Todos podem realizar o abate ritual, e seu abate é válido, exceto o surdo-mudo, o louco e o menor, para que não estraguem em seu abate. — Massechet Chulin abre com o abate comum (chulin) — o abate de animais para consumo cotidiano, fora do Templo — em contraste direto com Massechet Zevachim, dedicada ao abate dos sacrifícios sagrados (kodashim). Enquanto o serviço do Templo exige um sacerdote (kohen) qualificado por linhagem, o abate comum é aberto, em princípio, a qualquer pessoa — homem ou mulher, sacerdote ou israelita, judeu de qualquer condição — desde que possua o conhecimento técnico necessário: as leis que invalidam o abate. Três categorias, porém, ficam de fora: o surdo-mudo, o louco e o menor, não por decreto arbitrário, mas porque lhes falta o discernimento pleno (daat) para executar corretamente um ato que, num descuido mínimo, se torna carniça imprópria — receio de que, no meio do abate, estraguem-no sem perceber.
E todos eles, se abateram, e outros os veem, seu abate é válido. — Mesmo essas pessoas de discernimento limitado — e, mais amplamente, qualquer um cuja perícia não é conhecida —, se realizaram o abate sob a observação de outros capazes de intervir e corrigir eventuais erros no processo, o abate é considerado válido. A supervisão substitui, nesse caso, a garantia de perícia comprovada.
O abate do gentio é carniça (nevelá), e transmite impureza por carregamento. — Ainda que tecnicamente correto em todos os seus detalhes técnicos, e mesmo realizado sob os olhos de um judeu, o abate de um gentio idólatra é considerado como se o animal não tivesse sido abatido — pois presume-se que a intenção padrão de um idólatra, ao abater, volta-se para sua divindade. O animal assim abatido transmite impureza ritual apenas por carregamento, como qualquer carniça — e não pela forma mais grave de impureza sob o mesmo teto, reservada à carne oferecida explicitamente à idolatria.
O que abate à noite, e também o cego que abateu, seu abate é válido. — Apesar de o abate exigir precisão visual sobre o ponto exato de corte, tanto o abate realizado na escuridão da noite quanto o abate realizado por um cego são válidos após o fato — pois a shechitá não depende, em sua essência, da visão, mas do conhecimento e da destreza das mãos.
O que abate em Shabat e em Iom Kipur, ainda que seja passível de pena capital, seu abate é válido. — Mesmo quando o abate constitui, ele mesmo, uma transgressão gravíssima — a violação do Shabat ou de Iom Kipur, punível com a pena mais severa —, o animal abatido não se torna carniça: a proibição recai sobre a pessoa que transgrediu, não sobre a validade técnica do ato de abate em si. A carne, porém, permanece proibida para consumo naquele mesmo dia.
Rambam nota que esta mishná é difícil de entender à primeira vista, pois parece haver uma contradição interna: dizer “todos abatem” sugere que o abate é permitido de antemão (lechatchilá) a qualquer um, enquanto “seu abate é válido” sugere apenas uma validação posterior (diavad). A resolução, explicada pelos sábios da Guemará, é que quem abate precisa conhecer as cinco causas que invalidam o abate — shehiyá (demora), dorsá (pressão), chaladá (ocultação da lâmina), hagramá (desvio do local) e ikur (arrancamento) — e, além disso, ser experiente e ágil na técnica, tendo abatido diversas vezes diante de sábios. Sobre o abate do gentio idólatra: explica que, mesmo que seja sábio e mesmo que um judeu esteja ao seu lado observando, o abate é considerado carniça, pois a intenção padrão de um idólatra volta-se, por presunção, para sua própria divindade. Quanto a “o que abate à noite”, esclarece que se refere à escuridão total da noite, mas à luz de uma candeia é permitido abater mesmo de antemão. E acrescenta que o abate realizado por mulheres e escravos é permitido de antemão, desde que sejam peritos e conhecedores das leis.
Bartenura explica que a Guemará questiona a mishná: se “todos abatem” sugere permissão prévia e “seu abate é válido” sugere apenas validação posterior, há uma tensão interna. A conclusão da Guemará é que “todos abatem” refere-se a todos os peritos que conhecem as leis do abate — mesmo sem terem sido previamente testados três vezes diante de testemunhas —, desde que quem lhes confia a faca os reconheça como conhecedores; se não os conhece, e ainda assim abateram, verifica-se depois se sabiam as leis, e se souberem o abate é válido. Sobre “exceto o surdo-mudo, o louco e o menor”: explica que mesmo que tecnicamente conheçam as leis do abate, é proibido comer do que abateram, pois são presumidamente propensos a estragar, por lhes faltar discernimento pleno. Sobre o abate do gentio: mesmo realizado corretamente e com um judeu observando, é carniça — mas, ao contrário do abate de um herege dedicado à idolatria, não é proibido para todo proveito, pois presume-se que o gentio comum é apenas herdeiro do costume de seus antepassados. E sobre o abate em Shabat: ainda que, se feito de propósito, acarretasse pena capital, o abate permanece tecnicamente válido — mas a carne fica proibida para consumo naquele mesmo dia.
Rashi observa, sobre a abertura do tratado, que sempre que a Mishná usa a expressão “todos” (הכל), a Guemará em Massechet Arachin discute e explica quem exatamente essa expressão vem incluir. E, quanto a “todos abatem” nesta mishná, os amoraim discordam na Guemará sobre a quem exatamente ela vem incluir: para um, vem incluir mesmo quem está ritualmente impuro realizando o abate de chulin; para outro, vem incluir o samaritano (kuti) ou o judeu transgressor (mumar). E sobre “e todos eles”, a Guemará também explica a que exatamente essa expressão se refere.