Seder Nezikin · Massechet Eduyot · Perek Chet · Mishná 6 de 7

A santidade que perdura: sacrifícios e alimentos sagrados sem o Templo

אָמַר רַבִּי אֱלִיעֶזֶר, שָׁמַעְתִּי כְּשֶׁהָיוּ בוֹנִים בַּהֵיכָל
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Dois testemunhos de tradição oral ("ouvi") sobre a permanência da santidade de Jerusalém e do Templo mesmo em circunstâncias excepcionais — durante obras de construção, e mesmo após a destruição

Disse Rabi Eliezer: ouvi que, quando construíam o Santuário, faziam cortinas para o Santuário e cortinas para os pátios, exceto que no Santuário construíam por fora, e no pátio construíam por dentro. Disse Rabi Yehoshua: ouvi que se oferecem sacrifícios ainda que não haja Templo, e se comem as coisas santíssimas ainda que não haja cortinas, e as coisas de santidade leve e o segundo dízimo, ainda que não haja muralha — porque a primeira santificação santificou para o seu tempo e santificou para o tempo por vir.Rabi Eliezer relata uma tradição prática sobre como se realizavam obras de reconstrução ou reparo no Templo sem interromper o serviço sagrado: erguiam-se cortinas temporárias para isolar a área em obras da área onde o serviço continuava — no caso do próprio edifício do Santuário, os operários trabalhavam do lado de fora da cortina (protegendo o interior sagrado de sua presença), enquanto no pátio, onde a santidade era diferente, trabalhavam do lado de dentro. Rabi Yehoshua ensina algo de maior alcance teológico e prático: mesmo que o Templo seja destruído (como de fato ocorreu em 70 EC), continua sendo permitido oferecer sacrifícios no local do altar; mesmo sem as cortinas que demarcavam o Santuário, ainda se pode comer ali as ofertas santíssimas; e mesmo sem a muralha da cidade em pé, ainda vale a santidade de Jerusalém para comer as ofertas de santidade leve e o segundo dízimo dentro de seus limites históricos. A razão dada é um princípio fundamental: a primeira santificação (a de Salomão, quando construiu o primeiro Templo) não foi uma santidade limitada ao seu próprio tempo, sujeita a ser anulada pela destruição — foi uma santificação que "valeu para o seu tempo e valeu para o tempo por vir", isto é, permanente, distinta da santidade da conquista da terra por Josué, que dependia da presença física de Israel na terra.

אָמַר רַבִּי אֱלִיעֶזֶר, שָׁמַעְתִּי, כְּשֶׁהָיוּ בוֹנִים בַּהֵיכָל, עוֹשִׂים קְלָעִים לַהֵיכָל וּקְלָעִים לָעֲזָרוֹת, אֶלָּא שֶׁבַּהֵיכָל בּוֹנִים מִבַּחוּץ, וּבָעֲזָרָה בּוֹנִים מִבִּפְנִים. אָמַר רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ, שָׁמַעְתִּי, שֶׁמַּקְרִיבִין אַף עַל פִּי שֶׁאֵין בַּיִת, וְאוֹכְלִים קָדְשֵׁי קָדָשִׁים אַף עַל פִּי שֶׁאֵין קְלָעִים, קָדָשִׁים קַלִּים וּמַעֲשֵׂר שֵׁנִי, אַף עַל פִּי שֶׁאֵין חוֹמָה, שֶׁקְּדֻשָּׁה רִאשׁוֹנָה קִדְּשָׁה לִשְׁעָתָהּ וְקִדְּשָׁה לֶעָתִיד לָבֹא:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Eduyot 8:6
זֶה הַמַּאֲמָר בָּרוּר, וּכְבָר בֵּאַרְנוּ בְּשֵׁנִי מִשְּׁבוּעוֹת כִּי מִן הָעִקָּרִים קְדֻשָּׁה רִאשׁוֹנָה קִדְּשָׁה לִשְׁעָתָהּ וְקִדְּשָׁה לֶעָתִיד לָבֹא, וּרְצוֹנִי לוֹמַר בִּקְדֻשָּׁתָהּ הָרִאשׁוֹנָה קִדְּשָׁהּ שְׁלֹמֹה עָלָיו הַשָּׁלוֹם, וּבַמִּקְדָּשׁ בִּלְבַד הַכֹּל מוֹדִים בּוֹ.

Rambam explica que esta afirmação é clara, e já a explicou no segundo capítulo de Shevuot: entre os princípios fundamentais está que a primeira santificação valeu para o seu tempo e valeu para o tempo por vir. E quero dizer com "primeira santificação" aquela que Salomão, a paz esteja sobre ele, realizou; e, quanto ao próprio Templo, todos concordam que essa santidade é permanente. Mas quanto à santidade do restante da Terra de Israel, há disputa entre os Sábios — e nos apoiamos, quanto a isso, na santificação de Ezra, que é chamada "segunda santificação"; e, segundo todos, essa segunda santificação — tudo aquilo que os que subiram da Babilônia ocuparam — também santificou para o seu tempo e santificou para o tempo por vir.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Eduyot 8:6
שָׁמַעְתִּי שֶׁמַּקְרִיבִים אַף עַל פִּי שֶׁאֵין בַּיִת. לְפִי שֶׁקְּדֻשָּׁה שֶׁקִּדֵּשׁ שְׁלֹמֹה אֶת הַבַּיִת, קִדְּשָׁה לִשְׁעָתָהּ וְקִדְּשָׁה לֶעָתִיד לָבֹא. וְכֵן קְדֻשַּׁת יְרוּשָׁלַיִם קִדְשָׁה לְעוֹלָם. אֲבָל קְדֻשַּׁת שְׁאָר אֶרֶץ יִשְׂרָאֵל לֹא קִדְּשָׁה בְּכִבּוּשׁ רִאשׁוֹן אֶלָּא לִשְׁעָתָהּ, עַד שֶׁחָזְרוּ עוֹלֵי בָּבֶל וְקִדְּשׁוּהָ קְדֻשָּׁה שְׁנִיָּה.

Bartenura explica que se ouviu a tradição de que se oferecem sacrifícios ainda que não haja Templo em pé, porque a santidade com que Salomão santificou a Casa valeu para o seu próprio tempo e valeu também para o tempo por vir; e do mesmo modo, a santidade de Jerusalém santificou para sempre. Já a santidade do restante da Terra de Israel não se santificou pela primeira conquista (de Josué) senão para aquele tempo, até que os que retornaram da Babilônia a santificaram de novo, numa segunda santificação — e essa segunda santificação sim valeu para o tempo por vir, permanecendo até hoje.

Massechet Eduyot não possui Guemará no Talmud Bavli — é um tratado composto majoritariamente de testemunhos (edviot) de sábios transmitidos e preservados tal como ensinados, sem o desenvolvimento amoraico posterior que caracteriza a maioria dos tratados de Nezikin. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.