Quem come do nervo ciático o tamanho de um azeitona leva quarenta chibatadas. Se o comeu e não havia nele o tamanho de um azeitona, é culpado. Se comeu desta coxa o tamanho de um azeitona e daquela coxa o tamanho de um azeitona, leva oitenta chibatadas. Rabi Yehudá diz: leva apenas quarenta.
— A mishná fixa a medida legal de punição para quem transgride comendo o nervo ciático: o padrão usual da Torá para proibições alimentares, o tamanho de um azeitona, gera as quarenta chibatadas. Mas a segunda cláusula estabelece uma exceção notável a essa regra: mesmo que o nervo inteiro comido não alcance o tamanho de um azeitona, ainda assim há culpa — porque o nervo ciático é considerado uma briá, uma entidade completa em si mesma, e a Torá pune por comer uma entidade inteira independentemente de seu volume, do mesmo modo que se pune por comer uma formiga inteira por menor que seja. A terceira cláusula trata de quem come o azeitona da coxa direita e o azeitona da coxa esquerda na mesma refeição: para o taná anônimo, são duas transgressões distintas, com oitenta chibatadas ao todo, pois a proibição vige igualmente nos dois lados, como já ensinado na primeira mishná do capítulo. Rabi Yehudá, porém, sustenta que a proibição bíblica vige apenas na coxa direita — a “coxa” por excelência —, de modo que só a transgressão do lado direito gera chibatadas, e a do lado esquerdo fica isenta.
Rambam precisa que, na verdade, a Torá probe apenas a parte do nervo que fica sobre a “colher” da coxa; o restante do nervo, que se estende pela coxa afora, é proibido apenas por decreto dos sábios. Por isso, quem come o tamanho de um azeitona da parte do nervo que fica sobre a colher leva chibatadas por decreto rabbínico, e não diretamente pela Torá. A lei não segue Rabi Yehudá.
Bartenura explica que a culpa mesmo sem a medida do azeitona decorre do status do nervo ciático como briá, uma entidade completa, do mesmo modo que se é culpado por comer uma formiga inteira por menor que seja. Sobre a terceira cláusula, esclarece que se trata de comer o tamanho de um azeitona da coxa direita e o tamanho de um azeitona da coxa esquerda. E explica que Rabi Yehudá sustenta que a proibição vige apenas no lado direito, derivando isso da expressão bíblica “a coxa” — entendida como a coxa mais destacada, isto é, a direita. A lei não segue Rabi Yehudá.
Rashi explica que a culpa mesmo sem a medida do azeitona decorre do nervo ser uma briá, e cita o paralelo de Massechet Makot: “não concordais comigo que quem come uma formiga inteira, por menor que seja, é culpado?”, ao que responderam que sim, “porque ela está em sua forma completa”. E sobre a posição de Rabi Yehudá, explica simplesmente que ele sustenta que a proibição vige apenas numa das coxas.