Seder Kodashim · Massechet Chulin · Perek Bet · Mishná 10 de 10

O abate em nome de oferendas votivas e voluntárias, e a regra geral que as distingue das obrigatórias

הַשּׁוֹחֵט לְשֵׁם עוֹלָה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

O abate em nome de oferendas votivas e voluntárias: inválido

Quem abate em nome de uma olá, em nome de zevachim, em nome de um asham talui, em nome de um pêssach, em nome de uma todá, seu abate é inválido — e Rabi Shimon valida.Se um israelita, abatendo uma behêmá comum fora do Templo, declara que o faz em nome de uma dessas categorias de oferendas — todas elas trazidas por voto ou por oferta voluntária, ou tratadas como tal — os sábios invalidam o abate, por temor de que um observador conclua, erroneamente, que se trata de uma consagração e abate reais de uma oferenda fora do Templo, prática proibida. Rabi Shimon, que não se preocupa com essa aparência, valida.

Se dois seguram a faca e abatem, um em nome de um destes e outro em nome de algo válido, seu abate é inválido.Como já visto a respeito dos nomes idólatras, também aqui a intenção imprópria de apenas um dos dois participantes já contamina o abate conjunto, invalidando-o por inteiro.

הַשּׁוֹחֵט לְשֵׁם עוֹלָה, לְשֵׁם זְבָחִים, לְשֵׁם אָשָׁם תָּלוּי, לְשֵׁם פֶּסַח, לְשֵׁם תּוֹדָה, שְׁחִיטָתוֹ פְסוּלָה. וְרַבִּי שִׁמְעוֹן מַכְשִׁיר. שְׁנַיִם אוֹחֲזִין בְּסַכִּין וְשׁוֹחֲטִין, אֶחָד לְשֵׁם אַחַד מִכָּל אֵלּוּ, וְאֶחָד לְשֵׁם דָּבָר כָּשֵׁר, שְׁחִיטָתוֹ פְסוּלָה.
O abate em nome de oferendas obrigatórias: válido, e a regra geral

Quem abate em nome de uma chatat, em nome de um asham vadai, em nome de um bechor, em nome de um maasser, em nome de uma temurá, seu abate é válido.Já estas outras cinco categorias — a oferenda pelo pecado, a culpa certa, o primogênito do gado, o dízimo do gado e a substituição de uma oferenda — nunca são trazidas por voto ou oferta voluntária, mas apenas como obrigação decorrente de circunstâncias específicas. Por isso, não há risco de que um observador suponha que o abatedor está agora consagrando uma nova oferenda: o abate permanece válido.

Esta é a regra: tudo que é objeto de voto ou de oferta voluntária — quem abate em seu nome, é proibido; e o que não é objeto de voto ou de oferta voluntária — quem abate em seu nome, é válido.A mishná fecha com o princípio geral que unifica as duas listas: o critério decisivo não é o nome específico de cada oferenda, mas sim se sua origem costuma ser um voto ou uma dádiva voluntária. Esse princípio abrange ainda casos não explicitamente listados: por exemplo, quem declara abater em nome de uma olá de nazireu — inválido, pois o nazireado é assumido por voto, ainda que em segredo; e quem declara abater em nome de uma olá de parturiente — válido mesmo que a mulher mencionada não deva, aparentemente, tal oferenda, pois sempre existe a possibilidade de que ela tenha abortado, hipótese que geraria a mesma obrigação sem que isso se tornasse publicamente conhecido.

הַשּׁוֹחֵט לְשֵׁם חַטָּאת, לְשֵׁם אָשָׁם וַדַּאי, לְשֵׁם בְּכוֹר, לְשֵׁם מַעֲשֵׂר, לְשֵׁם תְּמוּרָה, שְׁחִיטָתוֹ כְשֵׁרָה. זֶה הַכְּלָל, כָּל דָּבָר שֶׁנִּדָּר וְנִּדָּב, הַשּׁוֹחֵט לִשְׁמוֹ, אָסוּר, וְשֶׁאֵינוֹ נִדָּר וְנִדָּב, הַשּׁוֹחֵט לִשְׁמוֹ, כָּשֵׁר:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Chulin 2:10
השוחט לשם עולה לשם זבחים לשם אשם תלוי כו': זה שנראה מן המשנה הזאת שאשם תלוי נקרא נדבה הוא דעת רבי אליעזר כמו שיתבאר באחרון מכריתות וסמכו ג"כ הפסח כדבר הנדר והנדב הואיל והפרשתו כל השנה ומה שאמר זה הכלל כל דבר לאתויי עולת נזיר שאם שחט לשמה שחיטתה פסולה לפי שהנזירות נדר הוא: ומה שאמר שאינו נדר ונדבה לאתויי עולת יולדת... שהמפלת אין לה קול ולפיכך אין אנו יכולים לומר אם איתא דהפילה קלא אית ליה:

