Seder Kodashim · Massechet Chulin · Perek Dalet · Mishná 1 de 7

O feto que estende um membro para fora do ventre materno

בְּהֵמָה הַמַּקְשָׁה לֵילֵד וְהוֹצִיא הָעֻבָּר אֶת יָדוֹ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

O Perek Dalet abre uma nova frente no tratado: depois de tratar, nos capítulos anteriores, dos sinais externos de pureza das diferentes espécies, a mishná passa a discutir o estatuto do feto (ubar) encontrado no ventre da mãe abatida — e como o abate da mãe permite, ou deixa de permitir, o consumo de suas partes.

O princípio de que o feto é parte do corpo da mãe

Um animal que tem dificuldade para parir, e o feto estendeu sua pata e a recolheu, é permitido no comer. Se estendeu a cabeça, ainda que a tenha recolhido, eis que este é como um já nascido. Quem corta do feto que está em suas entranhas, é permitido no comer. Do baço e dos rins, é proibido no comer. Este é o princípio: a coisa que é do seu próprio corpo é proibida; a que não é do seu corpo, é permitida.

A mishná estabelece o eixo de todo o capítulo: o feto, enquanto está dentro do ventre materno, é tratado como parte do corpo da mãe, de modo que o abate dela também o permite para consumo. Mas, se algum membro do feto sai para fora dessa fronteira antes do abate, esse membro passa a ter o status de algo que saiu do seu limite natural — e, mesmo recolhido de volta, permanece proibido, salvo o caso de uma simples pata; já a saída da cabeça equivale ao próprio nascimento, retirando o feto inteiro da condição de mero apêndice da mãe e exigindo, dali em diante, abate próprio. Pedaços cortados do feto, enquanto este continua dentro do ventre, são permitidos pelo abate da mãe, por serem considerados parte do seu corpo; já pedaços do baço ou dos rins da própria mãe, mesmo deixados dentro dela, permanecem proibidos, porque são partes do corpo dela mesma, separadas antes do abate — e o abate não redime o que já foi destacado de um corpo vivo. A mishná fecha com o princípio que resume a distinção entre os dois casos.

בְּהֵמָה הַמַּקְשָׁה לֵילֵד, וְהוֹצִיא הָעֻבָּר אֶת יָדוֹ וְהֶחֱזִירָהּ, מֻתָּר בַּאֲכִילָה. הוֹצִיא אֶת רֹאשׁוֹ, אַף עַל פִּי שֶׁהֱחֱזִירוֹ, הֲרֵי זֶה כְיָלוּד. חוֹתֵךְ מֵעֻבָּר שֶׁבְּמֵעֶיהָ, מֻתָּר בַּאֲכִילָה. מִן הַטְּחוֹל וּמִן הַכְּלָיוֹת, אָסוּר בַּאֲכִילָה. זֶה הַכְּלָל, דָּבָר שֶׁגּוּפָהּ, אָסוּר. שֶׁאֵינוֹ גוּפָהּ, מֻתָּר:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת מִן הַתּוֹרָה

