Seder Kodashim · Massechet Chulin · Perek Zayin · Mishná 6 de 6

Puro e não impuro: Sinai e o relato de Yaakóv

נוֹהֵג בִּטְהוֹרָה, וְאֵינוֹ נוֹהֵג בִּטְמֵאָה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A proibição vige no puro, não no impuro; a objecção de Rabi Yehudá e a resposta dos sábios

Vige no puro, e não vige no impuro. Rabi Yehudá diz: também no impuro. Disse Rabi Yehudá: acaso não foi dos filhos de Yaakóv que se proibiu o nervo ciático, e ainda assim o animal impuro lhes era permitido? Disseram-lhe: em Sinai foi dito, mas foi escrito em seu lugar.

— A mishná final do Perek Zayin fecha o tema do nervo ciático com uma questão sobre seu alcance: ele vige apenas no animal puro (kosher), não no impuro — segundo o taná anônimo, porque, no animal impuro, toda a carne já é proibida por si mesma, e a proibição adicional do nervo não teria como incidir sobre algo já vedado por outro motivo. Rabi Yehudá discorda e sustenta que a proibição vige também no animal impuro, e apresenta um argumento histórico notável: o nervo ciático já havia sido proibido aos filhos de Yaakóv na época do relato de Bereshit, momento em que o próprio consumo de animais impuros ainda lhes era permitido — pois as leis de kashrut só foram dadas mais tarde, no Sinai. Logo, argumenta ele, a proibição do nervo, tendo surgido antes e independentemente da distinção entre puro e impuro, deveria valer igualmente nos dois casos. Os sábios respondem com um princípio hermenêutico fundamental sobre a estrutura da Torá: a proibição do nervo ciático, como mandamento vinculante, só foi de fato promulgada no Sinai, junto com todos os outros seiscentos e treze mandamentos — o relato de Yaakóv em Bereshit apenas registra o episódio histórico que deu origem ao costume, mas foi escrito “em seu lugar” narrativo, não no momento em que a lei realmente passou a vincular. Sendo assim, a mitzvá nasceu no Sinai como parte do sistema geral das leis da Torá, que distingue puro de impuro, e portanto só vige onde essa distinção já se aplica.

נוֹהֵג בִּטְהוֹרָה, וְאֵינוֹ נוֹהֵג בִּטְמֵאָה. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, אַף בִּטְמֵאָה. אָמַר רַבִּי יְהוּדָה, וַהֲלֹא מִבְּנֵי יַעֲקֹב נֶאֱסַר גִּיד הַנָּשֶׁה, וַעֲדַיִן בְּהֵמָה טְמֵאָה מֻתֶּרֶת לָהֶן. אָמְרוּ לוֹ, בְּסִינַי נֶאֱמַר, אֶלָּא שֶׁנִּכְתַּב בִּמְקוֹמוֹ.

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת

Bereshit 32:33
עַל־כֵּן לֹא־יֹאכְלוּ בְנֵי־יִשְׂרָאֵל אֶת־גִּיד הַנָּשֶׁה אֲשֶׁר עַל־כַּף הַיָּרֵךְ עַד הַיּוֹם הַזֶּה, כִּי נָגַע בְּכַף־יֶרֶךְ יַעֲקֹב בְּגִיד הַנָּשֶׁה.
“Por isso os filhos de Israel não comem o nervo ciático, que está sobre a colher da coxa, até o dia de hoje, porque ele tocou a colher da coxa de Yaakóv, no nervo ciático.”
A disputa da mishná gira inteiramente em torno de quando, e não apenas o quê, este versículo estabelece. Rabi Yehudá lê o texto na ordem narrativa: como Bereshit precede a entrega da Torá no Sinai, a proibição do nervo já vigia desde os “filhos de Yaakóv”, numa época em que a distinção entre animais puros e impuros ainda não existia para eles — daí concluir que ela deveria valer nos dois tipos de animal igualmente. Os sábios respondem distinguindo a ocasião histórica do relato da origem legal da mitzvá: o mandamento foi de fato instruído a Israel apenas no Sinai, junto com todo o restante da Torá, e o versículo de Bereshit apenas registra, em seu lugar cronológico na narrativa, o episódio que deu origem ao costume — sem que isso signifique que a proibição já vinculasse legalmente antes do Sinai.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Chulin 7:6
נוהג בטהורה ואינו נוהג בטמאה רבי יהודה כו': על דעת ר' יהודה מי שאכל כזית מגיד הנשה של בהמה טמאה חייב שתי מלקיות משום בהמה טמאה ומשום גיד הנשה ואין הלכה כרבי יהודה: ושים לבך על העיקר הגדול הנכלל במשנה הזאת והוא מה שאמר מסיני נאסר לפי שאתה הראית לדעת שכל מה שאנו מרחיקים או עושים היום אין אנו עושין אלא במצות הקב"ה ע"י משה רבינו ע"ה לא שהקב"ה אמר זה לנביאים שלפניו... וכן גיד הנשה אין אנו הולכים אחר איסור יעקב אבינו אלא מצות משה רבינו ע"ה הלא תראה מה שאמרו תרי"ג מצות נאמרו לו למשה מסיני וכל אלו מכלל המצות:

