A última mishná do Perek Guimel completa o percurso dos sinais de pureza, passando das aves aos gafanhotos e, por fim, aos peixes — encerrando o capítulo e fechando o ciclo dos critérios de cashrut das diferentes espécies.
E quanto aos gafanhotos: todo o que tem quatro pernas, e quatro asas, e pernas saltadoras, e cujas asas cobrem a maior parte dele — Rabi Yosei diz: e cujo nome é gafanhoto. E quanto aos peixes: todo o que tem barbatana e escama — Rabi Yehuda diz: duas escamas e uma barbatana. E estas são as escamas: as que são fixas a ele; e as barbatanas: as com que ele nada.
— Assim como fez com a ave na mishná anterior, a mishná agora estabelece os sinais próprios do gafanhoto — espécie cujos sinais também não constam explicitamente na Torá: quatro pernas, quatro asas, um par adicional de pernas saltadoras (usadas para pular) e asas longas o bastante para cobrir a maior parte do corpo. Rabi Yosei acrescenta uma condição extra: mesmo apresentando os quatro sinais físicos, só é permitido comê-lo se sua espécie for reconhecida e chamada, na tradição, pelo nome “gafanhoto”. Já para o peixe, a mishná finalmente chega a um caso em que os sinais são explícitos na própria Torá — barbatana e escama — e define com precisão os dois termos: escamas são as placas fixas ao corpo do peixe, e barbatanas são os apêndices com os quais ele se locomove na água.
Rambam explica que “cobrir a maior parte” se refere tanto à largura quanto ao comprimento do corpo do gafanhoto, e confirma que a halachá segue Rabi Yosei: mesmo apresentando todos os quatro sinais físicos, só é permitido comer o inseto se sua espécie for efetivamente conhecida, em qualquer idioma, pelo nome equivalente a “gafanhoto”. Confirma também que a halachá segue Rabi Yehuda quanto ao peixe. E acrescenta um detalhe prático importante: se uma espécie de peixe desenvolve escamas apenas quando adulta, ou as perde ao sair da água — como ocorre com diversas espécies — ela continua permitida mesmo num exemplar que, no momento, não apresenta escama alguma, pois o que importa é a espécie, não o espécime individual.
Bartenura descreve as pernas saltadoras (karsulaim) como um par adicional, além das quatro pernas comuns, localizado junto ao pescoço acima das demais pernas, usado especificamente para dar impulso no salto. Confirma que a halachá segue Rabi Yosei quanto à exigência do nome “gafanhoto”. E, sobre o peixe, esclarece a mesma regra de Rambam com outras palavras: mesmo um espécime que ainda não desenvolveu escamas, mas que as desenvolverá com o crescimento, ou que as tem agora mas as perderá ao sair da água, permanece permitido — pois a permissão acompanha a espécie, e não o estado momentâneo do indivíduo.
Rashi confirma a descrição das pernas saltadoras nos mesmos termos: um par adicional, junto ao pescoço, usado para o salto. Observa uma variante na leitura precisa do texto da mishná quanto à pontuação exata dos quatro sinais, remetendo à Guemará, que deriva esse conjunto de sinais diretamente de um verso bíblico. E fecha definindo, em uma única palavra, o verbo “porê'ach” aplicado à barbatana: nadar, deslizar sobre a água.