Shemot 22:30
וְאַנְשֵׁי־קֹ֖דֶשׁ תִּהְי֣וּן לִ֑י וּבָשָׂ֨ר בַּשָּׂדֶ֤ה טְרֵפָה֙ לֹ֣א תֹאכֵ֔לוּ לַכֶּ֖לֶב תַּשְׁלִכ֥וּן אֹתֽוֹ׃{ס}
“E homens de santidade sereis para Mim; e carne dilacerada no campo não comereis — ao cão a lançareis.”
Segundo Rambam e Rashi, é deste versículo que se deriva a proibição do membro que saiu do ventre antes do abate: carne no campo é entendida como carne que saiu para fora de sua fronteira própria — tornando-se, para ela, como um “campo” aberto — e tal carne tem o status de tereifá. Assim como a tereifá, uma vez configurada, não tem mais remédio, também essa carne, uma vez fora de seu limite, não tem mais remédio — ainda que seja recolhida de volta antes do abate.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Chulin 4:1
בהמה המקשה לילד והוציא העובר את ידו כו': מה שאמר מותר רצה לומר אותו העובר אם נשחטה אמו והוציאוהו מגופו יהא מותר באכילה ואותו האבר שיצא קודם השחיטה אינו מותר לאכלו ואפילו חזר לגוף הבהמה לפי שנאמר ובשר בשדה טרפה רוצה לומר שבשר שיצא חוץ למחיצתו שהוא לו שדה הרי הוא טרפה וכבר ביארנו זה בזבחים וכמו שהטריפה כיון שנטרפה שוב אין לה היתר אף בשר כיון שיצא ממחיצתו אין לו היתר ואפי' שב למחיצתו ולפיכך אוסרים אותו האבר אפילו החזיר וההפרש מבואר שאם החזיר אותו אבר ואח"כ נשחט הבהמה או לא החזירה רק אם נשחטה הבהמה ואותו האבר יצא ממנה שאם החזיר האבר קודם שחיטה חותכין אותו היוצא בלבד ואוכל שאר העובר ואם לא החזירה ונשחטה הבהמה חותכין אותו האבר שיצא ואינו מותר באכילה ואסור מקום החתוך ג"כ מפני שיצא לאויר ואח"כ חותכין מלמעלה מעט מן הסמוך לגוף ומשליכין אותו וזה ענין מה שאמר לא נצרכה אלא למקום חתך: ומה שאמר הרי זה כילוד רוצה לומר שאם נמצא חי בבטן אמו אחר שחיטה אינו מותר באכילה עד שישחוט אותו ואין אנו אומרים שחיטת אמו מטהרתו: ומה שאמר חתך מן העובר שבמעיה מותר באכילה רוצה לומר שאותו דבר שחותכין ממנו מותר באכילה ולא נאמר עליו אבר מן החי על מנת שהוא בתוך הגוף עד שתשחט הבהמה:

Rambam explica que a permissão da mishná se refere ao feto inteiro: quando a mãe é abatida e ele é retirado de seu corpo, é permitido comê-lo. Mas o membro que saiu antes do abate não pode ser comido, mesmo tendo voltado para dentro do corpo do animal, porque a Torá diz “carne dilacerada no campo” — carne que sai para fora de sua fronteira, tornando-se como seu próprio “campo”, tem o status de tereifá; e, assim como a tereifá, uma vez configurada, não tem mais remédio, também essa carne, uma vez fora de sua fronteira, não tem mais remédio, ainda que retorne a ela. Por isso o membro permanece proibido mesmo recolhido. Rambam esclarece a diferença prática: se o membro foi recolhido antes do abate, corta-se apenas a parte que havia saído, e come-se o resto do feto; se não foi recolhido e a mãe foi abatida, corta-se o membro que saiu — que permanece proibido — cortando-se também, por precaução, um pouco a mais, junto ao corpo, e descartando essa porção adicional. Sobre “eis que este é como um nascido”, esclarece que, se o feto for encontrado vivo no ventre após o abate da mãe, ele não pode ser comido até que seja abatido por si mesmo. E quanto ao que é cortado do feto ainda dentro do ventre, confirma que é permitido, pois não se aplica a ele a proibição de “membro de um ser vivo”, já que permanece dentro do corpo até o abate.

