Esta mishná é incomum: em vez de apenas enunciar a halachá, ela reproduz o próprio debate dialético entre Rabi Meir e os Sábios, com perguntas, respostas e refutações sucessivas — quase como um trecho de Guemará dentro da própria Mishná.
Um animal que tem dificuldade para parir, e o feto estendeu sua pata e alguém a cortou, e depois disso abateu a sua mãe — a carne está pura. Se abateu a sua mãe e depois disso a cortou — a carne tem contato com carcaça, palavras de Rabi Meir. E os Sábios dizem: contato com tereifá abatida.
— O que encontramos na tereifá, que seu abate a purifica: também o abate do animal deveria purificar o membro? Disse-lhes Rabi Meir: Não; se o abate da tereifá a purificou, foi porque se trata de algo que é o seu próprio corpo — purificaria o abate o membro, que não é o seu corpo? De onde se sabe que o abate purifica a tereifá? Um animal impuro é proibido no comer, e também a tereifá é proibida no comer; assim como no animal impuro seu abate não a purifica, também na tereifá seu abate não deveria purificá-la. — Não; se disseste isso quanto ao animal impuro, que não teve o seu momento de aptidão, dirias o mesmo quanto à tereifá, que teve o seu momento de aptidão? Toma de volta o que trouxeste: eis que, se nasceu tereifá desde o ventre, de onde viria a sua purificação? — Não; se disseste isso quanto ao animal impuro, que em sua espécie não há abate, dirias o mesmo quanto à tereifá, em cuja espécie há abate? O nascido de oito meses vivo — seu abate não o purifica, porque em sua espécie não há abate.
A mishná retoma o tema de 4:1 — o membro que saiu do ventre antes do abate permanece proibido como “carne no campo” — mas agora discute seu status quanto à impureza, não quanto ao consumo. Se o membro foi cortado antes do abate da mãe, a carne restante está pura, pois nada de proibido tocou nela depois de abatida. Mas, se a mãe foi abatida primeiro e o membro cortado depois, Rabi Meir considera essa carne impura como contato com uma carcaça — porque, para ele, o abate da mãe não fez nada por aquele membro fora de sua fronteira. Os Sábios, porém, entendem que o abate ao menos retira do membro a impureza mais grave de carcaça, deixando-o equiparado a uma tereifá abatida — que a Torá não considera fonte de impureza, embora os Sábios a tenham decretado impura para fins de alimentos consagrados. A longa sequência de perguntas e refutações busca justamente estabelecer de onde vem essa regra de que o abate purifica a tereifá, chegando à conclusão de que ela se aplica porque a tereifá pertence a uma espécie apta ao abate — o que não vale para o membro que saiu do ventre, nem para o nascido de oito meses vivo.
Rambam esclarece que o contato com uma tereifá abatida transmite impureza à carne de sacrifícios consagrados, embora não transmita impureza a alimentos comuns — regra que vale para qualquer tereifá abatida. Explica também que, quando a mishná apresenta Rabi Meir perguntando “de onde se sabe que o abate purifica a tereifá”, ele não está de fato discordando dessa premissa, mas apenas a questiona para ouvir a resposta dos Sábios: seu argumento real é que a tereifá teve, em algum momento, um período de aptidão para consumo, enquanto o membro que saiu do ventre jamais o teve — sendo, para Rabi Meir, como uma tereifá nascida assim desde o ventre, com status de carcaça, sem benefício algum do abate da mãe. Rambam conclui que a halachá não segue Rabi Meir, e observa que um nascido de oito meses vivo que se tornou tereifá e foi abatido — seu abate não o purifica da condição de carcaça.
Bartenura acompanha passo a passo o debate: explica que “a carne está pura” significa que a carne do próprio feto está pura, pois um animal não recebe impureza enquanto vivo; e que “contato com carcaça”, para Rabi Meir, equipara a carne do feto ao contato com um membro separado de um ser vivo, que transmite impureza como carcaça. Já “contato com tereifá abatida”, para os Sábios, significa que, embora o abate não torne o membro permitido para consumo, ele o purifica da condição de carcaça — equivalendo-o a uma tereifá abatida, impura pela Torá apenas para alimentos consagrados, e mesmo assim só por decreto rabínico. Bartenura confirma a leitura correta do texto (“também o abate do animal deveria purificar o membro”, não “o feto”), e acompanha cada etapa da réplica de Rabi Meir e da tentativa dos Sábios de fundamentar sua posição a partir da comparação com o animal impuro — mostrando como cada tentativa de comparação é refutada, até a conclusão final, que distingue a tereifá, cuja espécie é sujeita ao abate, do nascido de oito meses vivo, cuja categoria não pertence a essa espécie apta.
Rashi esclarece cada elo do debate: confirma que a tereifá abatida, mesmo sem tornar sua carne permitida, purifica-a da condição de carcaça pela Torá, sendo impura para fins de sacrifícios apenas por decreto rabínico. Confirma a leitura correta do texto da mishná. Explica a réplica de Rabi Meir: o abate purificou a tereifá porque atuou sobre algo que era o próprio corpo do animal — o que não se aplica ao membro do feto, que não é o corpo da mãe. Sobre a fonte da purificação da tereifá pelo abate, remete a um ensinamento de Torat Cohanim, que compara o animal impuro à tereifá para depois refutar essa comparação. Explica “toma de volta o que trouxeste” como “retira essa prova que apresentaste”, pois ela não resiste à objeção seguinte; e esclarece que a distinção final — entre o animal impuro, cuja espécie nunca é apta ao abate, e a tereifá, cuja espécie é apta, mesmo que este espécime não seja — é o que permite manter a purificação da tereifá pelo abate, sem estendê-la ao nascido de oito meses vivo.