Seder Kodashim · Massechet Chulin · Perek Alef · Mishná 7 de 7

O temed antes e depois de azedar; os irmãos sócios; e a série final de pares que nunca coincidem

הַתֶּמֶד עַד שֶׁלֹּא הֶחֱמִיץ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

O temed antes e depois de azedar; os irmãos sócios quanto ao kalbon e ao dízimo do gado

O temed, antes de azedar, não se adquire com dinheiro de segundo dízimo, e desqualifica o poço ritual (mikvê). Depois de azedar, adquire-se com dinheiro de segundo dízimo, e não desqualifica o mikvê.O temed é a bebida obtida ao verter água sobre o bagaço e as sementes já espremidas da uva, que absorve delas cor e sabor. Antes de azedar e fermentar, é considerado juridicamente como mera água — e a água não pode ser adquirida com as moedas do segundo dízimo, reservadas a alimentos propriamente ditos; e, como água, três logim dela, se caídos previamente num mikvê, o desqualificam, como qualquer água extraída por recipiente. Depois de azedar e fermentar, o temed passa a ser considerado vinho de fato: pode então ser adquirido com dinheiro de segundo dízimo, mas já não desqualifica mais o mikvê pela mesma regra da água extraída.

Os irmãos sócios: quando obrigados no kalbon, isentos do dízimo do gado; quando obrigados no dízimo do gado, isentos do kalbon.Irmãos que já dividiram a herança paterna, mas voltaram a se associar, são tratados como dois indivíduos distintos: cada um deve pagar separadamente seu meio-shekel anual ao Templo, com a taxa adicional do kalbon cobrada de cada metade — mas ficam isentos do dízimo do gado, pois a obrigação desse dízimo recai apenas sobre rebanhos de propriedade plenamente individual, não societária. Já os irmãos que nunca dividiram a herança são tratados como um único patrimônio contínuo: pagam um único shekel completo, sem kalbon, mas continuam obrigados a dizimar todo o gado nascido enquanto a herança permanecer indivisa.

הַתֶּמֶד, עַד שֶׁלֹּא הֶחֱמִיץ, אֵינוֹ נִקָּח בְּכֶסֶף מַעֲשֵׂר, וּפוֹסֵל אֶת הַמִּקְוֶה. מִשֶּׁהֶחֱמִיץ, נִקָּח בְּכֶסֶף מַעֲשֵׂר וְאֵינוֹ פוֹסֵל אֶת הַמִּקְוֶה. הָאַחִין הַשֻּׁתָּפִין, כְּשֶׁחַיָּבִין בַּקָּלְבּוֹן, פְּטוּרִין מִמַּעְשַׂר בְּהֵמָה. כְּשֶׁחַיָּבִין בְּמַעְשַׂר בְּהֵמָה, פְּטוּרִין מִן הַקָּלְבּוֹן.
A série final de pares que nunca coincidem

Todo lugar onde há venda não há multa; e todo lugar onde há multa não há venda. Todo lugar onde há recusa não há chalitzá; e todo lugar onde há chalitzá não há recusa. Todo lugar onde há toque de shofar não há havdalá; e todo lugar onde há havdalá não há toque de shofar.A mishná fecha o capítulo com a mais célebre destas séries de pares espelhados, agora aplicada a três áreas do direito e do costume completamente distintas entre si. Primeiro, sobre a filha menor: enquanto pequena demais para manifestar sinais de puberdade, o pai ainda pode vendê-la como serva, mas, se for violentada ou seduzida, não há multa a receber, pois a Torá fala em “jovem” (naará); já depois que ela manifesta sinais de puberdade, o pai já não pode mais vendê-la, mas, se for violentada, há multa. Segundo, sobre a órfã casada ainda menor por sua mãe ou irmãos: enquanto conserva o direito de recusa (meun) — anular o casamento sem necessitar de divórcio formal — ainda não está sujeita à chalitzá, o rito de liberação do levirato; a partir do momento em que passa a estar apta para a chalitzá, perde o direito de recusa. Terceiro, sobre a fronteira entre santidade e santidade, ou entre santidade e o comum: toca-se o shofar para anunciar a entrada do Shabat ou de um Yom Tov, mas não se recita a havdalá; e recita-se a havdalá na saída do Shabat, mas não se toca o shofar.

