Seder Kodashim · Massechet Chulin · Perek Bet · Mishná 5 de 10

Abate sem sangue visível, e a suscetibilidade da carne à impureza

הַשּׁוֹחֵט בְּהֵמָה חַיָּה וְעוֹף וְלֹא יָצָא מֵהֶן דָּם
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Abate sem sangue visível; a suscetibilidade à impureza pelo sangue

Quem abate uma behêmá, uma chayá ou uma ave, e não saiu sangue delas, são válidas, e comem-se com mãos impuras, pois não foram tornadas suscetíveis pelo sangue.A carne só se torna suscetível à impureza ritual depois de entrar em contato com um dos sete líquidos que a tornam apta a recebê-la — entre eles, o sangue. Se o abate não produziu sangue visível, a carne permanece juridicamente não suscetível: pode-se comê-la mesmo após tocá-la com mãos ritualmente impuras de segundo grau, sem que isso a torne impura de terceiro grau, regra especialmente relevante para o chulin preparado segundo a pureza exigida das oferendas consagradas.

Rabi Shimon diz: foram tornadas suscetíveis pelo próprio abate.Rabi Shimon discorda: para ele, o próprio ato do abate — independentemente de haver ou não sangue visível — já torna a carne suscetível à impureza, pois o abate implica necessariamente a presença de sangue interno, ainda que ele não escorra para fora.

הַשּׁוֹחֵט בְּהֵמָה חַיָּה וְעוֹף וְלֹא יָצָא מֵהֶן דָּם, כְּשֵׁרִים, וְנֶאֱכָלִים בְּיָדַיִם מְסֹאָבוֹת, לְפִי שֶׁלֹּא הֻכְשְׁרוּ בְדָם. רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר, הֻכְשְׁרוּ בַשְּׁחִיטָה:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Chulin 2:5
השוחט בהמה חיה ועוף ולא יצא מהן דם כו': ההלכה הזאת בנויה על יסודות רבים והם שהאוכלין כולן שהבשר הוא מכללן אינן מטמאין [אלא] אחר הכשר וההכשר הוא שיפול מהשבעה משקין שהדם מכללם על אותו הדבר המוכשר... וכשיגיעו אותן הידים הטמאות באוכל מוכשר ישוב שלישי כמו שזכרנו כבר קצת מזה בתחלת פסחים ואין משגיחין על שלישי בחולין בשום צד... ואין הלכה כר"ש:

Rambam situa esta mishná dentro do sistema mais amplo das leis de impureza dos alimentos: todo alimento, incluindo a carne, só se torna suscetível à impureza depois de um dos sete líquidos — entre eles o sangue — cair sobre ele; mãos impuras são sempre de segundo grau, e o terceiro grau que delas resulta não tem qualquer efeito relevante no chulin comum, exceto quando este foi preparado segundo a pureza das oferendas consagradas. Remete a explicação completa das raízes desse sistema ao tratado de Tehorot, e conclui que a lei não segue Rabi Shimon.

Bartenura · Chulin 2:5
בְּיָדַיִם מְסֹאָבוֹת. כְּלוֹמַר בְּלֹא נְטִילַת יָדַיִם. דְּגָזְרוּ עַל הַיָּדַיִם לִהְיוֹת שְׁנִיּוֹת לַטֻּמְאָה. וּבְחֻלִּין שֶׁנַּעֲשׂוּ עַל טָהֳרַת הַקֹּדֶשׁ מַיְרֵי... לְפִי שֶׁלֹּא הֻכְשְׁרוּ בְדָם. שֶׁאֵין אֹכֶל מְקַבֵּל טֻמְאָה עַד שֶׁיָּבֹא עָלָיו מַיִם אוֹ אֶחָד מִשִּׁבְעָה מַשְׁקִין... הֻכְשְׁרוּ בַשְּׁחִיטָה. מִגּוֹ דְּשַׁרְיָא שְׁחִיטָה לְהַךְ בָּשָׂר מִידֵי אֵבָר מִן הַחַי, מְשַׁוְּיָא לֵיהּ נַמִּי אוֹכְלָא לְגַבֵּי טֻמְאָה. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי שִׁמְעוֹן:

Bartenura explica que “mãos impuras” significa mãos sem a lavagem ritual, decretadas pelos sábios como de segundo grau de impureza — regra relevante justamente no chulin preparado segundo a pureza do sagrado, onde o segundo grau ainda produz um terceiro grau; no chulin comum, isso não teria efeito de qualquer modo. Explica os sete líquidos que tornam o alimento suscetível: água, vinho, azeite, leite, mel, sangue e orvalho. E, sobre a opinião de Rabi Shimon, explica seu raciocínio: já que o próprio abate torna a carne permitida (livrando-a do status de membro de animal vivo), esse mesmo abate já a torna também suscetível à impureza — mas a lei não o segue.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רש״י
Chulin 33a:9, sobre a Guemará desta mishná
מתני' בידים מסואבות — כלומר בלא נטילה דגזרו עליהם להיות שניות. ובגמרא פריך אפילו הוכשרו נמי אין שני עושה שלישי בחולין: הוכשרו בשחיטה — מגו דשריא שחיטה להך בשר מידי אבר מן החי משויא ליה נמי אוכלא לגבי טומאה:

Rashi observa que a Guemará já questiona a própria formulação da mishná: mesmo que a carne tivesse sido tornada suscetível, o segundo grau de impureza das mãos não produziria um terceiro grau no chulin comum — obrigando a entender a mishná como referida ao chulin preparado com a pureza exigida do sagrado. E explica o raciocínio de Rabi Shimon: como o próprio abate é o que livra a carne da proibição de membro de animal vivo, esse mesmo ato a torna igualmente apta a receber impureza.