Rambam observa que classificar o asham talui como oferenda voluntária reflete especificamente a opinião de Rabi Eliezer, detalhada no fim do tratado Keritot; e que o pêssach é equiparado a um voto porque sua separação é permitida durante todo o ano. Explica que a “regra geral” final serve para incluir também casos não listados explicitamente: a olá de nazireu, cujo abate em seu nome é inválido, pois o nazireado é, em si, um voto; e a olá de parturiente, cujo abate é válido mesmo em nome de mulher aparentemente não obrigada, pois sempre cabe a possibilidade de que ela tenha abortado — hipótese que gera a mesma obrigação sem se tornar publicamente conhecida, já que quem aborta não tem esse fato divulgado.

Bartenura · Chulin 2:10
אָשָׁם תָּלוּי. בָּא עַל סָפֵק חִיּוּב כָּרֵת... וּמַתְנִיתִין רַבִּי אֱלִיעֶזֶר הִיא דְּאָמַר מִתְנַדֵּב אָדָם אָשָׁם תָּלוּי בְּכָל יוֹם... וְנִמְצָא שֶׁדָּבָר הַנִּדָּר וְנִדָּב הוּא: לְשֵׁם פֶּסַח. וּפֶסַח נַמִּי מִקְּרֵי דָּבָר הַנִּדָּר וְנִדָּב, הוֹאִיל וְהוּא עָשׂוּי לְהַפְרִישׁוֹ כָּל יְמוֹת הַשָּׁנָה... וְרַבִּי שִׁמְעוֹן מַכְשִׁיר. דְּלֹא חָיֵישׁ לְמַרְאִית הָעַיִן: זֶה הַכְּלָל. לַאֲתוֹיֵי אִם אָמַר הֲרֵינִי שׁוֹחֵט לְשֵׁם עוֹלַת נָזִיר, שֶׁהִיא פְסוּלָה... וְשֶׁאֵינוֹ נִדָּר וְנִדָּב. לַאֲתוֹיֵי עוֹלַת יוֹלֶדֶת... וְנִמְצָא קָרְבָּן זֶה חוֹבָה וְלֹא נְדָבָה, וּלְפִיכָךְ שְׁחִיטָתוֹ כְשֵׁרָה:

Bartenura explica que a mishná segue a opinião de Rabi Eliezer, para quem uma pessoa pode oferecer voluntariamente um asham talui todo dia, já que todo dia se pode temer ter pecado sem saber — tornando-o, de fato, algo próximo de uma oferenda voluntária. Explica também por que o pêssach entra nessa lista, apesar de ser tecnicamente obrigatório: por poder ser separado a qualquer momento do ano, um observador poderia supor que se trata de uma oferenda de paz sendo abatida e comida fora do Templo. Detalha, por fim, os dois casos adicionais trazidos pela “regra geral”: a olá de nazireu (inválida, por decorrer de voto, mesmo secreto) e a olá de parturiente (válida, por poder refletir uma obrigação real e não divulgada, no caso de aborto).

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רש״י
Chulin 41b:8–9, sobre a Guemará desta mishná
מתני' השוחט — חולין בחוץ: לשם עולה — דכיון דבאה בנדר ובנדבה הרואה אומר עכשיו הוא מקדיש ושוחטה לעולה וקדשים בחוץ מותרים וגזור רבנן עליה פסול וכן שלמים וכו': אשם תלוי — בא על ספק חיוב כרת כגון ב' חתיכות לפניו ואכל אחת מהן ובאו עדים ואמרו אחת מהן של חלב היתה ואין ידוע איזו אכל... ור' שמעון מכשיר — לא חייש למראית העין:

Rashi esclarece que o caso trata de behêmá comum abatida fora do Templo, e explica o receio central por trás da invalidação: como a olá é normalmente trazida por voto ou oferta voluntária, quem vê o abate presumiria que se trata de uma consagração real, seguida de um abate proibido de oferenda fora do Templo. Ilustra o asham talui com o exemplo clássico de dúvida sobre transgressão — duas porções, uma proibida e outra permitida, das quais se comeu apenas uma sem saber qual. E confirma que Rabi Shimon vem, precisamente, dispensar essa preocupação com a aparência externa.