Yom Tov que cai na véspera de Shabat: toca-se o shofar, mas não se faz havdalá. Na saída do Shabat: faz-se havdalá, mas não se toca o shofar. Como se faz a havdalá? O que separa entre santidade e santidade.A mishná aplica a regra ao caso concreto de um Yom Tov que coincide com a véspera de Shabat: toca-se o shofar para anunciar a entrada dupla de santidade, mas não há havdalá entre dois dias igualmente sagrados. Já quando o Yom Tov cai logo após o Shabat, na sua saída, recita-se a havdalá — pois se sai de uma santidade para entrar noutra —, mas não se toca o shofar, já que não há necessidade de anunciar cessação de trabalho.

Rabi Dossa diz: entre uma santidade mais rigorosa e uma santidade mais leve.Rabi Dossa discorda da formulação exata da havdalá nesse caso: em vez de dizer genericamente “entre santidade e santidade”, ele prefere a fórmula que distingue explicitamente a santidade mais rigorosa do Shabat da santidade mais leve do Yom Tov — mas a opinião dos sábios, que evita rebaixar o Yom Tov chamando-o de “leve”, prevalece como norma final.

כָּל מָקוֹם שֶׁיֵּשׁ מֶכֶר, אֵין קְנַס. וְכָל מָקוֹם שֶׁיֵּשׁ קְנַס, אֵין מָכֶר. כָּל מָקוֹם שֶׁיֵּשׁ מֵאוּן, אֵין חֲלִיצָה. וְכָל מָקוֹם שֶׁיֵּשׁ חֲלִיצָה, אֵין מֵאוּן. כָּל מָקוֹם שֶׁיֵּשׁ תְּקִיעָה, אֵין הַבְדָּלָה. וְכָל מָקוֹם שֶׁיֵּשׁ הַבְדָּלָה, אֵין תְּקִיעָה. יוֹם טוֹב שֶׁחָל לִהְיוֹת בְּעֶרֶב שַׁבָּת, תּוֹקְעִין וְלֹא מַבְדִּילִין. בְּמוֹצָאֵי שַׁבָּת, מַבְדִּילִין וְלֹא תוֹקְעִין. כֵּיצַד מַבְדִּילִין, הַמַּבְדִּיל בֵּין קֹדֶשׁ לְקֹדֶשׁ. רַבִּי דוֹסָא אוֹמֵר, בֵּין קֹדֶשׁ חָמוּר לְקֹדֶשׁ הַקַּל:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת מִן הַתּוֹרָה

Devarim 22:29 — a fonte da multa (kenas)
וְנָתַן הָאִישׁ הַשֹּׁכֵב עִמָּהּ לַאֲבִי הַנַּעֲרָ חֲמִשִּׁים כָּסֶף וְלוֹ תִהְיֶה לְאִשָּׁה תַּחַת אֲשֶׁר עִנָּהּ לֹא יוּכַל שַׁלְּחָהּ כָּל יָמָיו.
“E o homem que se deitou com ela dará ao pai da jovem (naará) cinquenta peças de prata, e ela será sua mulher, porque a violentou; não poderá despedi-la todos os seus dias.”
Nota: A palavra “הַנַּעֲרָ — a jovem” é a base textual da regra desta mishná sobre venda e multa: a obrigação bíblica da multa (kenas) aplica-se explicitamente à “naará” — a fase da vida que já sucede a infância, quando o pai perde o direito de vendê-la como serva; sendo essas duas fases, portanto, mutuamente exclusivas.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Chulin 1:7
התמד עד שלא החמיץ אינו ניקח בכסף מעשר כו': כל מקום שיש מיאון אין חליצה וכל מקום כו': כל מקום שיש תקיעה אין הבדלה וכל מקום שיש כו': לפעמים נותנים מים על שמרי היין ועל זגי הענבים ומרככין ומצבעים אותן המים... ואותן הוא הנקרא תמד וכשיתקיים שם זמן ארוך לפעמים הוא מחמיץ... וקלבון הוא חצי מעה כסף שנותנים על השקל... ונתבאר בסוף סוכה שכל ערב שבת היו תוקעים במקדש שלש תקיעות להבדיל בין קדש לחול... ואין הלכה כרבי דוסא:

Rambam explica que o temed é feito vertendo água sobre a borra do vinho e o bagaço das uvas, que amolece e tinge essas águas, ainda sem o sabor pleno do vinho; com o tempo, às vezes azeda. Antes de azedar, é tratado juridicamente como mera água; depois, como vinho de fato. Sobre o kalbon: explica que é meia moeda de prata cobrada sobre cada meio-shekel do imposto anual do Templo — e detalha as regras de quando os irmãos sócios devem pagá-lo separadamente ou não. E, sobre a série final, conclui explicando que, na véspera de todo Shabat, tocavam-se três toques de shofar no Templo para marcar a transição entre o sagrado e o comum — mas não se faz o mesmo na saída do Shabat, pois não há ali motivo equivalente; e fecha afirmando que a lei não segue a opinião de Rabi Dossa.

