Válido na vaca, inválido na novilha. Válido na novilha, inválido na vaca. — A vaca vermelha (pará adumá), cujas cinzas purificam da impureza de contato com um cadáver, é preparada por abate ritual comum (shechitá); a novilha degolada (eglá arufá), trazida para expiar um homicídio de autor desconhecido, é preparada exclusivamente por rompimento da nuca (arifá), nunca por shechitá. O procedimento válido para uma é, portanto, exatamente o inválido para a outra: shechitá desqualifica a eglá arufá, e arifá desqualificaria a pará adumá.
Válido nos sacerdotes, inválido nos levitas. Válido nos levitas, inválido nos sacerdotes. — Os sacerdotes que servem no Templo são desqualificados por defeitos físicos (mumim), mas não pela idade avançada — servem enquanto viverem. Os levitas, ao contrário, no período do deserto e do Tabernáculo, eram desqualificados pela idade — servindo apenas entre vinte e cinco ou trinta e cinquenta anos —, mas não por defeitos físicos. O que desqualifica um grupo é, precisamente, irrelevante para o outro.
Puro nos recipientes de barro, impuro em todos os demais recipientes. Puro em todos os demais recipientes, impuro nos de barro. — O recipiente de barro segue uma regra própria de impureza: contamina-se apenas quando a impureza entra em seu espaço interno (mesmo sem tocar suas paredes), mas nunca por contato em sua superfície externa. Os demais recipientes seguem a regra oposta: contaminam-se por contato, inclusive pelas costas, mas não por mera exposição do interior sem toque direto. O que purifica um tipo contamina o outro, e vice-versa.
Puro nos recipientes de madeira, impuro nos de metal. Puro nos de metal, impuro nos de madeira. — Um utensílio de madeira ainda inacabado — sem seus últimos retoques de acabamento — já é considerado, para certos fins, um recipiente completo e sujeito à impureza; mas um utensílio de madeira totalmente liso, sem qualquer cavidade, permanece puro mesmo depois de pronto. Já os utensílios de metal seguem o caminho inverso: enquanto ainda brutos e inacabados são puros, e só se tornam suscetíveis à impureza quando totalmente prontos — mesmo os utensílios lisos, sem cavidade.
Obrigado nas amêndoas amargas, isento nas doces. Obrigado nas doces, isento nas amargas. — A obrigação do dízimo agrícola aplica-se apenas a frutos já próprios para consumo. As amêndoas amargas são comestíveis — e, portanto, obrigadas no dízimo — apenas quando ainda pequenas e verdes, antes de amadurecerem e se tornarem amargas demais para comer; as amêndoas doces, ao contrário, só se tornam próprias para consumo — e obrigadas no dízimo — quando já maduras e crescidas. O estágio que obriga uma variedade é exatamente o que isenta a outra.
Rambam explica, ponto por ponto: a vaca vermelha só é válida por abate (shechitá), como diz o versículo “e a abaterá diante dele”; a novilha degolada só é válida por rompimento da nuca (arifá), como diz “e romperão a nuca da novilha no vale”. Os sacerdotes são desqualificados por defeito físico, mas não pelo número de anos; os levitas são desqualificados pela idade, como diz “e desde os cinquenta anos voltará do serviço da tropa” — mas essa lei da idade não vale para todas as gerações, aplicando-se apenas ao período do deserto; em Shiló e no Templo permanente, os levitas não eram desqualificados pela idade, mas apenas pela perda da voz, algo que nunca desqualifica um sacerdote. Sobre os recipientes de madeira e de metal: os utensílios de madeira ainda brutos, mas já com forma de utensílio, ainda que falte seu acabamento final, já são suscetíveis à impureza; mas os utensílios lisos de madeira, sem qualquer cavidade, não são suscetíveis por lei bíblica. Já nos utensílios de metal, o oposto: enquanto brutos e inacabados são puros, e mesmo os utensílios lisos e sem cavidade são suscetíveis à impureza. E sobre as amêndoas: as amargas, ainda pequenas antes de amadurecerem, são próprias para consumo — pois ainda não são amargas — e por isso obrigadas no dízimo; quando já maduras, tornam-se amargas demais e isentas. As doces seguem o caminho inverso: verdes, ainda não são próprias para consumo e ficam isentas; maduras, tornam-se obrigadas.
Bartenura explica que a vaca vermelha e a novilha degolada são feitas ambas fora do acampamento ou da cidade, mas a vaca vermelha só é válida por abate, sendo inválida por rompimento da nuca; e a novilha degolada é o inverso: válida apenas por rompimento da nuca, inválida por abate. Quanto aos sacerdotes e levitas: os sacerdotes são desqualificados por defeitos físicos, mas aptos em qualquer idade; os levitas são desqualificados pela idade, mas aptos com qualquer defeito físico. E, sobre as amêndoas: as amargas, quando pequenas, são obrigadas no dízimo porque costumam ser comidas ainda verdes, antes de ficarem amargas; quando já grandes, ficam isentas, por já não serem próprias para consumo.
Rashi comenta, sobre o argumento a fortiori (kal vachomer) que a Guemará constrói a partir desta mishná para tentar provar que a vaca vermelha também poderia ser válida por rompimento da nuca: “e se a novilha, que não é apta para abate” — isto é, mesmo a novilha degolada, que jamais poderia ser preparada por shechitá, ainda assim tem sua validade fixada apenas pela arifá — remetendo à continuação da Guemará, algumas páginas adiante, onde a fonte bíblica exata dessa distinção é desenvolvida em detalhe.