Um homem pode enviar a um gói uma coxa em que o nervo ciático ainda está dentro, porque seu lugar é conhecido.
— Embora comer o nervo ciático seja proibido a um judeu, esta mishná permite entregar a um gói uma coxa inteira, com o nervo ainda dentro dela, sem retirá-lo antes. A preocupação óbvia seria que o gói, mais tarde, vendesse essa mesma coxa a outro judeu, que a comeria sem saber que o nervo não havia sido removido. A mishná dissolve essa preocupação com um argumento simples: como a coxa está inteira, o lugar exato do nervo ciático é visível e reconhecível por qualquer um que a examine — de modo que, se algum dia esse judeu comprador a adquirisse do gói, veria de imediato que o nervo ainda está lá e saberia retirá-lo antes de comer.
Quem remove o nervo ciático precisa removê-lo por inteiro. Rabi Yehudá diz: basta para cumprir nele a mitzvá da remoção.
— A segunda cláusula trata do padrão exigido de quem efetivamente remove o nervo antes de vender ou consumir a carne. Segundo o taná anônimo, e como precisa a Guemará, a lei estrita segue a posição de Rabi Meir: não basta cortar o nervo em si, mas é preciso escavar toda a carne ao redor para garantir que nenhum vestígio dele permaneça. Rabi Yehudá, em contraste, sustenta uma exigência mais leve: basta raspar a parte que se projeta acima da protuberância arredondada do osso para já cumprir a mitzvá da remoção, sem necessidade de escavar mais fundo.
Rambam esclarece que a entrega da coxa ao gói ocorre na presença de um judeu — e que não há preocupação de que esse mesmo judeu, testemunha da entrega, venha a adquirir de volta essa coxa e transgrida ao comer o nervo ciático, precisamente porque a coxa está inteira, seu lugar é reconhecível, e o judeu o identifica. A lei não segue Rabi Yehudá.
Bartenura explica que não há preocupação de que um judeu, ao ver a coxa sendo enviada, venha depois a comprá-la de volta do gói e a coma com o nervo ainda dentro — pois, sendo a coxa inteira, o lugar do nervo ciático seria reconhecível caso tivesse sido escavado dela, e o comprador entenderia que ele não foi removido, e o removeria ele mesmo. Sobre “removê-lo por inteiro”, explica que se deve escavar toda a carne ao redor; e sobre a posição de Rabi Yehudá, que basta raspar a parte de cima, sem necessidade de escavar mais fundo.
Rashi explica que não há preocupação de que o gói venda depois essa mesma coxa de volta a um judeu, que a comeria com o nervo ainda dentro — pois, sendo a coxa inteira, o lugar do nervo seria reconhecível se tivesse sido escavado dela, e o comprador compreenderia que não foi removido e o removeria. Observa ainda que a Guemará pergunta, a seguir, como um judeu compraria carne de um gói, dado que a carne de abate não judaico é ela mesma proibida por outras razões.
Rashi explica que “removê-lo por inteiro” significa escavar toda a carne ao redor do nervo, e observa que a mishná anônima, nesse ponto, segue a posição de Rabi Meir, que exige essa escavação completa, como já ficou estabelecido anteriormente na Guemará.