Seder Kodashim · Massechet Chulin · Perek Alef · Mishná 1 de 7

Abertura do tratado: todos podem realizar o abate ritual, e seu abate é válido — exceto o surdo-mudo, o louco e o menor

הַכֹּל שׁוֹחֲטִין וּשְׁחִיטָתָן כְּשֵׁרָה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Todos podem abater, exceto surdo-mudo, louco e menor; e todos eles, se abateram sob a vigilância de outros, seu abate é válido

Todos podem realizar o abate ritual, e seu abate é válido, exceto o surdo-mudo, o louco e o menor, para que não estraguem em seu abate.Massechet Chulin abre com o abate comum (chulin) — o abate de animais para consumo cotidiano, fora do Templo — em contraste direto com Massechet Zevachim, dedicada ao abate dos sacrifícios sagrados (kodashim). Enquanto o serviço do Templo exige um sacerdote (kohen) qualificado por linhagem, o abate comum é aberto, em princípio, a qualquer pessoa — homem ou mulher, sacerdote ou israelita, judeu de qualquer condição — desde que possua o conhecimento técnico necessário: as leis que invalidam o abate. Três categorias, porém, ficam de fora: o surdo-mudo, o louco e o menor, não por decreto arbitrário, mas porque lhes falta o discernimento pleno (daat) para executar corretamente um ato que, num descuido mínimo, se torna carniça imprópria — receio de que, no meio do abate, estraguem-no sem perceber.

E todos eles, se abateram, e outros os veem, seu abate é válido.Mesmo essas pessoas de discernimento limitado — e, mais amplamente, qualquer um cuja perícia não é conhecida —, se realizaram o abate sob a observação de outros capazes de intervir e corrigir eventuais erros no processo, o abate é considerado válido. A supervisão substitui, nesse caso, a garantia de perícia comprovada.

הַכֹּל שׁוֹחֲטִין וּשְׁחִיטָתָן כְּשֵׁרָה, חוּץ מֵחֵרֵשׁ, שׁוֹטֶה, וְקָטָן, שֶׁמָּא יְקַלְקְלוּ בִשְׁחִיטָתָן. וְכֻלָּן שֶׁשָּׁחֲטוּ וַאֲחֵרִים רוֹאִין אוֹתָן, שְׁחִיטָתָן כְּשֵׁרָה.
O abate do gentio é carniça; o abate à noite e do cego é válido; o abate em Shabat e Iom Kipur é válido

O abate do gentio é carniça (nevelá), e transmite impureza por carregamento.Ainda que tecnicamente correto em todos os seus detalhes técnicos, e mesmo realizado sob os olhos de um judeu, o abate de um gentio idólatra é considerado como se o animal não tivesse sido abatido — pois presume-se que a intenção padrão de um idólatra, ao abater, volta-se para sua divindade. O animal assim abatido transmite impureza ritual apenas por carregamento, como qualquer carniça — e não pela forma mais grave de impureza sob o mesmo teto, reservada à carne oferecida explicitamente à idolatria.

O que abate à noite, e também o cego que abateu, seu abate é válido.Apesar de o abate exigir precisão visual sobre o ponto exato de corte, tanto o abate realizado na escuridão da noite quanto o abate realizado por um cego são válidos após o fato — pois a shechitá não depende, em sua essência, da visão, mas do conhecimento e da destreza das mãos.

O que abate em Shabat e em Iom Kipur, ainda que seja passível de pena capital, seu abate é válido.Mesmo quando o abate constitui, ele mesmo, uma transgressão gravíssima — a violação do Shabat ou de Iom Kipur, punível com a pena mais severa —, o animal abatido não se torna carniça: a proibição recai sobre a pessoa que transgrediu, não sobre a validade técnica do ato de abate em si. A carne, porém, permanece proibida para consumo naquele mesmo dia.

