Com o que se cobre, e com o que não se cobre? Cobre-se com esterco fino, e com areia fina, com cal, e com barro de cerâmica moldo, e com tijolo e com tampa [de cerâmica] que se esmigalhou. Mas não se cobre com esterco grosso, nem com areia grossa, nem com tijolo e tampa que não se esmigalhou, e não se vira sobre ele o recipiente.
— A mishná distingue substâncias “terrosas”, aptas para cumprir a mitzvá de cobertura, daquelas que não o são — e o critério decisivo, em quase todos os pares, é a granulometria: esterco, areia, tijolo ou a tampa de cerâmica de um barril só servem quando reduzidos a pó fino, capazes de se espalhar sobre o sangue e absorvê-lo como se fossem terra; em sua forma grosseira ou intacta, não cumprem a função exigida pela Torá, que fala especificamente em “cobrir com terra”. E, por essa mesma razão, tampouco basta simplesmente virar um recipiente inteiro sobre o sangue — isso oculta o sangue da vista, mas não o cobre com uma substância terrosa, como a mitzvá exige.
Um princípio disse Rabban Shimão ben Gamliél: coisa em que crescem plantas, cobre-se com ela; e a que não faz crescer plantas, não se cobre com ela.
— Depois de listar os casos concretos, a mishná fecha o capítulo — e todo o tratamento haláchico do kissui hadam — com o princípio geral de Rabban Shimão ben Gamliél, que tenta capturar, numa única regra, o que faz uma substância contar como “terra” para efeito da mitzvá: se é do tipo de material em que, naturalmente, plantas podem brotar e crescer — como solo, areia ou esterco —, ela cumpre a função da cobertura; se não é, como metais ou materiais totalmente estéreis, ela não cumpre, por mais que se assemelhe visualmente à terra. Este princípio, embora amplo, não é absoluto: os próprios mefarshim notam exceções, como a cinza, que a Torá chama explicitamente de “pó” mesmo sem fazer crescer plantas.
Rambam antecipa uma dificuldade no princípio de Rabban Shimão ben Gamliél: como a cal, o barro de cerâmica, a tampa de barril e o tijolo — que a mishná permite para cobertura — não fazem crescer plantas em seu estado atual? Explica que a intenção do princípio é sobre a substância original, antes de sofrer o trabalho que mudou seu nome e sua forma: se, em sua origem, era um material capaz de fazer crescer plantas (barro, pedra natural), ele continua válido para a cobertura mesmo depois de processado. E adverte que não se deve aprender princípios gerais de forma rígida demais — a serragem fina de madeira e a estopa de linho, por exemplo, são permitidas para cobertura mesmo nunca fazendo crescer plantas. Acrescenta que tudo que a Torá chama de “pó” (afar) serve para a cobertura — daí que a cinza de qualquer coisa queimada, inclusive roupas ou carne, seja válida, pois a Torá chama a cinza da vaca vermelha de “pó”. E, entre os metais, apenas a limalha de ouro serve para cobrir, por ser chamada na Escritura de “pó de ouro” — ao contrário da limalha de cobre ou chumbo, consideradas metais nobres demais para essa função.
Bartenura define “areia fina” como aquela que o oleiro não precisa mais peneirar ou moer, e “charsit” como pó de cerâmica moda, e “megufá” como a tampa de barro que fecha a boca de um barril. Sobre o princípio final, esclarece a mesma dificuldade que Rambam: cal, barro, tijolo e tampa esmigalhada, mencionados como válidos, não fazem crescer plantas em seu estado atual — mas, como originalmente, antes do trabalho de fabricação, eram materiais que faziam crescer plantas, permanecem válidos. E adverte explicitamente que o princípio de Rabban Shimão ben Gamliél não é exato em todos os casos: uma beraita ensina que serragem fina de marceneiro e estopa de linho também servem para cobertura, mesmo nunca fazendo crescer plantas; e a cinza serve porque a Torá a chama de “pó” a respeito da vaca vermelha, e do mesmo modo serve a limalha de ouro, chamada pelo livro de Job de “pó de ouro”.
Rashi define, de forma breve, os dois termos técnicos da lista: “charsit” é pó de cacos de cerâmica moda, e “megufá” é a tampa de argila que fecha a boca de um barril.