Bartenura · Chulin 4:1
בְּהֵמָה הַמַּקְשָׁה כוּ'. מֻתָּר בַּאֲכִילָה. הָעֻבָּר כֻּלּוֹ, וַאֲפִלּוּ מְקוֹם חֲתָךְ שֶׁל אֵבָר. דְּאִם הוֹצִיא יָדוֹ וְלֹא הֶחֱזִירָהּ צָרִיךְ לְהַנִּיחַ מִמַּה שֶּׁבִּפְנִים לַצַּד הַחִיצוֹן וּלְחָתְכוֹ, שֶׁמְּקוֹם הַחֲתָךְ הַבְדָּלַת הַחִיצוֹן וְהַפְּנִימִי אָסוּר, מִפְּנֵי שֶׁהוּא עוֹמֵד עַל שְׂפַת הָרֶחֶם. אֲבָל הֶחֱזִירָהּ אֵין צָרִיךְ לַחְתֹּךְ לְצַד פְּנִים, אֶלָּא מְצַמְצֵם וְחוֹתֵךְ וּמְקוֹם חֲתָךְ מֻתָּר. דְּמַאי טַעֲמָא נֶאֱסַר הָאֵבָר כְּשֶׁיָּצָא לַחוּץ, מִשּׁוּם וּבָשָׂר בַּשָּׂדֶה טְרֵפָה, בָּשָׂר שֶׁיָּצָא חוּץ לִמְחִצָּתוֹ שֶׁהוּא לוֹ שָׂדֶה, טְרֵפָה. מַה טְּרֵפָה כֵּיוָן שֶׁנִּטְרְפָה שׁוּב אֵין לָהּ הֶתֵּר, אַף בָּשָׂר כֵּיוָן שֶׁיָּצָא חוּץ לִמְחִצָּתוֹ שׁוּב אֵין לוֹ הֶתֵּר. וּמְקוֹם חֲתָךְ לֹא יָצָא חוּץ לִמְחִצָּתוֹ, הִלְכָּךְ מֻתָּר כְּשֶׁהֶחֱזִירָהּ קֹדֶם שְׁחִיטָה, דְּקָרִינַן בֵּיהּ בְּהֵמָה בַּבְּהֵמָה תֹּאכֵלוּ: הֲרֵי הוּא כְיָלוּד. וְתוּ לֹא מַהֲנֵי לֵיהּ שְׁחִיטַת אִמּוֹ, וְצָרִיךְ שְׁחִיטָה לְעַצְמוֹ אִם נִמְצָא חַי. וְאִם נִמְצָא מֵת הֲרֵי הוּא כִנְבֵלָה: חוֹתֵךְ מֵעֻבָּר שֶׁבְּמֵעֶיהָ. וְהִנִּיחַ הַחֲתִיכָה בְּתוֹכָהּ, מֻתָּר בִּשְׁחִיטַת הַבְּהֵמָה וְלֹא נֶאֱסָר מִשּׁוּם אֵבָר מִן הַחַי: מִן הַטְּחוֹל וּמִן הַכְּלָיוֹת. שֶׁל בְּהֵמָה עַצְמָהּ: אָסוּר בַּאֲכִילָה. וְאַף עַל פִּי שֶׁהִנִּיחוֹ בַּבְּהֵמָה לֹא הֻתַּר בִּשְׁחִיטָתָהּ. וּלְהָכִי נָקַט טְחוֹל וּכְלָיוֹת, מִשּׁוּם דְּמִידִי דְלֹא מִטַּרְפָא בְּהוּ הוּא:

Bartenura detalha a razão prática: quando a pata do feto sai e não retorna, é preciso deixar uma pequena porção do lado interno para cortar, pois o próprio ponto de corte marca a fronteira entre o que estava dentro e o que já esteve fora, e por isso esse ponto é proibido, por ter estado à beira do útero. Já se o membro foi recolhido antes do abate, não é necessário cortar para dentro: corta-se rente, e o próprio ponto de corte é permitido, porque nunca chegou de fato a sair da fronteira — aplicando-se a ele o versículo “do animal comereis”. Sobre “eis que este é como um nascido”, esclarece que, a partir desse momento, o abate da mãe já não ajuda: é necessário abate próprio se encontrado vivo, e status de carcaça se encontrado morto. Sobre o que é cortado do feto dentro do ventre, esclarece que, deixando o pedaço lá dentro, ele é permitido pelo abate do animal, sem incorrer na proibição de membro de ser vivo. Já quanto ao baço e aos rins, especifica que são órgãos da própria mãe, e observa que a mishná escolheu justamente esses dois órgãos como exemplo porque cortá-los não torna o animal uma tereifá.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רש״י
Chulin 68a, sobre a Guemará desta mishná
מתני' בהמה המקשה לילד - בשעת שחיטה: והחזירו - קודם שחיטה: מותר באכילה - ובגמרא מפרש מאן מותר: הרי זה כילוד - ותו לא מהניא ליה שחיטת אמו וצריך שחיטה לעצמו אם נמצא חי ואם נמצא מת הרי הוא כנבלה:

Rashi esclarece que a dificuldade de parto de que fala a mishná ocorre precisamente no momento do abate, e que “a recolheu” refere-se a antes do abate. Sobre “permitido no comer”, remete à Guemará, que discute exatamente qual porção está permitida. E sobre “eis que este é como um nascido”, confirma que, a partir desse ponto, o abate da mãe já não ajuda: é necessário abate próprio caso o feto seja encontrado vivo; e, se for encontrado morto, seu status é o de uma carcaça.