O que abate com foice de mão, com pedra afiada, ou com caniço, seu abate é válido. — A foice de mão tem duas bordas: uma lisa como uma faca comum, e outra serrilhada, cheia de reentrâncias. Com a borda serrilhada não se deve abater de antemão — receio de que se acabe usando a borda lisa incorretamente —, mas, se abateu com ela, o abate é válido a posteriori. O mesmo vale para a pedra afiada e o caniço: instrumentos improvisados, sem o gume contínuo de uma lâmina própria, mas capazes, ainda assim, de realizar um corte válido.
Todos podem abater, e sempre podem abater, e com qualquer coisa podem abater, exceto a foice de colheita, a serra, os dentes e a unha, porque eles estrangulam. — “Todos podem abater” inclui aqui até o judeu transgressor de outros preceitos, desde que não seja idólatra nem profanador público do Shabat; “sempre” significa tanto de dia quanto de noite, à luz de uma tocha; “com qualquer coisa” inclui vidro ou qualquer lâmina cortante improvisada. Mas quatro instrumentos ficam de fora, por sua natureza física: a foice usada para colher cereais, a serra, dentes soltos e a unha ainda presa ao dedo — todos eles, em vez de cortar limpamente, rasgam e dilaceram por causa de suas reentrâncias, produzindo um estrangulamento que invalida o abate.
O que abate com a foice de colheita, no sentido do seu movimento natural, Bet Shamai desqualificam, e Bet Hilel validam. E se as reentrâncias se alisaram, ela é como uma faca comum. — Mesmo a foice de colheita, normalmente excluída por suas reentrâncias, tem seu caso-limite: quando usada exatamente no sentido em que naturalmente corta — puxada, e não empurrada contra o pescoço —, Bet Shamai ainda a desqualificam, receando que a técnica varie; Bet Hilel a validam, pois nesse sentido específico as reentrâncias não chegam a rasgar. E se, com o uso, as reentrâncias da foice já se desgastaram e ela se tornou lisa, ela deixa de ser uma foice de colheita para efeitos desta lei, e passa a ser tratada como uma faca comum, apta ao abate sem qualquer ressalva.
Rambam explica que a foice de mão tem um lado que é foice e outro que é como uma faca lisa; é o lado liso que é proibido usar de antemão — por decreto, receando que se acabe usando o outro lado — mas, se abateu com ele, o abate é válido. Sobre “todos abatem”: esclarece que isso inclui até o israelita transgressor, mas apenas sob duas condições — que não seja idólatra (pois quem transgride a idolatria é considerado transgressor de toda a Torá) e que não profane o Shabat publicamente (pois quem o faz é equiparado, para todos os efeitos, a um idólatra). “Sempre podem abater” significa tanto de dia quanto de noite; “com qualquer coisa podem abater” inclui até vidro e semelhantes. Quanto aos “dentes”, precisa que a desqualificação vale apenas quando são dois dentes unidos — um único dente é permitido — e o mesmo vale para uma unha já cortada e separada da mão, que também é permitida. E explica que “Bet Hilel validam” significa apenas que o abate feito assim não transmite impureza de carniça, mas quanto à proibição de comer a carne, ninguém discorda de que é proibida.
Bartenura descreve a foice de mão como tendo duas bordas — uma lisa como uma faca, outra cheia de reentrâncias — e explica que no lado liso não se deve abater de antemão, por decreto, receando que se passe a abater no lado serrilhado. Sobre “todos podem abater”: precisa que isso vem incluir o israelita transgressor, mesmo que transgrida repetidamente, cuja carne é permitida — desde que não seja transgressor da idolatria nem profanador público do Shabat. E explica que a foice de colheita tem suas reentrâncias todas inclinadas para um só lado, em declive, e por isso “estrangulam”: não cortam limpamente, mas rasgam por causa das reentrâncias.
Rashi explica, sobre a abertura desta mishná: a foice de mão — chamada em francês antigo de “rapse” — tem duas bordas: uma lisa como uma faca comum, e outra com reentrâncias, sendo a distinção entre elas a base de toda a discussão da mishná sobre quando o abate com ela é válido de antemão e quando apenas a posteriori.