Depois da lista de sinais de trefá, a mishná apresenta o espelho exato: os mesmos órgãos, mas em condições que, apesar da aparência alarmante, não comprometem a vida do animal — e por isso o mantêm kosher.
E estas são kosher na behêmá: a traqueia perfurada ou rachada. Até quanto pode faltar? Raban Shimon ben Gamliel diz: até o tamanho do issar italiano. O crânio fraturado sem que a membrana do cérebro tenha sido perfurada; o coração perfurado sem alcançar sua cavidade; a espinha quebrada sem que sua medula tenha sido cortada; o fígado removido, restando dele um kazait,
— Cada um destes casos retoma, ponto por ponto, um sinal de trefá da mishná anterior e define o limite exato abaixo do qual o dano não é fatal. Na traqueia, uma perfuração pequena o bastante — até o tamanho de uma moeda italiana — ainda permite a vida. No crânio, no coração e na espinha, o critério decisivo não é o osso externo, mas sim se a lesão realmente atingiu a membrana do cérebro, a cavidade do coração ou a medula espinhal: enquanto esse limite interno permanecer intacto, o animal continua kosher.
O omaso e o retículo perfurados um para dentro do outro; o baço removido; os rins removidos; a mandíbula inferior removida; o útero removido; e a que secou pela mão do Céu. A que teve a pele arrancada — Rabi Meir valida, e os sábios invalidam.
— Fecha-se a lista com órgãos cuja remoção completa, surpreendentemente, não compromete a vida do animal: baço, rins, mandíbula inferior (desde que os simanim continuem presos à carne e o animal ainda consiga se alimentar por meio de alguém que lhe despeje comida na boca) e útero. O pulmão “seco pela mão do Céu” refere-se a um caso específico, tratado com detalhe pelos mefarshim, de retração pulmonar causada por um susto natural, como um trovão, e não por intervenção humana. Por fim, o caso da pele totalmente arrancada é objeto de disputa: Rabi Meir considera o animal kosher, mas a maioria dos sábios discorda, e a halachá segue a opinião destes últimos.
Rambam explica que múltiplas perfurações na traqueia se somam: se, juntas, ultrapassarem a medida do issar italiano (peso de quatro grãos de cevada, de formato circular), o animal é trefá; se ficarem dentro desse limite, é kosher. Sobre os rins, esclarece que a remoção total de ambos, de um só, ou mesmo a constatação de um terceiro rim, não afeta a validade do animal. Detalha ainda o teste do pulmão “seco pela mão do Céu”: se o susto veio de fenômenos naturais — um relâmpago, um trovão, uma doença que gerou medo — o animal é kosher; se veio de um susto provocado por outra pessoa ou por ver outro animal sendo abatido, é trefá. E conclui, sobre a pele arrancada, que a halachá segue os sábios contra Rabi Meir: o animal é trefá.
Bartenura precisa que a remoção de um rim doente por atrofia é diferente da remoção cirúrgica total: se o rim encolheu por doença até ficar menor que uma medida mínima (o dobro de um grão de feijão na behêmá pequena, ou uma uva média na grande), ou se está cheio de água pútrida, o animal é trefá — mas se contém água clara, é kosher. Sobre a mandíbula removida, o critério é se o animal ainda consegue se alimentar sendo alimentado manualmente. Explica o exame do pulmão seco: no verão, mergulha-se o pulmão em água fria dentro de um vaso de barro claro por um dia inteiro; se ele recupera sua saúde, o susto foi natural e o animal é kosher; se não recupera, foi causado por outra criatura, e é trefá. Por fim, confirma que a halachá acompanha a opinião dos sábios contra Rabi Meir quanto à pele arrancada.
Rashi confirma que a traqueia perfurada permanece kosher desde que a perfuração não ultrapasse a medida do issar, e que a fenda longitudinal só é permitida quando resta pelo menos um segmento mínimo da traqueia acima e abaixo dela — retomando o que já fora dito na mishná anterior sobre a traqueia cortada. Sobre o crânio fraturado, esclarece o procedimento: o osso se rompe, mas é preciso constatar visualmente que a membrana interna do cérebro permanece intacta.