A mishná trata agora do feto a termo, encontrado já formado no momento do abate — distinguindo entre o nascido de oito meses, cuja gestação ainda não é considerada plenamente viável, e o de nove meses, gestação completa.
Quem abate o animal e encontra nele um nascido de oito meses, vivo ou morto, ou um nascido de nove meses morto, rasga-o e retira o seu sangue.
Se encontrou um nascido de nove meses vivo, este requer abate próprio, e há culpa em abater a ele e a sua cria no mesmo dia, palavras de Rabi Meir. E os Sábios dizem: o abate de sua mãe o purifica. Rabi Shimon Shezuri diz: mesmo que já tenha oito anos e esteja arando no campo, o abate de sua mãe o purifica. Se rasgou o animal, sem abate, e encontrou nele um nascido de nove meses vivo, este requer abate próprio, porque sua mãe não foi abatida.
O nascido de oito meses é tradicionalmente considerado não viável, e por isso, encontrado vivo ou morto, é tratado como parte do corpo da mãe: seu sangue continua proibido, como o sangue dela, e por isso é preciso rasgá-lo e retirar o sangue antes de comê-lo — mas não precisa de abate próprio. O mesmo vale para o nascido de nove meses morto. A controvérsia surge apenas quanto ao nascido de nove meses vivo: para Rabi Meir, a gestação completa já basta para torná-lo um animal independente, exigindo abate próprio — com a consequência séria de que abatê-lo junto com a mãe no mesmo dia viola a proibição de “a ele e a sua cria”. Os Sábios discordam: mesmo tendo completado nove meses e nascido vivo, ele continua vinculado à condição da mãe, e o abate dela basta para purificá-lo — posição que Rabi Shimon Shezuri leva ao extremo, sustentando que isso vale mesmo anos depois, já crescido e em pleno trabalho no campo. A mishná fecha com um caso em que todos concordam: se a mãe morreu sem abate ritual (foi apenas rasgada), o feto vivo encontrado dentro dela sempre precisa de abate próprio, pois não há abate algum de que se beneficiar.
Rambam esclarece que, mesmo segundo os Sábios — que permitem o nascido de nove meses vivo sem abate próprio —, seu sebo e seu sangue continuam proibidos. Acrescenta um detalhe prático relevante: esse nascido não precisa de exame de tereifá, pois, para efeitos halácicos, é considerado como já abatido, mesmo estando vivo. A halachá segue os Sábios, com a condição de que ele ainda não tenha caminhado sobre o chão; já a opinião de Rabi Shimon Shezuri, que permite mesmo depois de já ter pisado no chão, não é seguida na prática.
Bartenura explica que apenas o sebo do feto a termo é permitido — derivado de uma leitura do versículo sobre o sebo e os dois rins mencionados no sacrifício de culpa —, mas seu sangue permanece proibido, equiparado ao sangue dos membros, que a tradição de Keritot trata como transgressão bíblica. Explica a posição de Rabi Meir: os nove meses completos de gestação já bastam para tornar esse nascido um animal independente, não incluído na permissão genérica dada ao “animal” comum, exigindo, se vivo, abate próprio. Já para os Sábios, nem os nove meses nem o próprio nascimento bastam para separá-lo da condição da mãe, e por isso seu abate continua a purificá-lo. Bartenura observa que, segundo os Sábios, uma vez que o filhote já caminhou sobre o chão, ele passa a precisar de abate próprio por decreto rabínico — por receio de confusão com o consumo de um animal comum sem abate —, enquanto Rabi Shimon Shezuri permite mesmo depois disso; a halachá segue os Sábios. Por fim, esclarece que “rasgou-a” se refere ao animal morto sem abate ritual.
Rashi explica que “rasga-o” significa que não é necessário abate, pois mesmo Rabi Meir concorda que esse nascido está incluído na permissão geral de “do animal comereis” — já que, para ele, nem os nove meses completos nem o fato de ter saído ao ar do mundo bastam, nesse caso de morte, para retirá-lo dessa inclusão. Sobre “retira o seu sangue”, confirma que apenas o sebo é permitido, e que o sangue equivale ao sangue dos membros, cuja proibição a Guemará de Keritot trata como transgressão bíblica. Sobre a opinião de Rabi Shimon Shezuri, observa que a Guemará já questiona se ela coincide, na prática, com a do primeiro taná anônimo. E confirma que “rasgou-a” refere-se ao animal morto sem abate.