Rambam observa que, na opinião de Rabi Yehudá, quem come o tamanho de um azeitona do nervo ciático de um animal impuro seria culpado de duas punições de chibatadas — uma por comer animal impuro, outra por comer o nervo ciático — e a lei não segue Rabi Yehudá. E chama a atenção para o princípio fundamental contido nesta mishná, expresso na resposta “em Sinai foi dito”: tudo o que hoje evitamos ou praticamos, nós o fazemos exclusivamente por mandamento do Santo, abençoado seja, transmitido por meio de Moshé Rabenu, e não porque o Santo o tenha dito diretamente aos profetas anteriores. Assim como não circuncidamos porque Avraham circuncidou a si mesmo e sua casa, mas porque o Santo nos ordenou, por meio de Moshé Rabenu, que circuncidássemos como Avraham circuncidou — do mesmo modo, quanto ao nervo ciático, não seguimos a proibição de Yaakóv nosso pai, mas o mandamento de Moshé Rabenu: pois, como se ensina, os seiscentos e treze mandamentos foram todos ditos a Moshé no Sinai, e este está entre eles.

Bartenura · Chulin 7:6
וְאֵינוֹ נוֹהֵג בִּטְמֵאָה. שֶׁאִם אָכַל גִּיד הַנָּשֶׁה שֶׁל טְמֵאָה, לְמַאן דְּאָמַר יֵשׁ בַּגִּידִים בְּנוֹתֵן טַעַם, לוֹקֶה מִשּׁוּם טְמֵאָה וְלֹא מִשּׁוּם גִּיד. וּלְמַאן דְּאָמַר אֵין בַּגִּידִים בְּנוֹתֵן טַעַם, פָּטוּר מִכְּלוּם, דְּבִטְהוֹרָה עֵץ הוּא וְהַתּוֹרָה חִיְּבָה עָלָיו, אֲבָל בִּטְמֵאָה אֵינוֹ נוֹהֵג:
מִבְּנֵי יַעֲקֹב נֶאֱסַר. וַעֲדַיִן טְמֵאָה מֻתֶּרֶת לָהֶן עַד מַתַּן תּוֹרָה:
אָמְרוּ לוֹ. פָּסוּק זֶה שֶׁהִזְהִיר עָלָיו בְּסִינַי נֶאֱמַר, וְעַד סִינַי לֹא הֻזְהֲרוּ:
אֶלָּא שֶׁנִּכְתַּב בִּמְקוֹמוֹ. לְאַחַר שֶׁנֶּאֱמַר בְּסִינַי, כְּשֶׁבָּא לְסַדֵּר מֹשֶׁה אֶת הַתּוֹרָה כָּתַב הַמִּקְרָא הַזֶּה עַל הַמַּעֲשֶׂה, עַל כֵּן הֻזְהֲרוּ בְנֵי יִשְׂרָאֵל אַחֲרֵי כֵן שֶׁלֹּא יֹאכְלוּ גִּיד הַנָּשֶׁה. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה:

Bartenura explica que, se alguém comesse o nervo ciático de um animal impuro, para quem sustenta que os nervos têm capacidade de imprimir sabor, ele levaria chibatadas por comer animal impuro, mas não pelo nervo em si; e para quem sustenta que os nervos não têm essa capacidade, ficaria isento de tudo — pois, no animal puro, o nervo é como madeira sem sabor próprio, e ainda assim a Torá o probe explicitamente, mas no impuro essa proibição adicional não vige. Explica que o animal impuro ainda era permitido aos filhos de Yaakóv até a entrega da Torá, e que a resposta dos sábios significa que o versículo que probe o nervo foi de fato instruído no Sinai, e não antes; mas, ao redigir a Torá em ordem narrativa, Moshé registrou esse mandamento junto ao relato do episódio que lhe deu origem, ainda que cronologicamente a proibição efetiva só tenha se dado depois. A lei não segue Rabi Yehudá.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רש״י
Chulin 100b:3, sobre a Guemará desta mishná
מתני' ואינו נוהג בטמאה - שאם אכל גיד הנשה של טמאה למ"ד יש בגידין טעם לוקה משום טמאה ולאו משום גיד ולמ"ד אין טעם בגידין פטור מכלום דבטהורה עץ הוא והתורה חייבה עליו אבל בטמאה אינו נוהג: מבני יעקב נאסר - דכתיב (בראשית לב) על כן וגו' ועדיין טמאה מותרת להן עד מתן תורה: אמרו לו - פסוק זה שהזהירו עליו בסיני נאמר ועד סיני לא הוזהרו אלא שנכתב במקומו לאחר שנאמר בסיני וכתב וסידר משה את התורה כתב המקרא הזה על המעשה על כן הוזהרו בני ישראל אחרי כן שלא יאכלו גיד:

Rashi explica que, para quem sustenta que os nervos têm capacidade de imprimir sabor, comer o nervo do animal impuro geraria chibatadas por conta do animal impuro, não pelo nervo; e para quem sustenta o contrário, isentaria completamente — pois no animal puro o nervo é como madeira, sem sabor próprio, e mesmo assim a Torá o obrigou como proibição explícita, mas no impuro essa proibição adicional não vige. Confirma que o animal impuro ainda era permitido aos filhos de Yaakóv até a entrega da Torá, citando o versículo de Bereshit 32. E explica a resposta dos sábios: o versículo que os adverte sobre o nervo foi de fato dito no Sinai, e antes do Sinai eles não haviam sido advertidos; mas, ao ordenar e redigir a Torá, Moshé escreveu esse mandamento junto ao relato do episódio histórico que lhe deu origem — por isso os filhos de Israel foram advertidos depois a não comer o nervo.