A última mishná do Perek Hei fecha o tema de oto ve-et beno com uma questão de calendário: como se conta o "um dia" da proibição — e resolve a questão por meio de uma derivação exegética que compara essa passagem com o relato da Criação.
"Um dia", dito a respeito de ele e sua cria — o dia segue a noite. Isto expôs Shimon ben Zoma: está dito, sobre a obra da Criação, "um dia"; e está dito, sobre ele e sua cria, "um dia". Assim como "um dia", dito sobre a obra da Criação, o dia segue a noite, também "um dia", dito sobre ele e sua cria, o dia segue a noite.
A proibição bíblica fala em não abater a mãe e sua cria “em um dia”, mas essa expressão poderia, em princípio, ser entendida de duas formas: que o período de vinte e quatro horas começa ao amanhecer e termina ao anoitecer seguinte, ou que ele começa ao anoitecer e se estende até o fim do dia seguinte. A mishná resolve a ambiguidade a favor da primeira leitura: quem abate a mãe de dia pode abater a cria já naquela mesma noite, pois a noite pertence ao dia anterior, e não ao dia seguinte; mas quem abate a mãe à noite não pode abater a cria durante todo o dia seguinte, pois esse dia é considerado a continuação daquela mesma noite. Shimon ben Zoma deriva essa regra por meio de uma guezerá shavá — uma analogia verbal entre duas passagens que compartilham a mesma expressão exata: assim como a expressão “um dia”, usada no relato da Criação (“e foi tarde, e foi manhã, um dia”), estabelece que a noite precede e se une ao dia que a segue, formando juntos uma única unidade de vinte e quatro horas, a mesma expressão “um dia”, usada a respeito de oto ve-et beno, deve ser entendida da mesma maneira.
Rambam observa que o conteúdo desta mishná é claro por si mesmo, e aproveita para lembrar dois princípios gerais que valem para todo o capítulo: a proibição de oto ve-et beno só se aplica em relação à mãe, nunca ao pai — pois a expressão “ele e sua cria” designa aquele cuja cria lhe é atrelada, o que exclui o macho — e essa lei vale apenas para as três espécies mencionadas na Torá: bovinos, ovinos e caprinos.
Bartenura explica por que a mishná sentiu necessidade de esclarecer este ponto: como a passagem de oto ve-et beno está situada logo após as leis de sacrifícios — está escrito “será aceito como oferenda de fogo”, e imediatamente depois, “ele e sua cria” —, poder-se-ia pensar que a contagem do dia aqui segue a mesma regra usada para os sacrifícios, onde a noite segue o dia (pois está escrito que a carne da oferenda “no dia do sacrifício será comida, não se deixará dela até a manhã”, mostrando que a noite seguinte ainda é chamada de “dia do sacrifício” até o amanhecer). Para afastar esse raciocínio equivocado, a mishná ensina que, ao contrário, aqui vale a mesma regra do relato da Criação, onde o dia segue a noite anterior, e não o inverso.
Rashi explica a regra em termos práticos: se alguém abateu a mãe a partir do anoitecer, não poderá abater a filha durante toda aquela noite nem durante todo o dia seguinte; mas se abateu a mãe de dia, pode abater a filha já naquela noite, pois a noite não segue o dia que a precedeu, e sim se une ao dia seguinte. Explica que essa derivação foi necessária precisamente porque a passagem de oto ve-et beno está situada no contexto das leis de sacrifícios, o que poderia sugerir, equivocadamente, a regra oposta — como se ensina na Guemará. E, sobre “a obra da Criação”, remete ao versículo “e foi tarde, e foi manhã”, notando que a Torá menciona primeiro a tarde (o início da noite) e só depois a manhã, confirmando que a noite precede e se une ao dia que a segue.