Seder Kodashim · Massechet Chulin · Perek Zayin · Mishná 2 de 6

Enviar a coxa a um gói, e a remoção completa do nervo

שׁוֹלֵחַ אָדָם יָרֵךְ לְנָכְרִי שֶׁגִּיד הַנָּשֶׁה בְתוֹכָהּ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Enviar a coxa a um gói, porque o lugar do nervo é conhecido

Um homem pode enviar a um gói uma coxa em que o nervo ciático ainda está dentro, porque seu lugar é conhecido.

— Embora comer o nervo ciático seja proibido a um judeu, esta mishná permite entregar a um gói uma coxa inteira, com o nervo ainda dentro dela, sem retirá-lo antes. A preocupação óbvia seria que o gói, mais tarde, vendesse essa mesma coxa a outro judeu, que a comeria sem saber que o nervo não havia sido removido. A mishná dissolve essa preocupação com um argumento simples: como a coxa está inteira, o lugar exato do nervo ciático é visível e reconhecível por qualquer um que a examine — de modo que, se algum dia esse judeu comprador a adquirisse do gói, veria de imediato que o nervo ainda está lá e saberia retirá-lo antes de comer.

שׁוֹלֵחַ אָדָם יָרֵךְ לְנָכְרִי שֶׁגִּיד הַנָּשֶׁה בְתוֹכָהּ, מִפְּנֵי שֶׁמְּקוֹמוֹ נִכָּר.
A remoção completa do nervo

Quem remove o nervo ciático precisa removê-lo por inteiro. Rabi Yehudá diz: basta para cumprir nele a mitzvá da remoção.

— A segunda cláusula trata do padrão exigido de quem efetivamente remove o nervo antes de vender ou consumir a carne. Segundo o taná anônimo, e como precisa a Guemará, a lei estrita segue a posição de Rabi Meir: não basta cortar o nervo em si, mas é preciso escavar toda a carne ao redor para garantir que nenhum vestígio dele permaneça. Rabi Yehudá, em contraste, sustenta uma exigência mais leve: basta raspar a parte que se projeta acima da protuberância arredondada do osso para já cumprir a mitzvá da remoção, sem necessidade de escavar mais fundo.

הַנּוֹטֵל גִּיד הַנָּשֶׁה, צָרִיךְ שֶׁיִּטֹּל אֶת כֻּלּוֹ. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, כְּדֵי לְקַיֵּם בּוֹ מִצְוַת נְטִילָה.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Chulin 7:2
שולח אדם ירך לעובד כוכבים שגיד הנשה בתוכו כו': הנוטל גיד הנשה צריך שיטול את כולו רבי יהודה כו': זה שנתן הירך לעובד כוכבים היה בפני ישראל ולא נחוש שמא יטול מאותו הירך ישראל זה שנתן בפניו ויעבור על גיד הנשה ויאכלנו לפי שהירך שלמה ומקומו ניכר ומכירו הישראל ואין הלכה כרבי יהודה:

Rambam esclarece que a entrega da coxa ao gói ocorre na presença de um judeu — e que não há preocupação de que esse mesmo judeu, testemunha da entrega, venha a adquirir de volta essa coxa e transgrida ao comer o nervo ciático, precisamente porque a coxa está inteira, seu lugar é reconhecível, e o judeu o identifica. A lei não segue Rabi Yehudá.

Bartenura · Chulin 7:2
שׁוֹלֵחַ אָדָם יָרֵךְ לְנָכְרִי וְכוּ'. וְאֵין חוֹשְׁשִׁים שֶׁמָּא יִרְאֶנָּה יִשְׂרָאֵל כְּשֶׁשּׁוֹלְחָהּ לוֹ וְיַחֲזֹר וְיִקְנֶה אוֹתָהּ מִן הַנָּכְרִי וְיֹאכְלֶנָּה בְגִידָהּ. כֵּיוָן דִּשְׁלֵמָה הִיא, מְקוֹמוֹ שֶׁל גִּיד הַנָּשֶׁה הָיָה נִכָּר אִם נֶחְטַט הֵימֶנָּה, וְהַלּוֹקֵחַ מֵבִין שֶׁלֹּא נִטַּל וְנוֹטְלוֹ:
שֶׁיִּטֹּל אֶת כֻּלּוֹ. יְחַטֵּט אַחֲרָיו:
לְקַיֵּם בּוֹ מִצְוַת נְטִילָה. גּוֹמְמוֹ מִלְּמַעְלָה וְדַיּוֹ:

Bartenura explica que não há preocupação de que um judeu, ao ver a coxa sendo enviada, venha depois a comprá-la de volta do gói e a coma com o nervo ainda dentro — pois, sendo a coxa inteira, o lugar do nervo ciático seria reconhecível caso tivesse sido escavado dela, e o comprador entenderia que ele não foi removido, e o removeria ele mesmo. Sobre “removê-lo por inteiro”, explica que se deve escavar toda a carne ao redor; e sobre a posição de Rabi Yehudá, que basta raspar a parte de cima, sem necessidade de escavar mais fundo.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רש״י
Chulin 93b:21, sobre a primeira cláusula desta mishná
מתני' שולח אדם ירך לעובד כוכבים כו' - ואין חוששין שמא יחזור וימכרנה לישראל ויאכלנה בגידה דכיון דשלימה היא מקומו של גיד הנשה היה ניכר אם נחטט הימנה והלוקח מבין שלא ניטל ונוטלו. ובגמרא פריך היכי זבני ישראל בשר מעובד כוכבים:

Rashi explica que não há preocupação de que o gói venda depois essa mesma coxa de volta a um judeu, que a comeria com o nervo ainda dentro — pois, sendo a coxa inteira, o lugar do nervo seria reconhecível se tivesse sido escavado dela, e o comprador compreenderia que não foi removido e o removeria. Observa ainda que a Guemará pergunta, a seguir, como um judeu compraria carne de um gói, dado que a carne de abate não judaico é ela mesma proibida por outras razões.

Rashi רש״י
Chulin 96a:5, sobre a segunda cláusula desta mishná
מתני' שיטול את כולו - יחטט אחריו וסתם משנה ר"מ דאמר (לעיל חולין דף צב:) חטיטה בעי:

Rashi explica que “removê-lo por inteiro” significa escavar toda a carne ao redor do nervo, e observa que a mishná anônima, nesse ponto, segue a posição de Rabi Meir, que exige essa escavação completa, como já ficou estabelecido anteriormente na Guemará.