Seder Kodashim · Massechet Chulin · Perek Bet · Mishná 1 de 10

Um símã na ave, dois na behêmá — a regra da maioria e a opinião de Rabi Yehudá sobre os vorídin

הַשּׁוֹחֵט אֶחָד בָּעוֹף וּשְׁנַיִם בַּבְּהֵמָה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Um símã na ave, dois na behêmá; a regra da maioria; a opinião de Rabi Yehudá; as medidas que invalidam

Quem abate um símã na ave, e dois na behêmá, seu abate é válido; e a maioria de um símã é como ele por inteiro.Os dois simanim (canais) do pescoço são o cano da respiração (kaneh) e o esôfago (vêshet). Na ave, basta cortar um dos dois para que o abate seja válido, pois a Torá a colocou entre a behêmá e os peixes: não podia exigir dela os dois símanim como na behêmá, nem dispensá-la totalmente como os peixes; por isso, basta um. Já na behêmá, ambos devem ser cortados. E em qualquer dos dois casos, cortar a maioria de um símã já equivale, por lei, a cortá-lo por inteiro.

Rabi Yehudá diz: até que abata os vorídin.Os vorídin são os vasos sanguíneos de cada lado do pescoço. Rabi Yehudá exige, apenas na ave, que também esses vasos sejam cortados, para que o sangue seja de fato extraído — já que a ave costuma ser assada inteira, sem ser cortada em pedaços como a behêmá. A lei, porém, não segue Rabi Yehudá.

Metade de um símã na ave, e um e meio na behêmá, seu abate é inválido. Maioria de um na ave e maioria de dois na behêmá, seu abate é válido.A mishná repete aqui, com outras palavras, a regra da maioria já enunciada na primeira frase — agora para ensinar que ela vale tanto no abate comum quanto no abate de oferendas consagradas: mesmo ali, onde o sangue deve ser extraído com todo o rigor para a aspersão no altar, a maioria do símã já basta, sem exigir o corte completo.

הַשּׁוֹחֵט אֶחָד בָּעוֹף, וּשְׁנַיִם בַּבְּהֵמָה, שְׁחִיטָתוֹ כְשֵׁרָה. וְרֻבּוֹ שֶׁל אֶחָד, כָּמוֹהוּ. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, עַד שֶׁיִּשְׁחֹט אֶת הַוְּרִידִין. חֲצִי אֶחָד בָּעוֹף, וְאֶחָד וָחֵצִי בַּבְּהֵמָה, שְׁחִיטָתוֹ פְסוּלָה. רֹב אֶחָד בָּעוֹף וְרֹב שְׁנַיִם בַּבְּהֵמָה, שְׁחִיטָתוֹ כְשֵׁרָה:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת מִן הַתּוֹרָה

Vaicrá 11:46 — a base para a regra distinta da ave
זֹאת תּוֹרַת הַבְּהֵמָה וְהָעוֹף וְכֹל נֶפֶשׁ הַחַיָּה הָרֹמֶשֶׂת בַּמָּיִם וּלְכָל נֶפֶשׁ הַשֹּׁרֶצֶת עַל הָאָרֶץ.
“Esta é a instrução (torá) sobre a behêmá e sobre a ave, e sobre todo ser vivo que se move nas águas, e sobre todo ser que povoa a terra.”
Nota: o versículo coloca a ave numa cláusula própria, entre a behêmá (que exige dois símanim) e os seres aquáticos (que não exigem nenhum) — base textual, segundo Bartenura, para a regra de que a ave exige apenas um símã completo.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Chulin 2:1
השוחט אחד בעוף ושנים בבהמה שחיטתו כו': מה שאמר השוחט שהוא מורה על דיעבד אינו מורה אלא על מה שאמר אחד בעוף לפי שלכתחלה חייב שיתכוין לשחוט השני סימנים לגמרי ואפילו בעוף. וורידין הם שני גידים דופקים בצואר על שני צידי קנה הריאה ומה ששנה לומר רוב אחד בעוף ורוב שנים בבהמה אע"פ שכבר אמר ורובו של אחד כמוהו לפי שדבריו היה בשחיטת חולין ומה שאמר שנית הוא בשחיטת קדשים ואין הלכה כרבי יהודה:

