Seder Kodashim · Massechet Chulin · Perek Guimel · Mishná 6 de 7

Os sinais de pureza da behêmá, da chayá e da ave

סִימָנֵי בְהֵמָה וְחַיָּה נֶאֶמְרוּ מִן הַתּוֹרָה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Depois de tratar exaustivamente da trefá, a mishná muda de assunto: passa a discutir os sinais que definem, de saída, se uma espécie é kosher — tema distinto e anterior ao da trefá.

Sinais da Torá e sinais estabelecidos pelos sábios

Os sinais da behêmá e da chayá foram ditos pela Torá; os sinais da ave não foram ditos. Mas os sábios disseram: toda ave que apresa é impura; toda a que tem um dedo a mais, e papo, e cuja moela se descasca, é pura. Rabi Eliezer bar Tzadok diz: toda ave que divide as pernas é impura.

— A mishná observa uma assimetria notável na Torá: para a behêmá (animal doméstico) e a chayá (animal selvagem), os sinais de pureza são explícitos — casco fendido e ruminação. Já para as aves, a Torá se limita a listar as espécies proibidas por nome, sem fornecer um critério estrutural. Coube aos sábios formular sinais próprios: a ave que apresa a presa com as garras e a devora é impura — e este é considerado o critério mais confiável; já a presença de um dedo extra elevado atrás dos demais, de um papo, e de uma moela cuja membrana interna se descola facilmente, são sinais positivos de pureza. Rabi Eliezer bar Tzadok acrescenta um sinal de impureza: a ave que, pousada sobre um fio, divide os dedos dois de cada lado.

סִימָנֵי בְהֵמָה וְחַיָּה נֶאֶמְרוּ מִן הַתּוֹרָה, וְסִימָנֵי הָעוֹף לֹא נֶאֱמָרוּ. אֲבָל אָמְרוּ חֲכָמִים, כָּל עוֹף הַדּוֹרֵס, טָמֵא. כֹּל שֶׁיֶּשׁ לוֹ אֶצְבַּע יְתֵרָה, וְזֶפֶק, וְקֻרְקְבָנוֹ נִקְלָף, טָהוֹר. רַבִּי אֱלִיעֶזֶר בַּר צָדוֹק אוֹמֵר, כָּל עוֹף הַחוֹלֵק אֶת רַגְלָיו, טָמֵא:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Chulin 3:6
סימני בהמה וחיה נאמרו מן התורה וסימני העוף כו': דורס הוא שיתן ידו על הדבר שהוא אוכל ואח"כ אוכל ממנו וכן עושין כל בעלי חיים שהם טורפים ובתוך הקורקבן קרום נקלף בעוף טהור ואינו נקלף בעוף טמא ואין אנו צריכים לכולם אלא אפילו אחד מהן אם נמצאת בעוף שאין אנו מכירין אותו הרי הוא עוף טהור ע"מ שלא יהא דורס ואוכל לפי שכל דורס ואוכל טמא וזה דין כולל ומה שאמר רבי אליעזר בר צדוק אמת... וכשנדע שהבהמה הזו מותרת באכילה בשר הסימנים הנאמרים בתורה חייבים אנו לדעת אם היא חיה ומותר לאכול חלבה וטעונה כיסוי דם או היא בהמה ואסור לאכול חלבה ואינה טעונה כסוי דמה...

Rambam define “dores” (apresar) como o comportamento de pousar a garra sobre o alimento antes de comê-lo, próprio de toda ave predadora. Explica que, dos três sinais positivos listados, basta um único para presumir a pureza de uma ave desconhecida — desde que se saiba, com certeza, que ela não apresa, pois toda ave que apresa é impura, e esse é o critério mais abrangente. Confirma a validade do sinal adicional de Rabi Eliezer bar Tzadok. E acrescenta que, além de identificar se um animal é kosher pelos sinais da Torá, é preciso ainda determinar se se trata de uma chayá — cuja gordura é permitida e cujo sangue exige cobertura ritual — ou de uma behêmá, cuja gordura é proibida e cujo sangue não exige cobertura.

