Seder Kodashim · Massechet Chulin · Perek Zayin · Mishná 3 de 6

A medida mínima e as chibatadas

הָאוֹכֵל מִגִּיד הַנָּשֶׁה כַזַּיִת, סוֹפֵג אַרְבָּעִים
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A medida do azeitona, a exceção do nervo inteiro, e comer das duas coxas

Quem come do nervo ciático o tamanho de um azeitona leva quarenta chibatadas. Se o comeu e não havia nele o tamanho de um azeitona, é culpado. Se comeu desta coxa o tamanho de um azeitona e daquela coxa o tamanho de um azeitona, leva oitenta chibatadas. Rabi Yehudá diz: leva apenas quarenta.

— A mishná fixa a medida legal de punição para quem transgride comendo o nervo ciático: o padrão usual da Torá para proibições alimentares, o tamanho de um azeitona, gera as quarenta chibatadas. Mas a segunda cláusula estabelece uma exceção notável a essa regra: mesmo que o nervo inteiro comido não alcance o tamanho de um azeitona, ainda assim há culpa — porque o nervo ciático é considerado uma briá, uma entidade completa em si mesma, e a Torá pune por comer uma entidade inteira independentemente de seu volume, do mesmo modo que se pune por comer uma formiga inteira por menor que seja. A terceira cláusula trata de quem come o azeitona da coxa direita e o azeitona da coxa esquerda na mesma refeição: para o taná anônimo, são duas transgressões distintas, com oitenta chibatadas ao todo, pois a proibição vige igualmente nos dois lados, como já ensinado na primeira mishná do capítulo. Rabi Yehudá, porém, sustenta que a proibição bíblica vige apenas na coxa direita — a “coxa” por excelência —, de modo que só a transgressão do lado direito gera chibatadas, e a do lado esquerdo fica isenta.

הָאוֹכֵל מִגִּיד הַנָּשֶׁה כַזַּיִת, סוֹפֵג אַרְבָּעִים. אֲכָלוֹ וְאֵין בּוֹ כַזַּיִת, חַיָּב. אָכַל מִזֶּה כַזַּיִת וּמִזֶּה כַזַּיִת, סוֹפֵג שְׁמוֹנִים. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, אֵינוֹ סוֹפֵג אֶלָּא אַרְבָּעִים.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Chulin 7:3
האוכל מגיד הנשה כזית סופג ארבעים אכלו ואין כו': אין אסור מן התורה אלא מה שעל הכף בלבד ושאריתו וירכתו אסור מדרבנן לפיכך מי שאכל כזית מן הגיד שעל הכף לוקה מדרבנן ואין הלכה כרבי יהודה:

Rambam precisa que, na verdade, a Torá probe apenas a parte do nervo que fica sobre a “colher” da coxa; o restante do nervo, que se estende pela coxa afora, é proibido apenas por decreto dos sábios. Por isso, quem come o tamanho de um azeitona da parte do nervo que fica sobre a colher leva chibatadas por decreto rabbínico, e não diretamente pela Torá. A lei não segue Rabi Yehudá.

Bartenura · Chulin 7:3
אֲכָלוֹ וְאֵין בּוֹ כַזַּיִת חַיָּב. מִשּׁוּם דִּבְרִיָּה הוּא, חַיָּב בְּכָל שֶׁהוּא, כְּאוֹכֵל נְמָלָה כָּל שֶׁהוּא שֶׁחַיָּב:
מִזֶּה כַזַּיִת. מִיָּרֵךְ שֶׁל יָמִין כַּזַּיִת, וְכֵן מִיָּרֵךְ שֶׁל שְׂמֹאל:
אֵינוֹ סוֹפֵג אֶלָּא אַרְבָּעִים. דְּסָבַר רַבִּי יְהוּדָה אֵינוֹ נוֹהֵג אֶלָּא בְּשֶׁל יָמִין, דְּדָרֵישׁ הַיָּרֵךְ, הַמְיֻמֶּנֶת שֶׁבַּיָּרֵךְ. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה:

Bartenura explica que a culpa mesmo sem a medida do azeitona decorre do status do nervo ciático como briá, uma entidade completa, do mesmo modo que se é culpado por comer uma formiga inteira por menor que seja. Sobre a terceira cláusula, esclarece que se trata de comer o tamanho de um azeitona da coxa direita e o tamanho de um azeitona da coxa esquerda. E explica que Rabi Yehudá sustenta que a proibição vige apenas no lado direito, derivando isso da expressão bíblica “a coxa” — entendida como a coxa mais destacada, isto é, a direita. A lei não segue Rabi Yehudá.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רש״י
Chulin 96a:6, sobre a Guemará desta mishná
אכלו ואין בו כזית - משום דבריה הוא וחייב בכל שהוא וכדאמרינן במסכת מכות (דף יג.) אי אתם מודים לי באוכל נמלה כל שהוא שהוא חייב אמרו לו מפני שהיא כברייתה: אינו סופג אלא ארבעים - דאינו נוהג אלא באחת:

Rashi explica que a culpa mesmo sem a medida do azeitona decorre do nervo ser uma briá, e cita o paralelo de Massechet Makot: “não concordais comigo que quem come uma formiga inteira, por menor que seja, é culpado?”, ao que responderam que sim, “porque ela está em sua forma completa”. E sobre a posição de Rabi Yehudá, explica simplesmente que ele sustenta que a proibição vige apenas numa das coxas.