Não se abate para dentro de mares, nem para dentro de rios, nem para dentro de recipientes. — Deixar o sangue do abate escorrer diretamente para dentro de um mar ou rio é proibido, pois pode parecer que o abatedor está oferecendo o sangue ao suposto poder que governa aquelas águas; e deixá-lo escorrer para dentro de um recipiente é igualmente proibido, pois pode parecer um ato de recolher o sangue para oferendas idólatras.
Mas pode-se abater para dentro de uma cova redonda de água, e em um navio, sobre recipientes. — Uma cova pequena, cavada especificamente para conter água turva ou colorida — de modo que nela não se reflita o rosto de quem abate — é permitida, pois não há ali risco de confusão com o culto às águas ou ao próprio reflexo. E, num navio, é permitido abater deixando o sangue escorrer sobre recipientes, já que a intenção óbvia, aos olhos de quem observa, é apenas evitar sujar o convés.
Não se abate para um buraco de jeito nenhum; mas pode-se fazer um buraco dentro de sua própria casa, para que o sangue entre nele. — Abater diretamente sobre um pequeno buraco cavado no chão é sempre proibido, pois esse é precisamente o costume característico de certos grupos sectários (minim) em seus próprios ritos. Mas é permitido, dentro de casa, cavar primeiro um buraco e depois abater ao lado dele, deixando o sangue escorrer para dentro — já que, ali, não há como confundir o ato com o rito proibido.
E na praça pública não se deve fazer assim, para não imitar os minim. — Mesmo esse mesmo procedimento — cavar o buraco antes e depois abater ao lado dele — não deve ser feito em praça pública, à vista de todos, para que ninguém confunda o costume israelita com o rito sectário, ainda que tecnicamente distintos.
Rambam explica que a proibição de abater sobre grandes corpos de água visa evitar toda aparência de culto ao elemento aquático ou ao poder celeste que, segundo certas crenças astrológicas, o governaria — daí a necessidade de que a água permitida (a “cova redonda”) esteja confinada a um espaço pequeno, e seja turva ou colorida, de modo que nenhuma imagem se reflita nela e ninguém suponha que o abatedor presta culto a essa imagem refletida, à maneira de certas seitas que creem em duas potências separadas, uma dando a matéria e outra a forma.
Bartenura detalha o receio por trás de cada proibição: abater para dentro dos mares poderia sugerir culto ao suposto “príncipe do mar”; abater para dentro de recipientes poderia sugerir a aspersão do sangue para a idolatria; e a cova de água só é permitida se turva — pois em água limpa poderia parecer que se presta culto ao próprio reflexo do rosto de quem abate. No navio, o observador entende de imediato que o objetivo é apenas não sujar a embarcação. E explica que a proibição do buraco vale mesmo dentro de casa se o buraco for cavado no exato lugar do abate, por ser esse o costume ritual característico dos minim.
Rashi explica cada proibição pelo receio de má interpretação: escorrer o sangue para o mar poderia sugerir culto ao seu suposto príncipe celeste; escorrer para dentro de recipientes poderia sugerir recolha do sangue para a idolatria. Explica “uga” como uma pequena cova, análoga às covas cavadas ao redor das videiras; e, no caso do navio, esclarece que o objetivo evidente é apenas evitar sujar a embarcação. Por fim, identifica o buraco cavado especificamente para o abate como o costume ritual próprio dos saduceus (aqui chamados minim) em seu culto idólatra.