Bartenura · Chulin 3:6
הַדּוֹרֵס. הָאוֹחֵז בְּצִפָּרְנָיו וּמַגְבִּיהַּ מִן הַקַּרְקַע מַה שֶּׁהוּא אוֹכֵל. וְיֵשׁ שֶׁפֵּרְשׁוּ, שֶׁאֵינוֹ מַמְתִּין לַבַּעַל חַי עַד שֶׁיָּמוּת אֶלָּא אוֹכְלוֹ מֵחַיִּים: אֶצְבַּע יְתֵרָה. זוֹ אֶצְבַּע הַגְּבוֹהָה שֶׁאֲחוֹרֵי הָאֶצְבָּעוֹת: וְקֻרְקְבָנוֹ נִקְלָף. הַכִּיס שֶׁבְּתוֹךְ הַקֻּרְקְבָן נִקְלָף מִבְּשַׂר הַקֻּרְקְבָן. וְלֹא שֶׁיִּהְיֶה כָּל עוֹף טָהוֹר צָרִיךְ לְכָל הַסִּימָנִים הַלָּלוּ, אֶלָּא סִימָן אֶחָד בִּלְבָד דַּי, וּבִלְבָד שֶׁנֵּדַע בּוֹ שֶׁאֵינוֹ דוֹרֵס וְאוֹכֵל. וְהַגְּאוֹנִים כָּתְבוּ שֶׁמָּסֹרֶת בְּיָדָם שֶׁאֵין מַכְשִׁירִים עוֹף הַבָּא בְּסִימָן אֶחָד... אֶלָּא אִם כֵּן הָיָה אוֹתוֹ סִימָן שֶׁקֻּרְקְבָנוֹ נִקְלָף בַּיָּד... הַחוֹלֵק אֶת רַגְלָיו. כְּשֶׁמַּעֲמִידוֹ עַל הַחוּט נוֹתֵן שְׁתֵּי אֶצְבְּעוֹתָיו מִכָּאן וּשְׁתַּיִם מִכָּאן: טָמֵא. בְּיָדוּעַ שֶּׁהוּא דוֹרֵס:

Bartenura detalha o sinal de “apresar”: a ave segura com as garras e ergue do chão o que vai comer — e há quem explique que ela nem espera a presa morrer, comendo-a ainda viva. Localiza o dedo extra na parte de trás, elevado acima dos demais. E traz um dado prático essencial, atribuído aos geonim: embora, em teoria, um único sinal positivo já baste para presumir pureza, a tradição recebida é mais cautelosa — não se declara pura uma ave por um único sinal, a menos que esse sinal seja especificamente a moela cuja membrana se descasca facilmente à mão; os demais sinais isolados (dedo extra ou papo) não bastam sozinhos. Sobre o sinal de Rabi Eliezer bar Tzadok, explica que a ave, pousada sobre um fio ou vara fina, distribui dois dedos de um lado e dois do outro — sinal seguro de impureza, indicando que se trata de ave de rapina.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רש״י
Chulin 59a:6, sobre a Guemará desta mishná
מתני' סימני בהמה וחיה — דכתיב זאת החיה וגו': הדורס — האוחז בצפרניו ומגביה מן הקרקע מה שאוכל: אצבע יתירה — זו אצבע הגבוה שאחורי האצבעות: החולק רגליו — מפרש בגמ' שכשמעמידו על החוט נותן שתי אצבעות מכאן ושתים מכאן: טמא — בידוע שהוא דורס:

Rashi ancora a primeira cláusula da mishná no versículo “esta é a chayá…” (Vayikrá 11), fonte bíblica dos sinais de pureza de behêmá e chayá. Confirma, com as mesmas palavras de Bartenura, o sentido de “apresar” — segurar com as garras e erguer do chão o alimento — e localiza o dedo extra atrás dos demais. Remete à Guemará para o detalhe do sinal de Rabi Eliezer bar Tzadok: a divisão dos dedos, dois de cada lado do fio sobre o qual a ave está pousada, é sinal seguro de que se trata de ave predadora, e portanto impura.