A mishná se afasta das lesões estruturais para tratar de doenças, intoxicações e situações de risco de vida — distinguindo o que é uma questão de trefá do que é uma questão totalmente diferente: o perigo à vida de quem come.
A tomada pelo sangue, a defumada, a resfriada, a que comeu adelfa, a que comeu excremento de galinhas, ou a que bebeu águas más — é kosher.
— A mishná lista seis condições que, apesar de graves e potencialmente fatais para o animal, não o tornam trefá: congestão sanguínea excessiva, intoxicação por fumaça inalada, adoecimento por frio extremo, ingestão da planta venenosa adelfa (oleandro), ingestão de excremento de galinhas, e consumo de água contaminada. Em nenhum desses casos há uma lesão física interna que corresponda aos sinais estruturais das mishnayot anteriores — são doenças e intoxicações que, por mais perigosas que sejam, não encaixam na definição técnica de trefá.
A que comeu veneno mortal, ou a que foi picada por uma cobra — é permitida quanto a treifá, mas proibida por perigo de vida.
— A mishná fecha com uma distinção conceitual fundamental que atravessa toda a matéria de trefá: mesmo quando um animal ingeriu veneno letal para seres humanos, ou foi picado por uma cobra cujo veneno pode ter contaminado sua carne, isso não o torna trefá no sentido técnico — pois o veneno não causou nenhuma das lesões estruturais definidas. No entanto, comer essa carne permanece proibido, mas por um motivo totalmente distinto: o risco concreto à vida de quem a consumir. A halachá trata a preservação da vida como uma categoria autônoma, independente e por vezes mais rigorosa do que a própria proibição de trefá.
Rambam explica os quatro estados patológicos em termos da medicina humoral clássica: a “tomada pelo sangue” é quando o sangue domina o corpo do animal a ponto de sufocá-lo; a “defumada” sofre o predomínio da bile negra; a “resfriada”, o predomínio do fleuma branco, a ponto de anular seus sentidos. A mishná não menciona o predomínio da bile vermelha (o quarto humor) porque essa condição é rara nos animais, como explicado nos tratados veterinários da época. Sobre a adelfa, esclarece que é uma planta que mata os animais que a comem, mas não prejudica seres humanos — assim como o excremento de galinhas. E precisa que o “veneno mortal” da mishná se refere especificamente ao que mata o ser humano, já que algumas substâncias são alimento saudável para uma espécie e veneno mortal para outra, fato bem conhecido entre os médicos.
Bartenura oferece, primeiro, uma leitura simples de cada termo — sangue em excesso, fumaça que penetrou no corpo, doença por frio — e depois cita a leitura mais técnica de Rambam, baseada no predomínio de cada um dos humores clássicos. Confirma que a adelfa é veneno mortal para a behêmá, assim como o excremento de galinhas, que mata os animais que o comem. E fecha esclarecendo que o “veneno mortal” da última cláusula é, precisamente, uma substância letal para o ser humano, mas não necessariamente para a behêmá que a ingeriu — daí a distinção entre a permissão técnica quanto a trefá e a proibição prática por risco à vida de quem comer.
Rashi confirma, de modo sucinto, o sentido literal de cada termo da mishná: a tomada pelo sangue adoeceu por excesso sanguíneo; a defumada teve fumaça penetrando seu corpo; a resfriada adoeceu pelo frio. Define as “águas más” como águas deixadas descobertas — e portanto suspeitas de contaminação por veneno de réptil, um perigo mencionado alhures no Talmud. E fecha confirmando que o “veneno mortal” mencionado por último refere-se especificamente ao que é letal para o ser humano.