Seder Kodashim · Massechet Chulin · Perek Bet · Mishná 9 de 10

Não abater para dentro de mares, rios, recipientes ou buracos, para não imitar os minim

אֵין שׁוֹחֲטִין לֹא לְתוֹךְ יַמִּים
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Não abater para dentro de mares, rios ou recipientes; a cova redonda de água e o navio

Não se abate para dentro de mares, nem para dentro de rios, nem para dentro de recipientes.Deixar o sangue do abate escorrer diretamente para dentro de um mar ou rio é proibido, pois pode parecer que o abatedor está oferecendo o sangue ao suposto poder que governa aquelas águas; e deixá-lo escorrer para dentro de um recipiente é igualmente proibido, pois pode parecer um ato de recolher o sangue para oferendas idólatras.

Mas pode-se abater para dentro de uma cova redonda de água, e em um navio, sobre recipientes.Uma cova pequena, cavada especificamente para conter água turva ou colorida — de modo que nela não se reflita o rosto de quem abate — é permitida, pois não há ali risco de confusão com o culto às águas ou ao próprio reflexo. E, num navio, é permitido abater deixando o sangue escorrer sobre recipientes, já que a intenção óbvia, aos olhos de quem observa, é apenas evitar sujar o convés.

אֵין שׁוֹחֲטִין לֹא לְתוֹךְ יַמִּים, וְלֹא לְתוֹךְ נְהָרוֹת, וְלֹא לְתוֹךְ כֵּלִים. אֲבָל שׁוֹחֵט הוּא לְתוֹךְ עוּגָא שֶׁל מַיִם, וּבִסְפִינָה, עַל גַּבֵּי כֵלִים.
A proibição do buraco no chão, e a permissão dentro de casa

Não se abate para um buraco de jeito nenhum; mas pode-se fazer um buraco dentro de sua própria casa, para que o sangue entre nele.Abater diretamente sobre um pequeno buraco cavado no chão é sempre proibido, pois esse é precisamente o costume característico de certos grupos sectários (minim) em seus próprios ritos. Mas é permitido, dentro de casa, cavar primeiro um buraco e depois abater ao lado dele, deixando o sangue escorrer para dentro — já que, ali, não há como confundir o ato com o rito proibido.

E na praça pública não se deve fazer assim, para não imitar os minim.Mesmo esse mesmo procedimento — cavar o buraco antes e depois abater ao lado dele — não deve ser feito em praça pública, à vista de todos, para que ninguém confunda o costume israelita com o rito sectário, ainda que tecnicamente distintos.

אֵין שׁוֹחֲטִין לְגֻמָּא כָּל עִקָּר, אֲבָל עוֹשֶׂה גֻמָּא בְתוֹךְ בֵּיתוֹ בִּשְׁבִיל שֶׁיִּכָּנֵס הַדָּם לְתוֹכָהּ. וּבַשּׁוּק לֹא יַעֲשֶׂה כֵן, שֶׁלֹּא יְחַקֶּה אֶת הַמִּינִין:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Chulin 2:9
אין שוחטין לא לתוך ימים ולא לתוך נהרות ולא כו': מה שחייב שלא לשחוט על המים כדי שלא ידמה שהוא עובד ליסוד הימים ושהוא מקריב זה לכח הגלגל המנהיג ליסוד המים כפי דעת המאמינים בכך... ולפיכך הוצרכו למה שזכרנו בהלכה שלפני זו שהתרנו לשחוט בתוך המים המכונסין במקום קטן או ע"מ שיהיו עכורים או צבועין שאין נראין בהן הצורות כדי שלא יאמרו לאותה צורה עובד...

Rambam explica que a proibição de abater sobre grandes corpos de água visa evitar toda aparência de culto ao elemento aquático ou ao poder celeste que, segundo certas crenças astrológicas, o governaria — daí a necessidade de que a água permitida (a “cova redonda”) esteja confinada a um espaço pequeno, e seja turva ou colorida, de modo que nenhuma imagem se reflita nela e ninguém suponha que o abatedor presta culto a essa imagem refletida, à maneira de certas seitas que creem em duas potências separadas, uma dando a matéria e outra a forma.

Bartenura · Chulin 2:9
אֵין שׁוֹחֲטִין לְתוֹךְ יַמִּים. שֶׁלֹּא יֹאמְרוּ לְשָׂרוֹ שֶׁל יָם הוּא שׁוֹחֵט: וְלֹא לְתוֹךְ הַכֵּלִים. שֶׁלֹּא יֹאמְרוּ לִזְרֹק דָּמָהּ לַעֲבוֹדָה זָרָה קָא עֲבִיד: עוּגָא שֶׁל מַיִם. דַּוְקָא עֲכוּרִים, אֲבָל צְלוּלִין לֹא. שֶׁמָּא יֹאמְרוּ לְפַרְצוּף פָּנָיו הַנִּרְאֶה בַּמַּיִם הוּא שׁוֹחֵט: וּבִסְפִינָה. יָכוֹל לִשְׁחֹט עַל גַּבֵּי כֵלִים וְהַדָּם שׁוֹתֵת וְיוֹרֵד לְתוֹךְ הַיָּם. שֶׁהָרוֹאֶה אוֹמֵר כְּדֵי שֶׁלֹּא לְלַכְלֵךְ הַסְּפִינָה הוּא עוֹשֶׂה: אֵין שׁוֹחֲטִין לְגֻמָּא כָּל עִקָּר. וַאֲפִלּוּ בַּבַּיִת. וְטַעֲמָא דְגֻמָּא, מִפְּנֵי שֶׁהוּא חֹק הַמִּינִים: יְחַקֶּה אֶת הַמִּינִים. יַחֲזִיק יְדֵיהֶן בְּחֻקּוֹתֵיהֶם:

Bartenura detalha o receio por trás de cada proibição: abater para dentro dos mares poderia sugerir culto ao suposto “príncipe do mar”; abater para dentro de recipientes poderia sugerir a aspersão do sangue para a idolatria; e a cova de água só é permitida se turva — pois em água limpa poderia parecer que se presta culto ao próprio reflexo do rosto de quem abate. No navio, o observador entende de imediato que o objetivo é apenas não sujar a embarcação. E explica que a proibição do buraco vale mesmo dentro de casa se o buraco for cavado no exato lugar do abate, por ser esse o costume ritual característico dos minim.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רש״י
Chulin 41a:9, sobre a Guemará desta mishná
מתני' לתוך ימים — דלא לימרו לשרא דימא קא שחיט: ולא לתוך הכלים — שלא יאמרו מקבל דם לעבודת כוכבים הוא: לתוך עוגה של מים — גומא כמו עוגיות לגפנים... ובספינה — יכול לשחוט על גב הכלים והדם שותת לתוך הים שלא ללכלך את הספינה ולא מיחזי כשוחט לתוך ימים: אבל עושה גומא — משמע שוחט לתוכה ובגמרא פריך הא אמרת אין שוחטין לגומא. וטעמא דגומא משום שהוא חוק הצדוקים לעבודת כוכבים:

Rashi explica cada proibição pelo receio de má interpretação: escorrer o sangue para o mar poderia sugerir culto ao seu suposto príncipe celeste; escorrer para dentro de recipientes poderia sugerir recolha do sangue para a idolatria. Explica “uga” como uma pequena cova, análoga às covas cavadas ao redor das videiras; e, no caso do navio, esclarece que o objetivo evidente é apenas evitar sujar a embarcação. Por fim, identifica o buraco cavado especificamente para o abate como o costume ritual próprio dos saduceus (aqui chamados minim) em seu culto idólatra.