Seder Kodashim · Massechet Chulin · Perek Hei · Mishná 5 de 5

O dia segue a noite: a derivação de Ben Zoma

יוֹם אֶחָד הָאָמוּר בְּאוֹתוֹ וְאֶת בְּנוֹ, הַיּוֹם הוֹלֵךְ אַחַר הַלָּיְלָה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A última mishná do Perek Hei fecha o tema de oto ve-et beno com uma questão de calendário: como se conta o "um dia" da proibição — e resolve a questão por meio de uma derivação exegética que compara essa passagem com o relato da Criação.

A contagem do dia e a guezerá shavá de Ben Zoma

"Um dia", dito a respeito de ele e sua cria — o dia segue a noite. Isto expôs Shimon ben Zoma: está dito, sobre a obra da Criação, "um dia"; e está dito, sobre ele e sua cria, "um dia". Assim como "um dia", dito sobre a obra da Criação, o dia segue a noite, também "um dia", dito sobre ele e sua cria, o dia segue a noite.

A proibição bíblica fala em não abater a mãe e sua cria “em um dia”, mas essa expressão poderia, em princípio, ser entendida de duas formas: que o período de vinte e quatro horas começa ao amanhecer e termina ao anoitecer seguinte, ou que ele começa ao anoitecer e se estende até o fim do dia seguinte. A mishná resolve a ambiguidade a favor da primeira leitura: quem abate a mãe de dia pode abater a cria já naquela mesma noite, pois a noite pertence ao dia anterior, e não ao dia seguinte; mas quem abate a mãe à noite não pode abater a cria durante todo o dia seguinte, pois esse dia é considerado a continuação daquela mesma noite. Shimon ben Zoma deriva essa regra por meio de uma guezerá shavá — uma analogia verbal entre duas passagens que compartilham a mesma expressão exata: assim como a expressão “um dia”, usada no relato da Criação (“e foi tarde, e foi manhã, um dia”), estabelece que a noite precede e se une ao dia que a segue, formando juntos uma única unidade de vinte e quatro horas, a mesma expressão “um dia”, usada a respeito de oto ve-et beno, deve ser entendida da mesma maneira.

יוֹם אֶחָד הָאָמוּר בְּאוֹתוֹ וְאֶת בְּנוֹ, הַיּוֹם הוֹלֵךְ אַחַר הַלָּיְלָה. אֶת זוֹ דָּרַשׁ שִׁמְעוֹן בֶּן זוֹמָא. נֶאֱמַר בְּמַעֲשֵׂה בְרֵאשִׁית, יוֹם אֶחָד, וְנֶאֱמַר בְּאוֹתוֹ וְאֶת בְּנוֹ, יוֹם אֶחָד. מַה יּוֹם אֶחָד הָאָמוּר בְּמַעֲשֵׂה בְרֵאשִׁית הַיּוֹם הוֹלֵךְ אַחַר הַלַּיְלָה, אַף יוֹם אֶחָד הָאָמוּר בְּאוֹתוֹ וְאֶת בְּנוֹ, הַיוֹם הוֹלֵךְ אַחַר הַלָּיְלָה:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת מִן הַתּוֹרָה

Gênesis 1:5
וַיִּקְרָ֨א אֱלֹהִ֤ים לָאוֹר֙ י֔וֹם וְלַחֹ֖שֶׁךְ קָ֣רָא לָ֑יְלָה וַֽיְהִי־עֶ֥רֶב וַֽיְהִי־בֹ֖קֶר י֥וֹם אֶחָֽד׃
“E Deus chamou à luz Dia, e às trevas chamou Noite; e foi tarde, e foi manhã, um dia.”
Vayikrá 22:28
וְשׁ֖וֹר אוֹ־שֶׂ֑ה אֹת֣וֹ וְאֶת־בְּנ֔וֹ לֹ֥א תִשְׁחֲט֖וּ בְּי֥וֹם אֶחָֽד׃
“E boi ou cordeiro, ele e sua cria, não abatereis em um só dia.”
A mishná constrói sua derivação sobre a coincidência exata da expressão יוֹם אֶחָד (“um dia”) nesses dois versículos — o único outro lugar na Torá em que essa expressão precisa aparece, fora do relato da Criação, é justamente na lei de oto ve-et beno. É essa coincidência verbal, e não uma semelhança de conteúdo entre os dois assuntos, que autoriza a guezerá shavá de Shimon ben Zoma: o relato da Criação define explicitamente que a noite (“e foi tarde”) precede a manhã (“e foi manhã”) dentro da mesma unidade chamada “um dia”, e essa mesma estrutura é então importada para a leitura do “um dia” da proibição de abater a mãe e a cria.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Chulin 5:5
יום אחד האמור באותו ואת בנו היום הולך כו': כל זה מבואר וראוי שתדע שאין חוששין באותו ואת בנו אלא באם בלבד אמרו אותו ואת בנו מי שבנו כרוך אחריו יצא זכר שאין בנו כרוך אחריו ואין דין זה חל אלא על שלשת המינים הללו בלבד רוצה לומר הבקר והצאן והעזים:

