Seder Zeraim · Massechet Bikurim · Perek Bet · Mishná 7

"O sangue dos que andam em dois pés"

דַּם מְהַלְּכֵי שְׁתַּיִם
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Nova mudança de assunto: uma mishná breve, de transição, sobre a capacidade do sangue humano de tornar sementes aptas a receber impureza — preparando o terreno conceitual para o longo excurso sobre o koi que ocupa o restante do capítulo

O sangue dos que andam em dois [pés] é igual ao sangue de animal, para tornar apto os grãos (entre os sete líquidos que, segundo a Torá, tornam alimentos vegetais aptos a receber impureza ritual se ainda desejados pelo dono, está o sangue; esta mishná ensina que o sangue humano tem esse mesmo poder de "tornar apto", equiparando-se ao sangue de animal, que já era sabido ter esse efeito). E o sangue do réptil, não são obrigados por ele (diferentemente do sangue humano e do sangue de animal, o sangue dos oito répteis impuros mencionados na Torá — sherátsim — não tem esse poder de tornar grãos aptos a receber impureza; e quanto a seu consumo, não gera a obrigação distinta que se aplica a quem come sangue propriamente, mas é tratado como parte da própria carne do réptil).

דַּם מְהַלְּכֵי שְׁתַּיִם, שָׁוֶה לְדַם בְּהֵמָה, לְהַכְשִׁיר אֶת הַזְּרָעִים. וְדַם הַשֶּׁרֶץ, אֵין חַיָּבִין עָלָיו:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

A base para "tornar apto" está em Vaicrá, na lista dos sete líquidos, e o sangue do réptil deriva de uma leitura específica da proibição de sherátsim.

Vaicrá (Levítico) 11:38 e 11:29 · Devarim (Deuteronômio) 12:16
וְכִי יֻתַּן מַיִם עַל זֶרַע וְנָפַל מִנִּבְלָתָם עָלָיו טָמֵא הוּא לָכֶם... וְזֶה לָכֶם הַטָּמֵא בַּשֶּׁרֶץ הַשֹּׁרֵץ עַל הָאָרֶץ, הַחֹלֶד וְהָעַכְבָּר... עַל הָאָרֶץ תִּשְׁפְּכֶנּוּ כַּמָּיִם.
O princípio de que certos líquidos "tornam apto" um alimento vegetal a receber impureza — caso ainda seja querido por seu dono — deriva da menção de "água" em Vaicrá 11:38, da qual os Sábios extraem, por tradição, uma lista de sete líquidos: água, orvalho, vinho, óleo, sangue, leite e mel de abelha. O sangue de animal está incluído nessa lista com base em "sobre a terra o derramarás como água" (Devarim 12:16), comparando explicitamente sangue e água. Esta mishná estende essa mesma capacidade ao sangue humano — mesmo não sendo diretamente mencionado nesse contexto — e por outro lado a nega ao sangue dos oito répteis impuros listados em Vaicrá 11:29-30, que a Torá trata como uma categoria à parte.

Por que esta mishná breve interrompe o fluxo do capítulo entre a discussão do etrog e a longa análise do koi que se segue? Os comentadores explicam que se trata de uma ponte temática deliberada: a Mishná está prestes a dedicar cinco mishnayot inteiras (2:8-2:11) à criatura chamada koi, cuja característica central é a ambiguidade classificatória — não se sabe ao certo se é animal doméstico (behemá) ou selvagem (chayá). Antes de mergulhar nessa ambiguidade zoológica mais complexa, a Mishná insere uma mishná mais simples sobre outra ambiguidade relacionada ao sangue — a posição do sangue humano, que não é nem exatamente "sangue de behemá" nem "sangue de chayá", mas ainda assim se equipara a ambos para certos efeitos. É uma espécie de aquecimento conceitual para o problema mais elaborado do koi.

Halachot · הֲלָכוֹת

Não há, em Hilchot Bikurim, uma halachá dedicada a este tema — ele pertence propriamente às leis de impurezas alimentares (Hilchot Tumat Ochlin) e às leis de alimentos proibidos (Hilchot Maachalot Assurot). Registra-se aqui, com honestidade, que não foi localizada no Mishné Torá uma halachá que trate ponto a ponto desta mishná específica sobre sangue humano tornando grãos aptos; o Rambam discute o sangue do réptil no contexto mais amplo das proibições alimentares.

