome "terumá" aplicado aos bikurim pela Torá).
Rambam · Hilchot Bikurim 4:14
הַבִּכּוּרִים וְהַתְּרוּמוֹת וְהַחַלָּה וְהַקֶּרֶן וְהַחֹמֶשׁ וּמַתְּנוֹת בְּהֵמָה הֵם נִכְסֵי כֹּהֵן. יֵשׁ לוֹ לִקְנוֹת מֵהֶן עֲבָדִים וְקַרְקָעוֹת וּבְהֵמָה טְמֵאָה, וּבַעַל חוֹב נוֹטְלָן בְּחוֹבוֹ וְהָאִשָּׁה בִּכְתֻבָּתָהּ.
Os bikurim, e as terumot, e a chalá, e o principal, e o quinto, e os dons de gado, são bens do cohen. Tem ele o direito de comprar com eles escravos, terras e gado impuro, e o credor os toma por sua dívida, e a mulher por sua ketubá (o Rambam detalha exatamente o que significa "bens do cohen": não apenas o direito de consumo, mas propriedade plena e transferível, equiparável a qualquer outro patrimônio pessoal).

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta abertura comparativa do Perek Bet.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Bikurim 2:1
כבר בארנו שהבכורים נקראים תרומה, וכבר בארנו בפרק ג' ממסכת תרומה שהראיה מן הכתוב שאמר והבאתם שמה עולותיכם ואמר ותרומת ידך אלו בכורים, על כן נתחייבו הבכורים בכל דיני תרומה כמו שבארנו בערלה. וענין אמרם הן נכסי כהן שהוא מקדש אשה בהן. ואמר מה שאין כן במעשר, מבואר לפי שטבול יום אוכל במעשר.

Já explicamos que os bikurim são chamados de terumá, e já explicamos no capítulo terceiro do tratado de Terumot que a prova a partir do versículo que diz "e trareis para lá vossas ofertas queimadas" e diz "e a terumá de tua mão" — estes são os bikurim; por isso os bikurim foram obrigados em todas as leis da terumá (o Rambam remete a uma discussão paralela sua no tratado de Terumot, mostrando que esta equiparação não é exclusiva de Bikurim, mas parte de um princípio hermenêutico mais amplo sobre a linguagem da Torá), como já explicamos em Orlá. E o sentido de dizerem "são bens do cohen" é que com eles pode consagrar uma mulher em casamento (um exemplo concreto e vívido de propriedade plena: o cohen pode usar bikurim ou terumá como o objeto de valor entregue à noiva no ato do casamento). E o que disseram "o que não é assim no maasser" — compreende-se, pois quem se imergiu no mesmo dia [antes do pôr-do-sol] já pode comer do maasser (diferentemente da terumá e dos bikurim, que exigem esperar o pôr-do-sol completo).

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Bikurim 2:1
הַתְּרוּמָה וְהַבִּכּוּרִים חַיָּבִין עֲלֵיהֶן מִיתָה. זָר הָאוֹכְלָן בְּמֵזִיד חַיָּב מִיתָה בִּידֵי שָׁמַיִם, דִּכְתִיב בַּתְּרוּמָה וּמֵתוּ בוֹ כִּי יְחַלְּלֻהוּ, וּבִכּוּרִים אִקְּרוּ תְּרוּמָה, דְּאָמַר מַר וּתְרוּמַת יָדֶךָ אֵלּוּ בִכּוּרִים. וְחֹמֶשׁ, הָאוֹכְלָן שׁוֹגֵג מְשַׁלֵּם קֶרֶן לַבְּעָלִים וְחֹמֶשׁ לְכָל כֹּהֵן שֶׁיִּרְצֶה. וְהֵן נִכְסֵי כֹהֵן, שֶׁיָּכוֹל לְמָכְרָן וְלִקַּח בָּהֶן עֲבָדִים וְקַרְקָעוֹת וּבְהֵמָה טְמֵאָה.

"A terumá e os bikurim, são obrigados por eles morte": o estranho que os come intencionalmente é obrigado à morte pelas mãos do Céu, pois está escrito quanto à terumá "e morrerão por isso quando o profanarem", e os bikurim chamam-se terumá, pois disse o Mestre "e a terumá de tua mão" — estes são os bikurim (o Bartenura, seguindo de perto o Rambam, ancora toda a mishná neste único elo textual: a expressão "terumat yadecha" aplicada aos bikurim). "E o quinto": o que os come por engano paga o principal aos donos e o quinto a qualquer cohen que quiser (esclarecendo que o pagamento do quinto não precisa ir ao mesmo cohen prejudicado — qualquer cohen serve, pois o quinto é uma penalidade geral, não uma restituição pessoal). "E são bens do cohen": que pode vendê-los e comprar com eles escravos, terras e gado impuro (reiterando a plena disponibilidade patrimonial que caracteriza os bens do cohen).

Massechet Bikurim não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi foi omitido em todas as mishnayot deste tratado.