Seder Kodashim · Massechet Chulin · Perek Guimel · Mishná 5 de 7

Doenças, venenos e perigo de vida: o que é trefá e o que não é

אֲחוּזַת הַדָּם וְהַמְּעֻשֶּׁנֶת
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná se afasta das lesões estruturais para tratar de doenças, intoxicações e situações de risco de vida — distinguindo o que é uma questão de trefá do que é uma questão totalmente diferente: o perigo à vida de quem come.

Condições que mantêm o animal kosher

A tomada pelo sangue, a defumada, a resfriada, a que comeu adelfa, a que comeu excremento de galinhas, ou a que bebeu águas más — é kosher.

— A mishná lista seis condições que, apesar de graves e potencialmente fatais para o animal, não o tornam trefá: congestão sanguínea excessiva, intoxicação por fumaça inalada, adoecimento por frio extremo, ingestão da planta venenosa adelfa (oleandro), ingestão de excremento de galinhas, e consumo de água contaminada. Em nenhum desses casos há uma lesão física interna que corresponda aos sinais estruturais das mishnayot anteriores — são doenças e intoxicações que, por mais perigosas que sejam, não encaixam na definição técnica de trefá.

אֲחוּזַת הַדָּם, וְהַמְּעֻשֶּׁנֶת, וְהַמְצֻנֶּנֶת, וְשֶׁאָכְלָה הַרְדֻּפְנִי, וְשֶׁאָכְלָה צוֹאַת תַּרְנְגוֹלִים, אוֹ שֶׁשָּׁתְתָה מַיִם הָרָעִים, כְּשֵׁרָה.
Veneno mortal e picada de cobra: kosher quanto a trefá, mas proibido por perigo de vida

A que comeu veneno mortal, ou a que foi picada por uma cobra — é permitida quanto a treifá, mas proibida por perigo de vida.

— A mishná fecha com uma distinção conceitual fundamental que atravessa toda a matéria de trefá: mesmo quando um animal ingeriu veneno letal para seres humanos, ou foi picado por uma cobra cujo veneno pode ter contaminado sua carne, isso não o torna trefá no sentido técnico — pois o veneno não causou nenhuma das lesões estruturais definidas. No entanto, comer essa carne permanece proibido, mas por um motivo totalmente distinto: o risco concreto à vida de quem a consumir. A halachá trata a preservação da vida como uma categoria autônoma, independente e por vezes mais rigorosa do que a própria proibição de trefá.

אָכְלָה סַם הַמָּוֶת אוֹ שֶׁהִכִּישָׁהּ נָחָשׁ, מֻתֶּרֶת מִשּׁוּם טְרֵפָה, וַאֲסוּרָה מִשּׁוּם סַכָּנַת נְפָשׁוֹת:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Chulin 3:5
אחוזת דם והמעושנת והמצוננת ושאכלה כו': אחוזת הדם הוא שגבר עליה הדם עד שחונקה: והמעושנת שגבר עליה המרה השחורה... והמצוננת שגברה עליה הליחה הלבנה עד שנתבטלו חושיה ולא זכרו תגבורת המרה האדומה לפי שהוא בבהמות מועטת ביותר כמו שנתבאר בספרי רפואות הבהמות: והרדפני הוא עשב כשאוכלים אותו הבהמות הורג אותן ואינו מזיק לבני אדם כמו צואת התרנגולים: ומה שאמר סם המות רוצה לומר הדבר שהורג את האדם אם אכל ממנו לפי שיש דברם הם מזון יפה למין ידוע מבעלי חיים וסם המות לבעלי חיים אחרים וזה מפורסם אצל הרופאים:

Rambam explica os quatro estados patológicos em termos da medicina humoral clássica: a “tomada pelo sangue” é quando o sangue domina o corpo do animal a ponto de sufocá-lo; a “defumada” sofre o predomínio da bile negra; a “resfriada”, o predomínio do fleuma branco, a ponto de anular seus sentidos. A mishná não menciona o predomínio da bile vermelha (o quarto humor) porque essa condição é rara nos animais, como explicado nos tratados veterinários da época. Sobre a adelfa, esclarece que é uma planta que mata os animais que a comem, mas não prejudica seres humanos — assim como o excremento de galinhas. E precisa que o “veneno mortal” da mishná se refere especificamente ao que mata o ser humano, já que algumas substâncias são alimento saudável para uma espécie e veneno mortal para outra, fato bem conhecido entre os médicos.

Bartenura · Chulin 3:5
אֲחוּזַת הַדָּם. שֶׁאֲחָזָהּ דָּם וְחָלְתָה: וְהַמְעֻשֶּׁנֶת. שֶׁנִּכְנַס עָשָׁן בְּגוּפָהּ: וְהַמְצֻנֶּנֶת. חֹלִי מֵחֲמַת צִנָּה. וְרַמְבַּ"ם פֵּרֵשׁ אֲחוּזַת הַדָּם שֶׁגָּבַר עָלֶיהָ הַדָּם, וְהַמְעֻשֶּׁנֶת שֶׁגָּבְרָה עָלֶיהָ הַלֵּחָה הַשְּׁחוֹרָה, וְהַמְצֻנֶּנֶת שֶׁגָּבְרָה עָלֶיהָ הַלֵּחָה הַלְּבָנָה. וְלֹא הִזְכִּיר הַלֵּחָה הָרְבִיעִית שֶׁהִיא הָאֲדֻמָּה, לְפִי שֶׁאֵינָהּ מְצוּיָה כָּל כָּךְ בַּבְּהֵמוֹת: הַרְדֻּפְנִי. סַם הַמָּוֶת דִּבְהֵמָה. וְכֵן צוֹאַת הַתַּרְנְגוֹלִים, הַבְּהֵמוֹת הָאוֹכְלוֹת מִמֶּנָּה מֵתוֹת: סַם הַמָּוֶת. דָּבָר שֶׁהוּא סַם הַמָּוֶת לָאָדָם וְאֵינוֹ סַם הַמָּוֶת לַבְּהֵמָה:

Bartenura oferece, primeiro, uma leitura simples de cada termo — sangue em excesso, fumaça que penetrou no corpo, doença por frio — e depois cita a leitura mais técnica de Rambam, baseada no predomínio de cada um dos humores clássicos. Confirma que a adelfa é veneno mortal para a behêmá, assim como o excremento de galinhas, que mata os animais que o comem. E fecha esclarecendo que o “veneno mortal” da última cláusula é, precisamente, uma substância letal para o ser humano, mas não necessariamente para a behêmá que a ingeriu — daí a distinção entre a permissão técnica quanto a trefá e a proibição prática por risco à vida de quem comer.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רש״י
Chulin 58b:13, sobre a Guemará desta mishná
מתני' אחוזת הדם — שאחזה דם וחלתה: והמעושנת — נכנס עשן בגופה: והמצוננת — חולי מחמת צינה: הרדופני — סם המות לבהמה: מים הרעים — מים מגולים: אכלה סם המות — שהוא סם המות לאדם:

Rashi confirma, de modo sucinto, o sentido literal de cada termo da mishná: a tomada pelo sangue adoeceu por excesso sanguíneo; a defumada teve fumaça penetrando seu corpo; a resfriada adoeceu pelo frio. Define as “águas más” como águas deixadas descobertas — e portanto suspeitas de contaminação por veneno de réptil, um perigo mencionado alhures no Talmud. E fecha confirmando que o “veneno mortal” mencionado por último refere-se especificamente ao que é letal para o ser humano.