Seder Kodashim · Massechet Chulin · Perek Bet · Mishná 8 de 10

O abate em nome de montanhas, colinas, mares, rios e desertos

הַשּׁוֹחֵט לְשֵׁם הָרִים
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

O abate em nome de montanhas, colinas, mares, rios e desertos

Quem abate em nome de montanhas, em nome de colinas, em nome de mares, em nome de rios, em nome de desertos, seu abate é inválido.Quando o abatedor declara explicitamente que realiza o abate em honra a uma montanha, colina, mar, rio ou deserto — sem que isso constitua, tecnicamente, um culto a uma divindade real, já que a Torá fala em “seus deuses sobre os montes” e não em “os montes, seus deuses” — o abate, ainda assim, é inválido para consumo. A behêmá continua permitida para uso não alimentar, mas proibida para comer, pois esse ato se assemelha demais ao abate feito explicitamente para a idolatria, podendo ser confundido com ele.

Se dois seguram a faca e abatem — um em nome de um destes e outro em nome de algo válido — seu abate é inválido.Mesmo quando apenas um dos dois que seguram juntos a faca tem em mente um desses nomes proibidos, e o outro tem uma intenção plenamente válida, o abate inteiro é invalidado — pois a intenção imprópria de um dos dois participantes já contamina o ato conjunto.

הַשּׁוֹחֵט לְשֵׁם הָרִים, לְשֵׁם גְּבָעוֹת, לְשֵׁם יַמִּים, לְשֵׁם נְהָרוֹת, לְשֵׁם מִדְבָּרוֹת, שְׁחִיטָתוֹ פְסוּלָה. שְׁנַיִם אוֹחֲזִין בְּסַכִּין וְשׁוֹחֲטִין, אֶחָד לְשֵׁם אַחַד מִכָּל אֵלּוּ, וְאֶחָד לְשֵׁם דָּבָר כָּשֵׁר, שְׁחִיטָתוֹ פְסוּלָה:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Chulin 2:8
השוחט לשם הרים לשם גבעות לשם ימים לשם כו': מה שאמר שחיטתו פסולה מורה שהנשחט מותר בהנאה ע"מ שיכוין לאותו הנהר או לאותו ההר וזולתן אבל אם שחט לרוחות או לכוכב על דעת שאותו ההר הוא תחת ממשלתו... הרי אותו הנשחט תקרובת עבודת כוכבים והוא זבחי מתים ואסור בהנאה...

Rambam esclarece a distinção crucial por trás da palavra “inválido” (e não “proibido em proveito”): quando a intenção é dirigida ao próprio monte, rio ou mar como tal, o animal permanece permitido para outros usos, apenas proibido para consumo. Mas se a intenção for dirigida ao poder celeste ou à constelação que, segundo certas crenças, governa aquele lugar — à maneira dos astrólogos que creem em talismãs — o abate se torna oferenda de idolatria propriamente dita, um “sacrifício aos mortos”, proibido em qualquer proveito.

Bartenura · Chulin 2:8
הַשּׁוֹחֵט לְשֵׁם הָרִים וְכוּ' שְׁחִיטָתוֹ פְסוּלָה. וְתִקְרֹבֶת עֲבוֹדָה זָרָה לֹא הַוְיָא לֵאָסֵר בַּהֲנָאָה, מִשּׁוּם דְּכָל הָנֵי אֵינָן נַעֲשִׂים עֲבוֹדָה זָרָה, דִּכְתִיב (דברים יב) אֱלֹהֵיהֶם עַל הֶהָרִים, וְלֹא הֶהָרִים אֱלֹהֵיהֶם. וּמִיהוּ פְּסוּלָה מִלֶּאֱכֹל, מִשּׁוּם דְּדַמְיָא לִשְׁחִיטָה לְשֵׁם עֲבוֹדָה זָרָה וּמִחַלְּפָא בָהּ...

Bartenura cita o versículo de Devarim — “seus deuses sobre os montes”, e não “os montes são seus deuses” — para explicar por que abater em nome desses elementos naturais não constitui tecnicamente idolatria proibida em proveito: o abate é apenas invalidado para consumo, por sua semelhança perigosa com o abate explicitamente idólatra. Mas adverte que, se o abatedor declarasse sua intenção não ao monte em si, mas ao anjo designado sobre os montes e colinas, isso já constituiria “sacrifício aos mortos”, proibido em qualquer proveito.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רש״י
Chulin 39b:20, sobre a Guemará desta mishná
מתני' לשם ימים — שעשה הים עבודת כוכבים:

Rashi resume a introdução do caso: trata-se de quem faz do próprio mar — ou, igualmente, da montanha, da colina, do rio ou do deserto — objeto direto de sua intenção idólatra ao abater, sem necessariamente invocar um poder celeste que os governe.