O sangue dos que andam em dois [pés] é igual ao sangue de animal, para tornar apto os grãos (entre os sete líquidos que, segundo a Torá, tornam alimentos vegetais aptos a receber impureza ritual se ainda desejados pelo dono, está o sangue; esta mishná ensina que o sangue humano tem esse mesmo poder de "tornar apto", equiparando-se ao sangue de animal, que já era sabido ter esse efeito). E o sangue do réptil, não são obrigados por ele (diferentemente do sangue humano e do sangue de animal, o sangue dos oito répteis impuros mencionados na Torá — sherátsim — não tem esse poder de tornar grãos aptos a receber impureza; e quanto a seu consumo, não gera a obrigação distinta que se aplica a quem come sangue propriamente, mas é tratado como parte da própria carne do réptil).
A base para "tornar apto" está em Vaicrá, na lista dos sete líquidos, e o sangue do réptil deriva de uma leitura específica da proibição de sherátsim.
Por que esta mishná breve interrompe o fluxo do capítulo entre a discussão do etrog e a longa análise do koi que se segue? Os comentadores explicam que se trata de uma ponte temática deliberada: a Mishná está prestes a dedicar cinco mishnayot inteiras (2:8-2:11) à criatura chamada koi, cuja característica central é a ambiguidade classificatória — não se sabe ao certo se é animal doméstico (behemá) ou selvagem (chayá). Antes de mergulhar nessa ambiguidade zoológica mais complexa, a Mishná insere uma mishná mais simples sobre outra ambiguidade relacionada ao sangue — a posição do sangue humano, que não é nem exatamente "sangue de behemá" nem "sangue de chayá", mas ainda assim se equipara a ambos para certos efeitos. É uma espécie de aquecimento conceitual para o problema mais elaborado do koi.
Não há, em Hilchot Bikurim, uma halachá dedicada a este tema — ele pertence propriamente às leis de impurezas alimentares (Hilchot Tumat Ochlin) e às leis de alimentos proibidos (Hilchot Maachalot Assurot). Registra-se aqui, com honestidade, que não foi localizada no Mishné Torá uma halachá que trate ponto a ponto desta mishná específica sobre sangue humano tornando grãos aptos; o Rambam discute o sangue do réptil no contexto mais amplo das proibições alimentares.
O que os grandes comentadores dizem sobre esta breve mishná de transição.
"O sangue dos que andam em dois [pés]" é o sangue do homem, e já te precedeu, várias vezes nesta Ordem [de Zeraim], que os sete líquidos tornam apto, e dentre eles o sangue, e equiparou aqui o sangue do homem ao sangue de animal (o Rambam remete a discussões paralelas já feitas em outros tratados da mesma Ordem — provavelmente Machshirin — sobre a lista completa dos sete líquidos que tornam alimentos vegetais suscetíveis à impureza). E já sabes que o nome "réptil" [sherets] recai sobre oito répteis dentre os seres vivos, que é o que disse o Bendito: "e isto vos será impuro entre os répteis que se arrastam sobre a terra: a doninha e o rato" (o Rambam esclarece que "sherets", no contexto desta mishná, não é um termo genérico para qualquer criatura rastejante, mas uma categoria técnica e fechada de exatamente oito espécies nomeadas explicitamente pela Torá).
"O sangue dos que andam em dois": este é o sangue do homem, como o sangue dos mortos por espada [chalalin] (o Bartenura oferece uma analogia vívida — o "sangue humano" da mishná refere-se ao mesmo tipo de sangue mencionado em outros contextos legais sobre vítimas de violência, deixando claro que se trata literalmente de sangue de pessoa, sem ambiguidade). "Para tornar apto": tornar aptos os grãos a receber impureza como o sangue de animal, pois está escrito a respeito dele "sobre a terra o derramarás como água" (o Bartenura ancora a equiparação diretamente no versículo que compara sangue e água — o líquido "modelo" da lista dos sete). "E o sangue do réptil": isto é, e o sangue dos que andam em dois é igual ao sangue do réptil quanto a não serem obrigados por ele por causa de sangue (o Bartenura esclarece a leitura sintática correta da segunda cláusula: não se trata de uma nova comparação entre sangue humano e sangue de réptil quanto a "tornar apto", mas de uma equiparação quanto à ausência de pena de karet — ambos escapam dessa punição específica, ainda que por razões distintas).