Rambam · Perush HaMishná, Bikurim 2:7
דם מהלכי שתים, הוא דם האדם, וכבר קדם לך פעמים בזה הסדר כי ז' משקין מכשירין ומכללם הדם, והשוה בכאן דם האדם לדם בהמה. ואמרו אין חייבין עליו, רצה בו כי מי שאכל דם אלו השרצים אינו חייב כרת כאשר יתחייב אוכל הדם, כי העיקר אצלנו דם השרץ כבשרו.
"O sangue dos que andam em dois [pés]" é o sangue do homem, e já te precedeu, várias vezes nesta Ordem, que os sete líquidos tornam apto, e dentre eles o sangue — e equiparou aqui o sangue do homem ao sangue de animal. E o que disseram "não são obrigados por ele" quer dizer que quem come o sangue destes répteis não é obrigado à karet como se obriga quem come [outro] sangue, pois o princípio entre nós é que o sangue do réptil é como sua própria carne (na ausência de uma halachá dedicada no Mishné Torá para este ponto específico, o próprio comentário do Rambam à Mishná serve aqui como a fonte mais próxima e autorizada, explicando com precisão por que o sangue do réptil escapa da pena de karet reservada ao consumo de sangue: juridicamente, ele não é tratado como "sangue" à parte, mas como parte indissociável da carne proibida do réptil).

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta breve mishná de transição.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Bikurim 2:7
דם מהלכי שתים, הוא דם האדם, וכבר קדם לך פעמים בזה הסדר כי ז' משקין מכשירין ומכללם הדם, והשוה בכאן דם האדם לדם בהמה. וכבר ידעת כי שם שרץ נופל על ח' שרצים מבעלי חיים, והוא אמרם השם יתברך וזה לכם הטמא בשרץ השורץ על הארץ החולד והעכבר.

"O sangue dos que andam em dois [pés]" é o sangue do homem, e já te precedeu, várias vezes nesta Ordem [de Zeraim], que os sete líquidos tornam apto, e dentre eles o sangue, e equiparou aqui o sangue do homem ao sangue de animal (o Rambam remete a discussões paralelas já feitas em outros tratados da mesma Ordem — provavelmente Machshirin — sobre a lista completa dos sete líquidos que tornam alimentos vegetais suscetíveis à impureza). E já sabes que o nome "réptil" [sherets] recai sobre oito répteis dentre os seres vivos, que é o que disse o Bendito: "e isto vos será impuro entre os répteis que se arrastam sobre a terra: a doninha e o rato" (o Rambam esclarece que "sherets", no contexto desta mishná, não é um termo genérico para qualquer criatura rastejante, mas uma categoria técnica e fechada de exatamente oito espécies nomeadas explicitamente pela Torá).

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Bikurim 2:7
דַּם מְהַלְּכֵי שְׁתַּיִם. הַיְנוּ דַּם הָאָדָם, כְּמוֹ דַּם חֲלָלִין. לְהֶכְשֵׁר. לְהַכְשִׁיר אֶת הַזְּרָעִים לְקַבֵּל טֻמְאָה כְּמוֹ דַם בְּהֵמָה, דִּכְתִיב בֵּיהּ עַל הָאָרֶץ תִּשְׁפְּכֶנּוּ כַּמָּיִם. וְדַם הַשֶּׁרֶץ. כְּלוֹמַר וְשָׁוֶה דַּם מְהַלְּכֵי שְׁתַּיִם לְדַם הַשֶּׁרֶץ, שֶׁאֵין חַיָּבִין עָלָיו מִשּׁוּם דָּם.

"O sangue dos que andam em dois": este é o sangue do homem, como o sangue dos mortos por espada [chalalin] (o Bartenura oferece uma analogia vívida — o "sangue humano" da mishná refere-se ao mesmo tipo de sangue mencionado em outros contextos legais sobre vítimas de violência, deixando claro que se trata literalmente de sangue de pessoa, sem ambiguidade). "Para tornar apto": tornar aptos os grãos a receber impureza como o sangue de animal, pois está escrito a respeito dele "sobre a terra o derramarás como água" (o Bartenura ancora a equiparação diretamente no versículo que compara sangue e água — o líquido "modelo" da lista dos sete). "E o sangue do réptil": isto é, e o sangue dos que andam em dois é igual ao sangue do réptil quanto a não serem obrigados por ele por causa de sangue (o Bartenura esclarece a leitura sintática correta da segunda cláusula: não se trata de uma nova comparação entre sangue humano e sangue de réptil quanto a "tornar apto", mas de uma equiparação quanto à ausência de pena de karet — ambos escapam dessa punição específica, ainda que por razões distintas).

Massechet Bikurim não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi foi omitido em todas as mishnayot deste tratado.