Seder Nezikin · Massechet Eduyot · Perek Chet · Mishná 5 de 7

O casamento sobre uma única testemunha e os ossos no depósito de lenha

הֵעִיד רַבִּי עֲקִיבָא מִשּׁוּם נְחֶמְיָה אִישׁ בֵּית דְּלִי
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Dois testemunhos de leniência prática: permitir o casamento da mulher sobre a palavra de uma única testemunha da morte do marido, e a pureza mantida em Jerusalém apesar de ossos encontrados no depósito de lenha do Templo

Testemunhou Rabi Akiva em nome de Nechemia, homem de Beit Deli, que se casa a mulher com base numa única testemunha. Testemunhou Rabi Yehoshua sobre ossos que foram encontrados no depósito de lenha, disseram os Sábios: recolhe-se osso por osso, e tudo é puro.O primeiro testemunho trata de uma leniência fundamental do direito matrimonial: normalmente, exige-se dois testemunhos para estabelecer um fato legal com certeza; mas quando se trata de permitir que uma mulher cujo marido partiu para terras distantes se case novamente, basta o relato de uma única testemunha de que o marido morreu — porque, ao contrário de outras áreas do direito, aqui os Sábios foram lenientes: presume-se que uma testemunha não mentiria sobre um fato tão facilmente verificável, e a preocupação com o sofrimento da agunah (mulher impedida de se casar novamente) pesou na decisão. O segundo testemunho trata de um incidente concreto: ossos humanos foram encontrados no depósito de lenha do Templo (uma câmara no pátio das mulheres onde se guardava a madeira para o altar) — o que poderia sugerir que todo o local, e por extensão todos que ali passaram, ficaram retroativamente impuros. Mas os Sábios decidiram apenas recolher os ossos, um por um, sem declarar impuro tudo o que ali esteve, porque o pátio das mulheres tem status de domínio público, e a impureza em dúvida em domínio público é considerada pura. Segundo a Guemará (Zevachim 113a), chegou-se a cogitar decretar impureza sobre toda Jerusalém por causa deste achado, até que Rabi Yehoshua argumentou: "não seria uma vergonha para nós decretar impureza sobre a cidade de nossos pais?"

הֵעִיד רַבִּי עֲקִיבָא מִשּׁוּם נְחֶמְיָה, אִישׁ בֵּית דְּלִי, שֶׁמַּשִּׂיאִים הָאִשָּׁה עַל פִּי עֵד אֶחָד. הֵעִיד רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ עַל עֲצָמוֹת שֶׁנִּמְצְאוּ בְדִיר הָעֵצִים, אָמְרוּ חֲכָמִים, מְלַקֵּט עֶצֶם עֶצֶם וְהַכֹּל טָהוֹר:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Eduyot 8:5
כְּשֶׁיָּעִיד עֵד אֶחָד שֶׁמֵּת בַּעַל הָאִשָּׁה, תִּנָּשֵׂא עַל פִּיו, וְזֶה מְפֻרְסָם וּכְבָר נִתְבָּאֵר בָּאַחֲרוֹן מִיְּבָמוֹת... וְלֹא גָזְרוּ טֻמְאָה עַל יְרוּשָׁלַיִם בִּשְׁבִילָם, אֶלָּא הֶעֱמִידוּהָ בְּחֶזְקַת טָהֳרָה כִּשְׁאָר אֶרֶץ יִשְׂרָאֵל.

Rambam explica que, quando uma única testemunha atesta que o marido de uma mulher morreu, ela se casa novamente com base nessa palavra — princípio amplamente conhecido, já esclarecido no último capítulo de Yevamot. Quanto ao "depósito de lenha": é o local onde se guarda a madeira que se queima sobre o altar, uma câmara no pátio das mulheres, à direita de quem entra no Templo, uma das quatro câmaras daquele pátio, como se descreverá quando se traçar a planta completa do Templo. Ocorreu que naquela câmara se encontraram ossos de um morto, e ordenaram recolhê-los um a um apenas, permanecendo puro todo o restante do pátio, e todas as pessoas que ali se serviam, e os utensílios — tudo permanece puro, sem se dizer "talvez este se contaminou com aquele, e aquele com este, e tocaram a impureza"; pois aquele local é como domínio público, como já explicamos, e não cavaram a terra para ver se havia ali um túmulo, mas apenas recolheram o que encontraram. E não decretaram impureza sobre Jerusalém por causa disso, mas a mantiveram em presunção de pureza como o restante da Terra de Israel, como se esclarece na Guemará, no último capítulo de Zevachim — e tudo isso é claro.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Eduyot 8:5
שֶׁמַּשִּׂיאִין הָאִשָּׁה עַל פִּי עֵד אֶחָד. אִשָּׁה שֶׁהָלַךְ בַּעְלָהּ לִמְדִינַת הַיָּם וּבָא עֵד אֶחָד וְאָמַר שֶׁמֵּת, מַשִּׂיאִים אֶת אִשְׁתּוֹ עַל פִּיו. בְּדִיר הָעֵצִים. לִשְׁכָּה שֶׁשָּׁם הָיוּ אוֹצְרִים כָּל עֲצֵי הַמַּעֲרָכָה... וּמָצְאוּ שָׁם עֲצָמוֹת שֶׁל מֵתִים... וְלֹא חָיְשִׁינַן שֶׁמָּא נִטְמְאוּ בָּהֶם אָדָם וְכֵלִים, מִשּׁוּם דְּעֶזְרַת נָשִׁים דִּין רְשׁוּת הָרַבִּים יֵשׁ לָהּ.

Bartenura explica: "casa-se a mulher com base numa única testemunha" — uma mulher cujo marido foi para terras distantes, e veio uma única testemunha e disse que morreu: casa-se sua esposa com base nessa palavra. Quanto ao "depósito de lenha": trata-se de uma câmara onde se armazenava toda a madeira usada na pira do altar, situada no ângulo nordeste do pátio das mulheres. Ali se encontraram ossos de mortos, e disseram os Sábios: recolhe-se osso por osso, e tudo é puro — sem se temer que pessoas e utensílios ali se tenham contaminado, pois o pátio das mulheres tem status de domínio público, e toda dúvida de impureza em domínio público é pura. E no tratado Zevachim, último capítulo (folha 113), a Guemará traz que quiseram decretar impureza sobre toda Jerusalém por causa daqueles ossos encontrados no depósito de lenha, mas Rabi Yehoshua lhes disse: "não seria vergonha e humilhação para nós decretarmos impureza sobre a cidade de nossos pais?"

Massechet Eduyot não possui Guemará no Talmud Bavli — é um tratado composto majoritariamente de testemunhos (edviot) de sábios transmitidos e preservados tal como ensinados, sem o desenvolvimento amoraico posterior que caracteriza a maioria dos tratados de Nezikin. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.