Seder Kodashim · Massechet Chulin · Perek Guimel · Mishná 3 de 7

Os sinais de trefá na ave

וְאֵלּוּ טְרֵפוֹת בָּעוֹף
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná passa agora da behêmá para a ave, adaptando parte da lista anterior à sua anatomia própria e acrescentando sinais exclusivos, como o golpe da doninha na cabeça.

Esôfago, traqueia, golpe da doninha, moela e intestinos

E estas são treifot na ave: o esôfago perfurado, a traqueia cortada, a doninha que a golpeou na cabeça, em lugar que a torna treifá; a moela perfurada; os intestinos delgados perfurados;

— Os três primeiros sinais retomam, adaptados, os equivalentes já vistos na behêmá: esôfago, traqueia e a lesão cerebral — só que, na ave, a lesão cerebral costuma vir de uma mordida de doninha na cabeça, e não de perfuração direta constatável a olho nu, o que exige um procedimento próprio de verificação. A moela — o órgão muscular que tritura o alimento antes da digestão — e os intestinos delgados completam a lista dos órgãos internos cuja perfuração é fatal.

וְאֵלּוּ טְרֵפוֹת בָּעוֹף. נְקוּבַת הַוֶּשֶׁט, פְּסוּקַת הַגַּרְגֶּרֶת, הִכַּתָּהּ חֻלְדָּה עַל רֹאשָׁהּ, מְקוֹם שֶׁעוֹשֶׂה אוֹתָהּ טְרֵפָה, נִקַּב הַקֻּרְקְבָן, נִקְּבוּ הַדַּקִּין,
Entranhas queimadas, e a ave pisoteada ou esmagada

A que caiu no fogo e teve suas entranhas queimadas — se ficaram verdes, são inválidas; se ficaram vermelhas, são kosher. A que foi pisoteada, ou atirada contra a parede, ou esmagada por uma behêmá e ainda se debate — se permaneceu viva por um dia inteiro e então foi abatida, é kosher.

— O teste da cor das entranhas queimadas baseia-se na mudança de coloração natural dos órgãos: quando o vermelho característico se torna verde por ação do fogo, presume-se dano interno grave. Já no caso do trauma físico — pisoteio, impacto na parede ou esmagamento — a preocupação é que os órgãos internos tenham sido despedaçados pelo choque; mas se a ave sobrevive vinte e quatro horas inteiras depois do incidente, isso é considerado prova de que seus órgãos vitais permaneceram intactos, e o abate subsequente a torna kosher.

נָפְלָה לָאוּר וְנֶחְמְרוּ בְנֵי מֵעֶיהָ, אִם יְרֻקִּים, פְּסוּלִין. אִם אֲדֻמִּים, כְּשֵׁרִים. דְּרָסָהּ, וּטְרָפָהּ בַּכֹּתֶל, אוֹ שֶׁרִצְּצַתָּהּ בְּהֵמָה וּמְפַרְכֶּסֶת, וְשָׁהֲתָה מֵעֵת לְעֵת וּשְׁחָטָהּ, כְּשֵׁרָה:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Chulin 3:3
ואלו טרפות בעוף נקובת הוושט ופסוקת כו': נקובת הוושט ופסוקת הגרגרת כפי מה שהקדמנו בבהמה וכפי אותן התנאים עצמו: וחולדה היא חיה כמין עכבר... ומה שהוא אומר שהיא עושה אותה טרפה רוצה לומר שניקב קרום המוח שלה ויודע זה שיכניס אצבעו לתוך פי העוף וידחוק אותו למעלה אם הדם מבצבץ או יוצא מן המוח טריפה: וקרקבן ענינו ידוע ויש בתוכו כיס מקיף על המאכל הבא אליו וזה הנקב צריך שיהא עובר בבשרו ובכיס שבתוכו זה כנגד זה... ופירוש נחמרו נשרפו... ודע שאין אנו משגיחין בשינוי מראות האברים הפנימיים מן העוף המשתנה מן האדמימות על הירקות זולתי בלב ובכבד ובקורקבן בלבד...

Rambam identifica a doninha (chulda) como um animal semelhante a um rato, porém maior, e explica o exame prático para determinar se seu golpe atingiu a membrana do cérebro: introduz-se o dedo pela boca da ave e pressiona-se para cima; se o cérebro transborda ou sangue aparece, a ave é trefá. Sobre a moela, precisa que a perfuração deve atravessar tanto a carne externa quanto a bolsa interna, um ponto exatamente sobre o outro. E esclarece que a mudança de cor por queima só é relevante nos três órgãos cuja coloração vermelha é natural — coração, fígado e moela — tornando-os inválidos apenas se ficarem verdes.