שְׁחִיטַת נָכְרִי, נְבֵלָה, וּמְטַמְּאָה בְמַשָּׂא. הַשּׁוֹחֵט בַּלַּיְלָה, וְכֵן הַסּוּמָא שֶׁשָּׁחַט, שְׁחִיטָתוֹ כְשֵׁרָה. הַשּׁוֹחֵט בְּשַׁבָּת, וּבְיוֹם הַכִּפּוּרִים, אַף עַל פִּי שֶׁמִּתְחַיֵּב בְּנַפְשׁוֹ, שְׁחִיטָתוֹ כְשֵׁרָה:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת מִן הַתּוֹרָה

Devarim 12:21 — a fonte do abate comum
כִּי יִרְחַק מִמְּךָ הַמָּקוֹם אֲשֶׁר יִבְחַר ה' אֱלֹהֶיךָ לָשׂוּם שְׁמוֹ שָׁם וְזָבַחְתָּ מִבְּקָרְךָ וּמִצֹּאנְךָ אֲשֶׁר נָתַן ה' לְךָ כַּאֲשֶׁר צִוִּיתִךָ וְאָכַלְתָּ בִּשְׁעָרֶיךָ בְּכֹל אַוַּת נַפְשֶׁךָ.
“Se estiver longe de ti o lugar que o Eterno teu D’us escolher para ali pôr o Seu nome, então abaterás do teu gado e do teu rebanho que o Eterno te deu, como te ordenei, e comerás nas tuas cidades conforme todo o desejo da tua alma.”
Nota: A expressão “כַּאֲשֶׁר צִוִּיתִךָ — como te ordenei” é a fonte clássica, segundo a tradição oral, das leis técnicas do abate ritual (hilchot shechitá): a Torá escrita não detalha os procedimentos do abate, remetendo-os a uma ordem transmitida oralmente. É sobre essa base que a mishná de abertura de Massechet Chulin estabelece quem está apto a realizar esse abate.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Chulin 1:1
הכל שוחטין ושחיטתן כשרה חוץ מחרש שוטה וקטן כו': ההלכה הזאת נתקשה פירושה על חכמי הגמרא לפי שיש בה ספקות הרבה... והשוחט צריך שיהא יודע הדינים שמפסידים השחיטה והן חמשה שהייה דרסה חלדה הגרמה ועיקור... וצריך עם כל זה להיות מומחה במלאכת השחיטה ומהיר בה... ודע שסבת היות שחיטת עובד כוכבים נבילה... מפני שסתם מחשבת עובד כוכבים לעבודת כוכבים... ומה שאמר השוחט בלילה רצה לומר באפילה של לילה אבל לאור הנר מותר לשחוט לכתחלה: ודע ששחיטת נשים ועבדים מותר לכתחילה אם הם יודעין ומומחין...

Rambam nota que esta mishná é difícil de entender à primeira vista, pois parece haver uma contradição interna: dizer “todos abatem” sugere que o abate é permitido de antemão (lechatchilá) a qualquer um, enquanto “seu abate é válido” sugere apenas uma validação posterior (diavad). A resolução, explicada pelos sábios da Guemará, é que quem abate precisa conhecer as cinco causas que invalidam o abate — shehiyá (demora), dorsá (pressão), chaladá (ocultação da lâmina), hagramá (desvio do local) e ikur (arrancamento) — e, além disso, ser experiente e ágil na técnica, tendo abatido diversas vezes diante de sábios. Sobre o abate do gentio idólatra: explica que, mesmo que seja sábio e mesmo que um judeu esteja ao seu lado observando, o abate é considerado carniça, pois a intenção padrão de um idólatra volta-se, por presunção, para sua própria divindade. Quanto a “o que abate à noite”, esclarece que se refere à escuridão total da noite, mas à luz de uma candeia é permitido abater mesmo de antemão. E acrescenta que o abate realizado por mulheres e escravos é permitido de antemão, desde que sejam peritos e conhecedores das leis.