Rambam observa que a expressão “quem abate” sugere, a princípio, uma permissão apenas a posteriori — mas isso se aplica somente à cláusula sobre a ave, pois de início todo abatedor deve ter a intenção de cortar os dois símanim por completo, mesmo na ave. Define os vorídin como dois vasos pulsantes de cada lado do cano da respiração. E explica que a mishná repete a regra da maioria uma segunda vez porque a primeira menção tratava do abate comum, e a segunda, do abate de oferendas consagradas — e a lei não segue Rabi Yehudá.

Bartenura · Chulin 2:1
הַשּׁוֹחֵט אֶחָד בָּעוֹף. מִשּׁוּם דִּלְכַתְּחִלָּה מִבָּעֵי לִשְׁחֹט שְׁנֵי סִימָנִין אֲפִלּוּ בָעוֹף... וְאֶחָד בָּעוֹף נַפְקָא לָן דְּכָשֵׁר, מִקְּרָא דִּכְתִיב (ויקרא יא) זֹאת תּוֹרַת הַבְּהֵמָה וְהָעוֹף וְכָל נֶפֶשׁ הַחַיָּה הָרוֹמֶשֶׂת בַּמָּיִם, הִטִּילוֹ הַכָּתוּב לָעוֹף בֵּין בְּהֵמָה לַדָּגִים... הָא כֵּיצַד, הֶכְשֵׁרוֹ בְּסִימָן אֶחָד. עַד שֶׁיִּשְׁחֹט אֶת הַוְּרִידִים. כְּמִין חוּטִין שֶׁעַל שְׁנֵי צִדֵּי הַקָּנֶה. וְאַעוֹף בִּלְבָד קָאֵי רַבִּי יְהוּדָה, כְּדֵי לְהוֹצִיא אֶת דָּמוֹ, הוֹאִיל וְצוֹלֵהוּ כֻּלּוֹ כְּאֶחָד... וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה: רֹב אֶחָד בָּעוֹף כוּ'. חַד בְּחֻלִּין וְחַד בְּקָדָשִׁים... קָמַשְׁמַע לָן:

Bartenura explica, a partir do versículo de Vaicrá, por que a ave recebeu uma regra intermediária entre a behêmá e os seres aquáticos: bastando um único símã completo. Explica os vorídin como os fios que correm em cada lado do cano da respiração, e que Rabi Yehudá os exige apenas na ave, para que o sangue seja de fato extraído antes que ela seja assada inteira — mas a lei não o segue. Por fim, explica que a repetição da regra da maioria distingue o abate comum do abate de oferendas consagradas, para que não se pense que somente no abate comum a maioria basta.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רש״י
Chulin 27a:1–2, sobre a Guemará desta mishná
מתני' השוחט. שחיטתו כשרה — בגמרא פריך שנים בבהמה מאי לשון דיעבד שייך ביה אלא כמה ישחוט וילך... וורידין — חוטי הצואר שמקלחין את הדם ובגמרא (לקמן חולין דף כח:) מפרש דאעוף קאי ומשום להוציא את הדם...

Rashi observa que a Guemará questiona por que a expressão “quem abate”, que sugere permissão a posteriori, foi usada também para o caso de dois símanim na behêmá, já que ali não há de fato um mínimo menor a ser corrigido — a resposta é que ela ensina até onde se deve abater e prosseguir. Define os vorídin como os fios do pescoço que fazem jorrar o sangue, e localiza na Guemará adiante a explicação de que Rabi Yehudá os exige apenas na ave, justamente para garantir a extração do sangue.