Quem abate uma behêmá, uma chayá ou uma ave, e não saiu sangue delas, são válidas, e comem-se com mãos impuras, pois não foram tornadas suscetíveis pelo sangue. — A carne só se torna suscetível à impureza ritual depois de entrar em contato com um dos sete líquidos que a tornam apta a recebê-la — entre eles, o sangue. Se o abate não produziu sangue visível, a carne permanece juridicamente não suscetível: pode-se comê-la mesmo após tocá-la com mãos ritualmente impuras de segundo grau, sem que isso a torne impura de terceiro grau, regra especialmente relevante para o chulin preparado segundo a pureza exigida das oferendas consagradas.
Rabi Shimon diz: foram tornadas suscetíveis pelo próprio abate. — Rabi Shimon discorda: para ele, o próprio ato do abate — independentemente de haver ou não sangue visível — já torna a carne suscetível à impureza, pois o abate implica necessariamente a presença de sangue interno, ainda que ele não escorra para fora.
Rambam situa esta mishná dentro do sistema mais amplo das leis de impureza dos alimentos: todo alimento, incluindo a carne, só se torna suscetível à impureza depois de um dos sete líquidos — entre eles o sangue — cair sobre ele; mãos impuras são sempre de segundo grau, e o terceiro grau que delas resulta não tem qualquer efeito relevante no chulin comum, exceto quando este foi preparado segundo a pureza das oferendas consagradas. Remete a explicação completa das raízes desse sistema ao tratado de Tehorot, e conclui que a lei não segue Rabi Shimon.
Bartenura explica que “mãos impuras” significa mãos sem a lavagem ritual, decretadas pelos sábios como de segundo grau de impureza — regra relevante justamente no chulin preparado segundo a pureza do sagrado, onde o segundo grau ainda produz um terceiro grau; no chulin comum, isso não teria efeito de qualquer modo. Explica os sete líquidos que tornam o alimento suscetível: água, vinho, azeite, leite, mel, sangue e orvalho. E, sobre a opinião de Rabi Shimon, explica seu raciocínio: já que o próprio abate torna a carne permitida (livrando-a do status de membro de animal vivo), esse mesmo abate já a torna também suscetível à impureza — mas a lei não o segue.
Rashi observa que a Guemará já questiona a própria formulação da mishná: mesmo que a carne tivesse sido tornada suscetível, o segundo grau de impureza das mãos não produziria um terceiro grau no chulin comum — obrigando a entender a mishná como referida ao chulin preparado com a pureza exigida do sagrado. E explica o raciocínio de Rabi Shimon: como o próprio abate é o que livra a carne da proibição de membro de animal vivo, esse mesmo ato a torna igualmente apta a receber impureza.