Bartenura · Chulin 1:1
הַכֹּל שׁוֹחֲטִין. בַּגְּמָרָא פָּרֵיךְ, הַכֹּל שׁוֹחֲטִים לְכַתְּחִלָּה וּשְׁחִיטָתָן כְּשֵׁרָה דִּיעֲבַד... וּבַמַּסְקָנָא מְפָרְשָׁא מַתְנִיתִין בַּגְּמָרָא הָכִי, הַכֹּל שׁוֹחֲטִין, כָּל הַמֻּמְחִים הַיּוֹדְעִים הִלְכוֹת שְׁחִיטָה שׁוֹחֲטִין... חוּץ מֵחֵרֵשׁ שׁוֹטֶה וְקָטָן. דַּאֲפִלּוּ דִּיעֲבַד וְיוֹדְעִים הִלְכוֹת שְׁחִיטָה אָסוּר לֶאֱכֹל מִשְּׁחִיטָתָן... שְׁחִיטַת נָכְרִי. אֲפִלּוּ כְּהִלְכָתָהּ וְיִשְׂרָאֵל עוֹמֵד עַל גַּבָּיו, נְבֵלָה. אֲבָל אֵינָהּ אֲסוּרָה בַהֲנָאָה... הַשּׁוֹחֵט בְּשַׁבָּת. אַף עַל פִּי שֶׁאִם הָיָה מֵזִיד הָיָה מִתְחַיֵּב בְּנַפְשׁוֹ, שְׁחִיטָתוֹ כְשֵׁרָה. וּמִיהוּ אֲסוּרָה בַּאֲכִילָה לְיוֹמָהּ...

Bartenura explica que a Guemará questiona a mishná: se “todos abatem” sugere permissão prévia e “seu abate é válido” sugere apenas validação posterior, há uma tensão interna. A conclusão da Guemará é que “todos abatem” refere-se a todos os peritos que conhecem as leis do abate — mesmo sem terem sido previamente testados três vezes diante de testemunhas —, desde que quem lhes confia a faca os reconheça como conhecedores; se não os conhece, e ainda assim abateram, verifica-se depois se sabiam as leis, e se souberem o abate é válido. Sobre “exceto o surdo-mudo, o louco e o menor”: explica que mesmo que tecnicamente conheçam as leis do abate, é proibido comer do que abateram, pois são presumidamente propensos a estragar, por lhes faltar discernimento pleno. Sobre o abate do gentio: mesmo realizado corretamente e com um judeu observando, é carniça — mas, ao contrário do abate de um herege dedicado à idolatria, não é proibido para todo proveito, pois presume-se que o gentio comum é apenas herdeiro do costume de seus antepassados. E sobre o abate em Shabat: ainda que, se feito de propósito, acarretasse pena capital, o abate permanece tecnicamente válido — mas a carne fica proibida para consumo naquele mesmo dia.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רש״י
Chulin 2a, sobre a Guemará — abertura do tratado
מתני' הכל שוחטין — כל היכא דתני הכל כולהו מייתי להו בשמעתא קמייתא דערכין ומפרש הכל לאתויי מאי. והכל שוחטין דמתניתין פליגי בה אמוראי בגמרא למר לאתויי טמא בחולין ולמר לאתויי כותי או מומר: וכולן — בגמרא מפרש מאי וכולן:

Rashi observa, sobre a abertura do tratado, que sempre que a Mishná usa a expressão “todos” (הכל), a Guemará em Massechet Arachin discute e explica quem exatamente essa expressão vem incluir. E, quanto a “todos abatem” nesta mishná, os amoraim discordam na Guemará sobre a quem exatamente ela vem incluir: para um, vem incluir mesmo quem está ritualmente impuro realizando o abate de chulin; para outro, vem incluir o samaritano (kuti) ou o judeu transgressor (mumar). E sobre “e todos eles”, a Guemará também explica a que exatamente essa expressão se refere.