A mishná volta-se agora para o caso da fêmea que dá à luz pela primeira vez — cuja cria macho nasce automaticamente consagrada com a condição de primogênito (bechor) — e trata do que fazer quando o parto é difícil e ameaça a vida da mãe.
A que pare pela primeira vez e tem dificuldade para parir — corta-se membro por membro e lança-se aos cães. Se saiu a maior parte dele, este deve ser sepultado, e ela fica isenta da condição de primogênito.
Um filhote macho, ao nascer, adquire de imediato a santidade de primogênito, sendo proibido tirar dele qualquer proveito; e, se morre, não pode ser descartado, mas deve ser sepultado. Por isso, quando o parto da fêmea primípara se complica, e é preciso desfazer o feto para salvar a mãe, a mishná permite cortá-lo membro por membro e lançar as partes aos cães — pois, enquanto a maioria dele ainda não saiu, ele não adquiriu a condição de nascido, e portanto não tem santidade alguma. Mas, se a maior parte já havia emergido de uma só vez antes de ser cortada, ela já é considerada nascida e, portanto, consagrada: se for então cortada, deve ser sepultada como qualquer primogênito morto — e a mãe, tendo já dado à luz esse primogênito, fica isenta da santidade de bechor para a cria seguinte.
Rambam explica que a lei de um primogênito que morre é que deve ser sepultado, sendo proibido alimentar cães com ele, já que possuía santidade; e adianta, remetendo ao tratado Bechorot, que mesmo se for cortado membro por membro, uma vez que a maior parte já tenha saído, também não é permitido lançá-lo aos cães, devendo ser sepultado. Por isso a mishná especifica “corta membro por membro e lança aos cães” apenas enquanto a maioria ainda não saiu. E explica que makshá se refere ao momento do parto, chamado assim porque é difícil (kashê) e suas dores são intensas.
Bartenura especifica que “a que pare pela primeira vez” refere-se ao parto do primeiro filho que abre o ventre (péter réchem), e que é permitido cortar membro por membro à medida que cada um vai saindo. Explica que se lança aos cães precisamente porque, enquanto a maioria do feto não saiu, ele ainda não adquiriu santidade. Se a maior parte saiu de uma só vez e então foi cortada, deve ser sepultada, pois a saída da maioria já faz recair sobre ela a santidade, aplicando-se o versículo sobre “o que for nascido”. E a mãe fica isenta da condição de primogênito para a próxima cria, pois esta já não é a que abriu o ventre — seja no caso em que o primeiro saiu membro por membro, seja no caso em que saiu a maioria de uma vez.
Rashi, cuja explicação Bartenura reproduz quase literalmente, confirma cada um desses pontos: o corte membro por membro é permitido enquanto a maioria não saiu; a saída da maioria de uma vez já basta para consagrar o feto, com base no versículo sobre o que nasce; e a mãe fica isenta da bechorá para a cria seguinte em ambos os casos, porque esta já não é, ela mesma, a que abriu o ventre.