O koi tem caminhos em que se assemelha ao animal selvagem [chayá] (o koi é uma criatura de identidade zoológica incerta — segundo algumas opiniões, um híbrido entre cabra doméstica e gazela selvagem; segundo outras, uma espécie própria, cuja natureza os Sábios nunca chegaram a determinar com certeza), e tem caminhos em que se assemelha ao animal doméstico [behemá], e tem caminhos em que se assemelha tanto ao animal doméstico quanto ao selvagem, e tem caminhos em que não se assemelha nem ao animal doméstico nem ao selvagem (esta frase de abertura é puramente estrutural: anuncia que as três mishnayot seguintes desenvolverão, uma a uma, cada uma dessas quatro categorias de leis aplicadas ao koi).
A distinção entre chayá (animal selvagem puro) e behemá (animal doméstico puro) é pressuposta por toda a Torá, ainda que nunca definida explicitamente num único versículo — cada categoria carrega leis próprias sobre cobertura do sangue e gordura.
Por que a Mishná dedica quatro mishnayot inteiras a uma única criatura de identidade incerta? O koi funciona, nesta seção do tratado, como um estudo de caso paradigmático sobre como a halachá lida com dúvida classificatória genuína e irresolúvel. Diferentemente de outros casos de dúvida na Torá — onde geralmente há um procedimento para dirimi-la — o status do koi permanece, segundo o Rambam, uma questão em aberto para sempre: "ainda que fosse uma criatura própria" ou híbrida, "os Sábios não a determinaram". A mishná usa esse caso extremo para ensinar um princípio metodológico mais amplo: quando uma dúvida entre duas categorias legais não pode ser resolvida, a resposta não é escolher arbitrariamente um lado, mas aplicar cuidadosamente as leis de ambas as possibilidades, sempre na direção mais rigorosa (lechumra) — e é exatamente essa metodologia que as mishnayot seguintes desenvolvem, categoria por categoria.
O Rambam define o koi e sua origem zoológica incerta em Hilchot Maachalot Assurot, capítulo 1, no contexto mais amplo dos sinais que distinguem behemá de chayá.
O que os grandes comentadores dizem sobre a identidade do koi e a estrutura desta mishná de abertura.
O koi é uma espécie composta da cabra e da gazela, e assim disseram: "o koi é uma criatura à parte", e os Sábios não determinaram a seu respeito se é espécie de animal doméstico ou selvagem, e impuseram sobre ele os rigores de animal doméstico e os rigores de animal selvagem, como se explicará adiante (o Rambam apresenta, numa única frase, as duas explicações concorrentes que circulam na tradição — híbrido de cruzamento, ou espécie autônoma e distinta — sem decidir definitivamente entre elas, e resume o princípio metodológico central: aplicar cumulativamente os rigores de ambas as categorias possíveis, nunca as leniências).
"Koi": discordaram a seu respeito os sábios de Israel — há quem diga que é o carneiro selvagem [ayil habar]; e há quem diga que é o bode que copula com a gazela; e há quem diga que é uma criatura à parte. E os Sábios não determinaram a seu respeito se é animal selvagem ou animal doméstico (o Bartenura amplia ainda mais o leque de opiniões sobre a identidade zoológica do koi — chegando a três possibilidades distintas — e confirma explicitamente que essa é uma incerteza permanente e reconhecida abertamente pelos próprios Sábios, não uma questão que a tradição simplesmente não tenha se dado ao trabalho de resolver, mas uma dúvida genuína e irresolúvel que a mishná se propõe a administrar juridicamente, não a eliminar).