Há no maasser e nos bikurim o que não há na terumá, que o maasser e os bikurim requerem trazer ao Lugar (exigem ser levados a Jerusalém, onde o Templo se ergue; a terumá comum, dada ao cohen onde quer que esteja, não tem essa exigência), e requerem confissão (vidui — a declaração formal recitada perante Deus), e são proibidos ao endoluído (o onen — quem perdeu, no mesmo dia, um parente próximo pelo qual é obrigado a lutar — está proibido de comer maasser e bikurim). Rabi Shimon permite (Rabi Shimon é mais brando e permite ao onen comer bikurim, por considerá-los sujeitos apenas às regras da terumá comum, à qual o onen não é proibido). E são obrigados à eliminação (biur — a obrigação de retirá-los do mundo, entregando-os ou destruindo-os, ao término do terceiro ano do ciclo de dízimos). E Rabi Shimon isenta (também aqui Rabi Shimon isenta os bikurim da obrigação de biur, por equipará-los à terumá, que não a exige). E são proibidos, em qualquer quantidade, de serem comidos em Jerusalém (se maasser ou bikurim se misturam com produtos comuns dentro de Jerusalém, a mistura toda fica proibida como não-sagrada, mesmo que a proporção fosse mínima — pois ali existe sempre um "caminho de permissão": comê-la toda com a santidade própria). E seus brotos são proibidos de serem comidos em Jerusalém, mesmo a estranhos e ao gado (se a mistura proibida for plantada e brotar, o que cresce também herda a proibição, estendendo-se mesmo a quem normalmente poderia comer produtos comuns). Rabi Shimon permite (aqui Rabi Shimon discorda apenas quanto aos brotos, considerando-os já afastados o bastante da substância original para se anularem). Eis que estes [traços aplicam-se] ao maasser e aos bikurim, o que não é assim quanto à terumá.
A base para "trazer ao Lugar" e "confissão" está na própria parashá do maasser sheni, e por extensão textual, na dos bikurim.
Por que Rabi Shimon discorda tantas vezes nesta única mishná — permitindo ao onen, isentando do biur, e permitindo os brotos? Rabi Shimon segue uma linha interpretativa consistente ao longo de todo este bloco comparativo: para ele, o fato de a Torá chamar os bikurim de "terumá" (como visto na mishná anterior) não é meramente uma analogia pontual, mas uma identidade jurídica quase completa. Por isso, onde a terumá é permissiva — permitida ao onen, isenta de biur — Rabi Shimon estende essa permissividade também aos bikurim, mesmo quando a maioria dos Sábios prefere aplicar-lhes o regime mais rigoroso do maasser sheni nestes pontos específicos. A halachá, como os comentadores confirmam, não segue Rabi Shimon nesta mishná.
O Rambam codifica a proibição ao onen e a regra da mistura em Jerusalém em Hilchot Maasser Sheni, capítulo 3, e a obrigação de biur em Hilchot Bikurim, capítulo 4.
O que os grandes comentadores dizem sobre este segundo bloco comparativo — e sobre a lógica por trás da regra "mistura em Jerusalém não se anula".
Quando se mistura ainda que uma medida pequena de maasser sheni ou de bikurim, ainda que em várias cargas de produto comum, e essa mistura estiver dentro de Jerusalém apenas, o julgamento dessa mistura será como o julgamento do maasser sheni ou dos bikurim, e não se diz dela que se anula em um para cem (o Rambam explica o princípio central por trás desta cláusula da mishná: dentro de Jerusalém, onde tanto maasser quanto bikurim podem legitimamente ser consumidos com sua santidade original intacta, não há razão prática para "anular" a mistura — pode-se simplesmente comer tudo com a santidade apropriada), porque é uma coisa que tem quem a permita, pois se diz a seu dono: já que estás em Jerusalém, que é o lugar de comer o maasser e os bikurim... come tudo segundo a lei do maasser (este é o conceito talmúdico de "davar she-yesh lo matirin" — algo que tem um caminho lícito de ser consumido — que, segundo a regra geral, nunca se anula por mistura, por mínima que seja, precisamente porque existe sempre uma solução que dispensa a anulação).
"Requerem trazer ao Lugar": para levá-los a Jerusalém, pois está escrito "e trareis para lá vossas ofertas queimadas e vossos sacrifícios e vossos dízimos e a oferta alçada de vossa mão" (um único versículo, no Bartenura, funde os quatro elementos — ofertas, sacrifícios, dízimos e a "terumá de mão" identificada com os bikurim — todos sujeitos à mesma exigência de peregrinação). "E Rabi Shimon permite" bikurim ao endoluído, pois a Misericórdia os chamou de terumá, e a terumá é permitida ao endoluído (o Bartenura resume, numa frase, toda a lógica de Rabi Shimon ao longo desta mishná: a identidade nominal "bikurim = terumá" prevalece, para ele, sobre a identidade funcional "bikurim = maasser" que a opinião majoritária prefere aqui). "Mesmo a estranhos e ao gado": se são bikurim, proíbem a mistura a estranhos; se é maasser, proíbe ao gado — para que não se pense que a proibição vale apenas quanto a comer fora de Jerusalém (o Bartenura antecipa e resolve uma possível confusão: a extensão da proibição aos "estranhos" aplica-se especificamente quando se trata de bikurim, e ao "gado" quando se trata de maasser — não que ambas as extensões se apliquem sempre a ambos).