Seder Kodashim · Massechet Chulin · Perek Zayin · Mishná 5 de 6

O nervo, a nevelá e o peixe impuro misturados

גִּיד הַנָּשֶׁה שֶׁנִּתְבַּשֵּׁל עִם הַגִּידִים
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

O nervo cozido com outros nervos: reconhecê-lo ou não

O nervo ciático que foi cozido com outros nervos — se o reconhece, mede-se pelo sabor que se imprime; e se não, todos ficam proibidos. E o molho, mede-se pelo sabor.

— Depois de tratar do nervo cozido dentro da própria coxa, a mishná passa ao caso em que o nervo proibido foi cozido junto com outros nervos permitidos, todos misturados na mesma panela. A regra depende inteiramente de reconhecimento: se, após o cozimento, ainda é possível identificar fisicamente qual pedaço era o nervo proibido e separá-lo, então os demais nervos permanecem permitidos, a menos que o volume do nervo proibido fosse suficiente para imprimir seu sabor neles. Mas se, uma vez misturados, não há mais como distinguir qual era o nervo proibido, todos os pedaços ficam proibidos — porque, sobre cada um deles, paira a dúvida de que possa ser justamente aquele. Quanto ao molho da cozedura, aplica-se sempre o critério do sabor: ele fica proibido apenas se o nervo lhe imprimiu sabor suficiente.

גִּיד הַנָּשֶׁה שֶׁנִּתְבַּשֵּׁל עִם הַגִּידִים, בִּזְמַן שֶׁמַּכִּירוֹ, בְּנוֹתֵן טַעַם, וְאִם לָאו, כֻּלָּן אֲסוּרִין. וְהָרֹטֶב, בְּנוֹתֵן טָעַם.
O mesmo princípio para pedaços de nevelá e de peixe impuro

E do mesmo modo, um pedaço de nevelá, e do mesmo modo um pedaço de peixe impuro, que foram cozidos com os pedaços — se os reconhece, mede-se pelo sabor que se imprime. E se não, todos ficam proibidos. E o molho, mede-se pelo sabor.

— A mishná estende o mesmo princípio de reconhecimento a duas outras categorias de mistura: um pedaço de nevelá (animal morto sem abate válido) cozido junto com pedaços de carne permitida, e um pedaço de peixe impuro cozido junto com pedaços de peixe permitido. A lógica é idêntica à do nervo: se o pedaço proibido ainda pode ser identificado e separado, os demais permanecem permitidos, salvo se seu volume bastasse para imprimir sabor; se não pode mais ser distinguido dos demais, todos os pedaços ficam proibidos, pela mesma dúvida que recai sobre cada um individualmente; e o molho, como sempre, segue o critério do sabor transmitido.

וְכֵן חֲתִיכָה שֶׁל נְבֵלָה, וְכֵן חֲתִיכָה שֶׁל דָּג טָמֵא, שֶׁנִּתְבַּשְּׁלוּ עִם הַחֲתִיכוֹת, בִּזְמַן שֶׁמַּכִּירָן, בְּנוֹתֵן טַעַם. וְאִם לָאו, כֻּלָּן אֲסוּרוֹת. וְהָרֹטֶב, בְּנוֹתֵן טָעַם.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Chulin 7:5
גיד הנשה שנתבשל עם הגידים בזמן שמכירו כו': דע שעיקר בידינו אין בגידין בנ"ט ואפי' נתבשלו גידים הרבה עם מעט מן הבשר לא נאסר אותו בשר אלא שמנונית שלו אסורה בנ"ט אם נתבשלה עם שאינה מינה רוצה לומר עם גיד הנשה אבל אם נתבשל הבשר עם שמנונית גיד הנשה משערין באחד מששים וכן הוא הדין בשמנונית נבלה ודג טמא או החלב בעצמו הכל באחד וששים לפי שהעיקר מין במינו באחד וששים ובשאינו מינו בנ"ט ואם אין שם עובד כוכבים שיטעום אותו דבר יחזור הדין באחד וששים:

Rambam adverte que a lei prática difere do teste literal desta mishná: o princípio estabelecido é que não há nos nervos a capacidade de imprimir sabor. Mesmo que muitos nervos permitidos fossem cozidos com pouca carne, essa carne não ficaria proibida; apenas a gordura do nervo proibido é que tem capacidade de imprimir sabor, quando cozida com algo de outro tipo — ou seja, com outro nervo. Mas se a carne foi cozida com a gordura do nervo ciático, mede-se por um em sessenta — e a mesma regra vale para a gordura de nevelá e de peixe impuro, ou o próprio leite proibido: tudo se mede por um em sessenta, porque o princípio é que mistura de mesmo tipo se mede por um em sessenta, e de tipo diferente pelo sabor. E se não há ali um gói para provar aquele alimento, a lei volta a se medir por um em sessenta.

