A pele sobre a qual há um kazait de carne: aquele que toca no fio que sai dela, ou no pelo que está à sua frente, torna-se impuro. Se havia sobre ela como duas metades de azeitona, impurifica por carregamento, mas não por contato — palavras de Rabi Ishmael.
— Uma pele de carcaça que carrega um kazait de carne já tem, por essa carne, o estatuto pleno de carcaça. A mishná ensina que essa impureza se estende até mesmo a um fio fino de carne (tziv) que se destaca da massa principal, ou ao pelo da pele situado exatamente em frente à carne — ambos funcionam como “proteção” (shomer) da carne, e quem os toca é tratado como se tivesse tocado a própria carne. Já quando a carne está dividida em duas porções de meio kazait cada, nenhuma delas isoladamente chega à medida mínima que impurifica por contato; mas, ao carregar a pele, ambas se movem juntas, e a soma das duas completa o kazait para impurificar por carregamento — segundo Rabi Ishmael.
Rabi Akiva diz: nem por contato, nem por carregamento. E Rabi Akiva concorda que, quanto a duas metades de azeitona que alguém espetou com um graveto e moveu, isso é impuro. E por que Rabi Akiva declara puro no caso da pele? Porque a pele as anula.
— Rabi Akiva rejeita inteiramente a soma de Rabi Ishmael: para ele, duas metades separadas de kazait nunca se juntam, nem por contato nem por carregamento, mesmo movidas simultaneamente sobre a mesma pele. Mas ele mesmo reconhece uma exceção: se alguém deliberadamente espeta as duas metades num graveto fino e as move juntas, elas se combinam e impurificam — porque o graveto as une ativamente como um só corpo, sem interferir entre elas. A pele, ao contrário, não une: por ser ela mesma um objeto substancial que se interpõe entre as duas porções de carne, ela as separa e anula a conexão entre elas, de modo que cada metade permanece isolada, aquém da medida mínima.
Rambam explica que tziv é o fio fino que se estende a partir da pele contígua à carne, e que “o pelo que está à sua frente” é o pelo situado na superfície da pele exatamente em frente à carne. Explica que kêssam é um pedaço de madeira fino, como um fuso ou um bastão de fiar, e que “espetadas” significa perfuradas — isto é, faz-se uma fenda nesse pedaço de madeira e nele se introduzem as duas metades. A lei segue Rabi Akiva e os sábios.
Bartenura esclarece que o kazait de carne referido está reunido num só lugar da pele. O “fio que sai dela” é uma tira fina e enrolada que se projeta dessa carne, presa apenas em parte — nesse fio isolado não há um kazait, mas ele está unido à carne que o tem. O pelo referido é o da pele, na posição correspondente à carne; torna-se impuro quem o toca porque o pelo serve de proteção. Quando há duas metades de azeitona, impurifica por carregamento — pois, ao carregar a pele, carrega-se também um kazait de carcaça —, mas não por contato, porque é impossível tocar as duas metades ao mesmo tempo, e dois toques separados não se somam. Rabi Akiva nega os dois modos, pelo motivo que a própria mishná explicita na parte final: a pele as anula. Mas Rabi Akiva concorda que, mesmo sem estarem unidas num só ponto, se alguém as espeta com um graveto fino e as move juntas, isso é impuro — e a lei segue Rabi Akiva.
Rashi esclarece que o kazait de carne está reunido em um só lugar da pele; que “o fio que sai dela” se refere a essa mesma carne, ou ao pelo situado em frente a ela; que se torna impuro porque o pelo serve de proteção — como se diz alhures, “a impureza se propaga em cadeia”; e que o tziv é uma tira fina e enrolada que sai dessa carne, presa e pendente apenas em parte — nesse fio isolado não há um kazait, mas ele está unido à carne que o completa.