Depois de tratar exaustivamente da trefá, a mishná muda de assunto: passa a discutir os sinais que definem, de saída, se uma espécie é kosher — tema distinto e anterior ao da trefá.
Os sinais da behêmá e da chayá foram ditos pela Torá; os sinais da ave não foram ditos. Mas os sábios disseram: toda ave que apresa é impura; toda a que tem um dedo a mais, e papo, e cuja moela se descasca, é pura. Rabi Eliezer bar Tzadok diz: toda ave que divide as pernas é impura.
— A mishná observa uma assimetria notável na Torá: para a behêmá (animal doméstico) e a chayá (animal selvagem), os sinais de pureza são explícitos — casco fendido e ruminação. Já para as aves, a Torá se limita a listar as espécies proibidas por nome, sem fornecer um critério estrutural. Coube aos sábios formular sinais próprios: a ave que apresa a presa com as garras e a devora é impura — e este é considerado o critério mais confiável; já a presença de um dedo extra elevado atrás dos demais, de um papo, e de uma moela cuja membrana interna se descola facilmente, são sinais positivos de pureza. Rabi Eliezer bar Tzadok acrescenta um sinal de impureza: a ave que, pousada sobre um fio, divide os dedos dois de cada lado.
Rambam define “dores” (apresar) como o comportamento de pousar a garra sobre o alimento antes de comê-lo, próprio de toda ave predadora. Explica que, dos três sinais positivos listados, basta um único para presumir a pureza de uma ave desconhecida — desde que se saiba, com certeza, que ela não apresa, pois toda ave que apresa é impura, e esse é o critério mais abrangente. Confirma a validade do sinal adicional de Rabi Eliezer bar Tzadok. E acrescenta que, além de identificar se um animal é kosher pelos sinais da Torá, é preciso ainda determinar se se trata de uma chayá — cuja gordura é permitida e cujo sangue exige cobertura ritual — ou de uma behêmá, cuja gordura é proibida e cujo sangue não exige cobertura.
Bartenura detalha o sinal de “apresar”: a ave segura com as garras e ergue do chão o que vai comer — e há quem explique que ela nem espera a presa morrer, comendo-a ainda viva. Localiza o dedo extra na parte de trás, elevado acima dos demais. E traz um dado prático essencial, atribuído aos geonim: embora, em teoria, um único sinal positivo já baste para presumir pureza, a tradição recebida é mais cautelosa — não se declara pura uma ave por um único sinal, a menos que esse sinal seja especificamente a moela cuja membrana se descasca facilmente à mão; os demais sinais isolados (dedo extra ou papo) não bastam sozinhos. Sobre o sinal de Rabi Eliezer bar Tzadok, explica que a ave, pousada sobre um fio ou vara fina, distribui dois dedos de um lado e dois do outro — sinal seguro de impureza, indicando que se trata de ave de rapina.
Rashi ancora a primeira cláusula da mishná no versículo “esta é a chayá…” (Vayikrá 11), fonte bíblica dos sinais de pureza de behêmá e chayá. Confirma, com as mesmas palavras de Bartenura, o sentido de “apresar” — segurar com as garras e erguer do chão o alimento — e localiza o dedo extra atrás dos demais. Remete à Guemará para o detalhe do sinal de Rabi Eliezer bar Tzadok: a divisão dos dedos, dois de cada lado do fio sobre o qual a ave está pousada, é sinal seguro de que se trata de ave predadora, e portanto impura.