Bartenura · Chulin 7:5
בִּזְמַן שֶׁמַּכִּירוֹ. מַשְׁלִיכוֹ לַחוּץ וְאֵין כָּאן אֶלָּא פְּלִיטָתוֹ:
בְּנוֹתֵן טַעַם. אִם יֵשׁ בַּגִּיד שֶׁל אִסּוּר בְּנוֹתֵן טַעַם בְּכָל אֵלּוּ, כֻּלָּן אֲסוּרִים:
וְאִם לָאו כֻּלָּן אֲסוּרִים. דִּבְכָל אֶחָד יֵשׁ לוֹמַר זֶה הוּא, וְלֹא בָּטִיל בְּרֻבָּא, דְּכִבְרִיָּה הוּא חָשׁוּב וּבְרִיָּה לֹא בְטֵלָה:
וְהָרֹטֶב מֻתָּר. אִם אֵין בֲּחַתִיכוֹת הָאִסּוּר כְּדֵי לָתֵת טַעַם בָּרֹטֶב וּבַקִּפָּה וּבַחֲתִיכוֹת. וַהֲלָכָה לְמַעֲשֶׂה בְּאִסּוּר שֶׁנִּתְעָרֵב בְּהֶתֵּר... מְשַׁעֲרִים אוֹתוֹ בְּשִׁשִּׁים, אִם יֵשׁ שִׁשִּׁים שֶׁל הֶתֵּר כְּנֶגֶד הָאִסּוּר הַכֹּל מֻתָּר, וְאִם לָאו, הַכֹּל אָסוּר:

Bartenura explica que, quando se reconhece o nervo proibido, ele simplesmente se descarta, e o que resta é apenas o sabor que ele já imprimiu na cozedura. Quando não se reconhece, todos os pedaços ficam proibidos, porque, sobre cada um, paira a dúvida “este é ele”, e o nervo, sendo uma briá importante, não se anula pela maioria — uma entidade completa não desaparece estatisticamente numa mistura, ao contrário de outras substâncias proibidas comuns. Sobre a lei prática de mistura de proibido com permitido, explica que se mede por um em sessenta: se há sessenta partes permitidas contra a proibida, tudo é permitido; caso contrário, tudo é proibido.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רש״י
Chulin 96b:7, sobre a primeira cláusula desta mishná
שנתבשל עם הגידים - של היתר: בזמן שמכירו - משליכו לחוץ ואין כאן אלא פליטתו: בנותן טעם - אם יש בנ"ט בכל אלו: כולן אסורין - ולקמן מפרש דנותן טעם במין במינו שאין אדם יכול להבחינו שיערוהו בששים: ואם לאו כולן אסורין - דבכל אחד יש לומר זה הוא ובגמרא פריך ליבטיל ברובא:

Rashi esclarece que os outros nervos são de carne permitida, e que, quando se reconhece o nervo proibido, ele simplesmente se descarta, restando apenas o que ele já transmitiu por sabor. Observa que a Guemará adiante explica que, quando o sabor é de mistura de mesmo tipo, impossível de distinguir pelo paladar, mede-se por um em sessenta; e que, quando não se reconhece o proibido, todos ficam proibidos, pois sobre cada pedaço paira a suspeita “este é ele” — embora a Guemará pergunte, a seguir, por que ele não se anularia simplesmente pela maioria dos pedaços permitidos.

Rashi רש״י
Chulin 96b:8, sobre a segunda cláusula desta mishná
בזמן שמכירן - לחתיכות האיסור משערינן בנותן טעם ואי אין בהן כדי לתת טעם בשל היתר הרי השאר מותרות ואם אין מכירן כל החתיכות אסורות דכל אחת יש לחוש ולומר שמא זו היא. והרוטב מותר אם אין בחתיכות האיסור כדי לתת טעם בכל החתיכות והקיפה והרוטב:

Rashi aplica o mesmo raciocínio à nevelá e ao peixe impuro: quando se reconhecem os pedaços proibidos, mede-se pelo sabor que imprimiriam nos permitidos; quando não se reconhecem, todos os pedaços ficam proibidos, pois cada um pode ser suspeito de ser o proibido; e o molho permanece permitido caso os pedaços proibidos não bastassem para imprimir sabor em todo o conjunto — pedaços, tempero e caldo.