Bartenura · Chulin 3:3
הִכַּתָּהּ חֻלְדָּה עַל רֹאשָׁהּ. שֶׁנָּשְׁכָה בְשִׁנֶּיהָ. דְּאִלּוּ בַּיָּד, יֵשׁ דְּרִיסָה לְחֻלְדָּה בְּעוֹפוֹת וְכָל כְּנֶגֶד הֶחָלָל מִטַּרְפָא בֵיהּ: מְקוֹם שֶׁעוֹשֶׂה אוֹתָהּ טְרֵפָה. שֶׁיֵּשׁ לָחוּשׁ שֶׁמָּא נִקַּב קְרוּם שֶׁל מֹחַ. וְכֵיצַד הוּא עוֹשֶׂה, מַכְנִיס יָדוֹ לְתוֹךְ פִּי הָעוֹף וְדוֹחֵק אֶצְבָּעוֹ לְמַעְלָה, אִם הַמֹּחַ מְבַצְבֵּץ וְיוֹצֵא בְּיָדוּעַ שֶׁנִּקַּב הַקְּרוּם וּטְרֵפָה: וְנֶחְמְרוּ בְנֵי מֵעֶיהָ. כֻּוְּצוּ מֵחֲמַת הָאוּר וְנֶהֶפְכוּ מַרְאִיתָן. לְשׁוֹן מֵעַי חֳמַרְמָרוּ: יְרֻקִּים פְּסוּלִים. ... אֵבָרִים שֶׁדַּרְכָּן לִהְיוֹת אֲדֻמִּים... אִם נִשְׁתַּנּוּ וְנַעֲשׂוּ יְרֻקִּים מֵחֲמַת הָאוּר, פְּסוּלִים... וְשִׁעוּר שִׁנּוּי הַמַּרְאֶה, בְּמַשֶּׁהוּ:

Bartenura esclarece que a doninha golpeia com os dentes, mordendo, e não com as patas — pois há também o conceito de garra da doninha em aves, discutido antes, que torna trefá qualquer lesão na direção da cavidade interna. Detalha o mesmo exame do dedo introduzido na boca da ave para verificar se o cérebro transborda. E explica a expressão “nechmeru”: os órgãos se contraíram sob a ação do fogo e mudaram de cor, expressão que ecoa a linguagem bíblica de Eichá sobre entranhas que se contorcem. Precisa, por fim, que órgãos cuja cor natural é vermelha — e que se tornam verdes pelo fogo — ficam inválidos mesmo com uma mudança mínima de coloração.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רש״י
Chulin 56a:2, sobre a Guemará desta mishná
מתני' ואלו טריפות בעוף — אע"ג דכל טריפות דבהמה כנגדן בעוף הני אצטריכו ליה למיתני נקובת הוושט משום פסוקת הגרגרת... והכתה חולדה משום דקתני מקום שעושה אותה טרפה דהיינו נקיבת הקרום... וניקבו הדקין משום דקבעי למיתני סיפא גבי אלו כשירות יצאו בני מעיה ולא ניקבו... הכתה — נשכתה בשיניה דאילו ביד אמרן לעיל יש דרוסה לחולדה בעופות וכל כנגד החלל מיטרפה בה: נחמרו — כווצו מחמת האור ונהפכה מראיתן... או שריצצתה בהמה — דאיכא למיחש להני תלתא משום ריסוק איברים ועדיין מפרכסת אם שהתה מעת לעת ושחטה כשרה ובדיקה בעיא כדאוקמינן בפירקין:

Rashi explica por que a mishná precisa repetir sinais já mencionados na behêmá: cada um deles traz uma nuance própria da ave. O esôfago é repetido por causa da traqueia, que na ave tem regra distinta; o golpe da doninha é mencionado porque a mishná quer especificar o “lugar que a torna treifá”, isto é, a perfuração da membrana; e os intestinos perfurados são citados porque a mishná seguinte, sobre os casos kosher, precisará contrastar com o caso de intestinos que saem para fora sem serem perfurados. Sobre a ave pisoteada, esmagada ou atirada contra a parede, Rashi confirma que a preocupação é sempre a mesma — órgãos internos despedaçados — e que, mesmo sobrevivendo vinte e quatro horas, a ave ainda precisa de exame interno antes do abate ser validado.