A mishná passa do tema da permissão de consumo para o tema da impureza ritual (tumá), comparando o caso do feto animal morto dentro do ventre com o caso paralelo, e mais grave, do feto humano.
Um animal cujo feto morreu dentro de suas entranhas, e o pastor estendeu a mão e o tocou — seja em animal impuro, seja em animal puro, ele está puro. Rabi Yosei HaGelili diz: no impuro, impuro; e no puro, puro. A mulher cujo filho morreu dentro de suas entranhas, e a parteira estendeu a mão e o tocou — a parteira está impura com impureza de sete dias, e a mulher está pura até que a criança saia.
Uma carcaça de animal transmite impureza a quem a toca (Vayikrá 11). Mas, enquanto o feto morto permanece dentro do ventre — uma cavidade interna e oculta do corpo (bet hasetarim) — a mishná considera que seu toque não transmite impureza para fora: o pastor que introduz a mão nas entranhas do animal e toca o feto morto permanece puro, tanto se o animal for puro quanto impuro, pois o feto acompanha o estatuto de impureza da mãe em ambos os casos, por dedução comparativa. Rabi Yosei HaGelili discorda apenas quanto ao animal impuro, derivando de outro versículo que, nesse caso específico, o toque transmite impureza. Já quanto ao ser humano, a mishná é mais severa: por decreto rabínico, a parteira que toca o feto morto torna-se impura pelos sete dias da impureza de cadáver — por receio de que, justamente naquele momento, a cabeça da criança tenha se estendido para fora do canal, o que já a tornaria “nascida” e capaz de transmitir impureza plena, levando a parteira a se equivocar, pensando que ainda estava dentro do ventre. A própria mulher, no entanto, permanece pura até que a criança de fato saia, pois ela mesma sente quando isso ocorre, não havendo risco de engano.
Rambam explica o raciocínio central: se o ventre da mãe já foi suficiente para permitir o consumo do feto por meio do abate quando vivo, com mais razão basta para livrá-lo da impureza de carcaça enquanto morto — o que vale, a princípio, apenas para o animal puro. A partir daí, por meio de uma comparação baseada no versículo “e se morrer algum dos animais que vos são permitidos para comer”, a Torá inclui também o animal impuro sob a mesma regra: assim como o feto do puro é puro, também o do impuro é puro. Já Rabi Yosei deriva sua posição de outro versículo, que menciona explicitamente “carcaça de animal impuro” — e, como todos concordam que a carcaça de qualquer animal transmite impureza, esse versículo, segundo ele, só pode estar se referindo ao feto de um animal impuro morto dentro do ventre. Rambam conclui que a halachá não segue Rabi Yosei.
Bartenura detalha o raciocínio a fortiori: se o ventre da mãe já bastou para permitir seu consumo pelo abate mesmo estando morto, deveria bastar, enquanto ela ainda está viva, para livrá-lo também da impureza. Quanto ao animal impuro, deriva-o do cruzamento dos dois versículos citados, igualando o impuro ao puro. Já Rabi Yosei HaGelili deriva sua posição do versículo sobre quem toca “coisa impura, ou carcaça de animal impuro” — halachá que, porém, não é seguida na prática. Sobre a parteira, Bartenura explica que sua impureza é decreto rabínico, por receio de que o feto estenda a cabeça para fora do canal — o que já o tornaria como um nascido, transmitindo impureza —, enquanto a parteira, pensando que ele ainda está dentro, viria a se considerar pura por engano. Já no caso do pastor que introduz a mão no ventre do animal, não há esse receio, porque o útero do animal é exposto e visível, de modo que, ao sair, o pastor o veria. Quanto à mulher, ela mesma sente quando a cabeça sai do canal, e por isso não corre o risco de se equivocar.
Rashi esclarece que “estendeu a mão” se refere ao pastor introduzindo a mão dentro das entranhas do animal, e observa que a razão de ambas as opiniões — a do primeiro taná e a de Rabi Yosei HaGelili — é desenvolvida na Guemará.