Rambam observa que o conteúdo desta mishná é claro por si mesmo, e aproveita para lembrar dois princípios gerais que valem para todo o capítulo: a proibição de oto ve-et beno só se aplica em relação à mãe, nunca ao pai — pois a expressão “ele e sua cria” designa aquele cuja cria lhe é atrelada, o que exclui o macho — e essa lei vale apenas para as três espécies mencionadas na Torá: bovinos, ovinos e caprinos.

Bartenura · Chulin 5:5
יוֹם אֶחָד הָאָמוּר בְּאוֹתוֹ וְאֶת בְּנוֹ כוּ'. לְפִי שֶׁפָּרָשַׁת אוֹתוֹ וְאֶת בְּנוֹ סְמוּכָה לְקָדָשִׁים, דִּכְתִיב יֵרָצֶה לְקָרְבַּן אִשֶּׁה, וְסָמִיךְ לֵיהּ אוֹתוֹ וְאֶת בְּנוֹ. וּבְקָדָשִׁים לַיְלָה הוֹלֵךְ אַחַר הַיּוֹם, דִּכְתִיב (ויקרא ז) בְּיוֹם קָרְבָּנוֹ יֵאָכֵל לֹא יַנִּיחַ מִמֶּנּוּ עַד בֹּקֶר, אַלְמָא לַיְלָה שֶׁלְּאַחֲרָיו קָרוּי יוֹם קָרְבָּנוֹ עַד הַבֹּקֶר. יָכוֹל אַף זֶה כֵּן, נֶאֱמַר כָּאן יוֹם אֶחָד וְנֶאֱמַר בְּמַעֲשֵׂה בְרֵאשִׁית יוֹם אֶחָד וְכוּ':

Bartenura explica por que a mishná sentiu necessidade de esclarecer este ponto: como a passagem de oto ve-et beno está situada logo após as leis de sacrifícios — está escrito “será aceito como oferenda de fogo”, e imediatamente depois, “ele e sua cria” —, poder-se-ia pensar que a contagem do dia aqui segue a mesma regra usada para os sacrifícios, onde a noite segue o dia (pois está escrito que a carne da oferenda “no dia do sacrifício será comida, não se deixará dela até a manhã”, mostrando que a noite seguinte ainda é chamada de “dia do sacrifício” até o amanhecer). Para afastar esse raciocínio equivocado, a mishná ensina que, ao contrário, aqui vale a mesma regra do relato da Criação, onde o dia segue a noite anterior, e não o inverso.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רש״י
Chulin 83a, sobre a Guemará desta mishná
מתני' היום הולך אחר הלילה - שחט האם משחשכה לא ישחוט הבת כל הלילה וכל היום המחרת אבל שחט האם ביום שוחט הבת בלילה דאין הלילה הולך אחר יום: את זו דרש - משום דבעניינא דקדשים כתיב אותו ואת בנו איצטריך למדרשה כדתניא בגמרא: מעשה בראשית - ויהי ערב ויהי בקר ברישא ערב והדר בקר:

Rashi explica a regra em termos práticos: se alguém abateu a mãe a partir do anoitecer, não poderá abater a filha durante toda aquela noite nem durante todo o dia seguinte; mas se abateu a mãe de dia, pode abater a filha já naquela noite, pois a noite não segue o dia que a precedeu, e sim se une ao dia seguinte. Explica que essa derivação foi necessária precisamente porque a passagem de oto ve-et beno está situada no contexto das leis de sacrifícios, o que poderia sugerir, equivocadamente, a regra oposta — como se ensina na Guemará. E, sobre “a obra da Criação”, remete ao versículo “e foi tarde, e foi manhã”, notando que a Torá menciona primeiro a tarde (o início da noite) e só depois a manhã, confirmando que a noite precede e se une ao dia que a segue.