Bartenura · Chulin 1:7
הַתֶּמֶד עַד שֶׁלֹּא הֶחֱמִיץ. עַד הַשְׁתָּא אַיְרֵי בְּתַרְתֵּי מִלֵּי וְדָבָר הַנּוֹהֵג בָּזֶה אֵינוֹ נוֹהֵג בָּזֶה, וְהַשְׁתָּא אַיְרֵי בַּחֲדָא מִלְּתָא... כָּל מָקוֹם שֶׁיֵּשׁ מֶכֶר. שֶׁאָדָם יָכוֹל לִמְכֹּר אֶת בִּתּוֹ. דְּהַיְנוּ כְּשֶׁהִיא קְטַנָּה: אֵין קְנַס. אִם נֶאֶנְסָה אוֹ נִתְפַּתְּתָה אֵין לְאָבִיהָ חֲמִשִּׁים כֶּסֶף... כָּל מָקוֹם שֶׁיֵּשׁ מֵאוּן. יְתוֹמָה שֶׁהִשִּׂיאוּהָ אִמָּהּ וְאַחֶיהָ וַאֲפִלּוּ לְדַעְתָּהּ, יְכוֹלָה לְמָאֵן וְיוֹצְאָה בְּלֹא גֵט, עַד שֶׁתָּבִיא סִימָנִין... רַבִּי דוֹסָא אוֹמֵר בֵּין קֹדֶשׁ חָמוּר. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי דוֹסָא, דְּלֹא מְזַלְזְלִינַן בְּיוֹם טוֹב לִקְרוֹתוֹ קֹדֶשׁ הַקַּל:

Bartenura observa a mudança de estrutura na mishná: até aqui, cada par tratava de duas coisas diferentes, com uma regra que vale para uma e não para a outra; a partir daqui, trata-se de uma única coisa, cuja condição jurídica muda com o tempo. Explica que “todo lugar onde há venda” refere-se ao pai que ainda pode vender a filha enquanto pequena, e que, se ela for violentada ou seduzida nessa fase, não há multa de cinquenta peças de prata para o pai; e que “todo lugar onde há recusa” refere-se à órfã casada ainda menor por sua mãe ou irmãos, que pode anular o casamento por recusa e sair sem necessidade de divórcio, até manifestar sinais de puberdade. Por fim, sobre Rabi Dossa, conclui que a lei não segue sua opinião, pois não se despreza o Yom Tov chamando-o de “santidade leve”.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רש״י
Chulin 25b:9–10, sobre a Guemará desta mishná
מתני' התמד עד שלא החמיץ — הא נמי להכי תנייה הכא משום דדמיא להנך דלעיל... יין הוזכר לענין קיחת מעשר בירושלים... ומים הוזכרו לענין לפסול את המקוה בשלשה לוגין מים שאובין... תמד — מים הנתנים בחרצנים ולכשהחמיץ ותוסס נעשה יין... כשחייבין בקלבון פטורים ממעשר בהמה — חלקו ולבסוף נשתתפו חייבין בקלבון כשמביאין שקליהן מביאין שני חצאי שקלים ונותנין שתי קלבונות... ופטורין ממעשר בהמה כל הנולדים להם כל ימי שותפותם שהשותפות פוטר ממעשר בהמה...

Rashi explica que esta mishná sobre o temed foi ensinada aqui precisamente por sua semelhança estrutural com as anteriores, embora agora trate de uma única coisa cuja condição varia no tempo, e não mais de dois pares distintos. Detalha que o vinho foi mencionado na Torá a respeito da aquisição com dinheiro de segundo dízimo em Jerusalém, e a água foi mencionada a respeito da desqualificação do mikvê por três logim de água extraída; e descreve o temed como a água posta sobre o bagaço da uva, que se torna vinho de fato quando azeda e fermenta. Sobre os irmãos sócios, explica em detalhe o mecanismo do kalbon — a taxa adicional cobrada sobre cada meio-shekel — e por que a sociedade entre irmãos os isenta do dízimo do gado nascido durante essa sociedade.