A mishná passa agora da behêmá para a ave, adaptando parte da lista anterior à sua anatomia própria e acrescentando sinais exclusivos, como o golpe da doninha na cabeça.
E estas são treifot na ave: o esôfago perfurado, a traqueia cortada, a doninha que a golpeou na cabeça, em lugar que a torna treifá; a moela perfurada; os intestinos delgados perfurados;
— Os três primeiros sinais retomam, adaptados, os equivalentes já vistos na behêmá: esôfago, traqueia e a lesão cerebral — só que, na ave, a lesão cerebral costuma vir de uma mordida de doninha na cabeça, e não de perfuração direta constatável a olho nu, o que exige um procedimento próprio de verificação. A moela — o órgão muscular que tritura o alimento antes da digestão — e os intestinos delgados completam a lista dos órgãos internos cuja perfuração é fatal.
A que caiu no fogo e teve suas entranhas queimadas — se ficaram verdes, são inválidas; se ficaram vermelhas, são kosher. A que foi pisoteada, ou atirada contra a parede, ou esmagada por uma behêmá e ainda se debate — se permaneceu viva por um dia inteiro e então foi abatida, é kosher.
— O teste da cor das entranhas queimadas baseia-se na mudança de coloração natural dos órgãos: quando o vermelho característico se torna verde por ação do fogo, presume-se dano interno grave. Já no caso do trauma físico — pisoteio, impacto na parede ou esmagamento — a preocupação é que os órgãos internos tenham sido despedaçados pelo choque; mas se a ave sobrevive vinte e quatro horas inteiras depois do incidente, isso é considerado prova de que seus órgãos vitais permaneceram intactos, e o abate subsequente a torna kosher.
Rambam identifica a doninha (chulda) como um animal semelhante a um rato, porém maior, e explica o exame prático para determinar se seu golpe atingiu a membrana do cérebro: introduz-se o dedo pela boca da ave e pressiona-se para cima; se o cérebro transborda ou sangue aparece, a ave é trefá. Sobre a moela, precisa que a perfuração deve atravessar tanto a carne externa quanto a bolsa interna, um ponto exatamente sobre o outro. E esclarece que a mudança de cor por queima só é relevante nos três órgãos cuja coloração vermelha é natural — coração, fígado e moela — tornando-os inválidos apenas se ficarem verdes.
Bartenura esclarece que a doninha golpeia com os dentes, mordendo, e não com as patas — pois há também o conceito de garra da doninha em aves, discutido antes, que torna trefá qualquer lesão na direção da cavidade interna. Detalha o mesmo exame do dedo introduzido na boca da ave para verificar se o cérebro transborda. E explica a expressão “nechmeru”: os órgãos se contraíram sob a ação do fogo e mudaram de cor, expressão que ecoa a linguagem bíblica de Eichá sobre entranhas que se contorcem. Precisa, por fim, que órgãos cuja cor natural é vermelha — e que se tornam verdes pelo fogo — ficam inválidos mesmo com uma mudança mínima de coloração.
Rashi explica por que a mishná precisa repetir sinais já mencionados na behêmá: cada um deles traz uma nuance própria da ave. O esôfago é repetido por causa da traqueia, que na ave tem regra distinta; o golpe da doninha é mencionado porque a mishná quer especificar o “lugar que a torna treifá”, isto é, a perfuração da membrana; e os intestinos perfurados são citados porque a mishná seguinte, sobre os casos kosher, precisará contrastar com o caso de intestinos que saem para fora sem serem perfurados. Sobre a ave pisoteada, esmagada ou atirada contra a parede, Rashi confirma que a preocupação é sempre a mesma — órgãos internos despedaçados — e que, mesmo sobrevivendo vinte e quatro horas, a ave ainda precisa de exame interno antes do abate ser validado.