Disse Rabi Eliezer: ouvi que, quando construíam o Santuário, faziam cortinas para o Santuário e cortinas para os pátios, exceto que no Santuário construíam por fora, e no pátio construíam por dentro. Disse Rabi Yehoshua: ouvi que se oferecem sacrifícios ainda que não haja Templo, e se comem as coisas santíssimas ainda que não haja cortinas, e as coisas de santidade leve e o segundo dízimo, ainda que não haja muralha — porque a primeira santificação santificou para o seu tempo e santificou para o tempo por vir. — Rabi Eliezer relata uma tradição prática sobre como se realizavam obras de reconstrução ou reparo no Templo sem interromper o serviço sagrado: erguiam-se cortinas temporárias para isolar a área em obras da área onde o serviço continuava — no caso do próprio edifício do Santuário, os operários trabalhavam do lado de fora da cortina (protegendo o interior sagrado de sua presença), enquanto no pátio, onde a santidade era diferente, trabalhavam do lado de dentro. Rabi Yehoshua ensina algo de maior alcance teológico e prático: mesmo que o Templo seja destruído (como de fato ocorreu em 70 EC), continua sendo permitido oferecer sacrifícios no local do altar; mesmo sem as cortinas que demarcavam o Santuário, ainda se pode comer ali as ofertas santíssimas; e mesmo sem a muralha da cidade em pé, ainda vale a santidade de Jerusalém para comer as ofertas de santidade leve e o segundo dízimo dentro de seus limites históricos. A razão dada é um princípio fundamental: a primeira santificação (a de Salomão, quando construiu o primeiro Templo) não foi uma santidade limitada ao seu próprio tempo, sujeita a ser anulada pela destruição — foi uma santificação que "valeu para o seu tempo e valeu para o tempo por vir", isto é, permanente, distinta da santidade da conquista da terra por Josué, que dependia da presença física de Israel na terra.
Rambam explica que esta afirmação é clara, e já a explicou no segundo capítulo de Shevuot: entre os princípios fundamentais está que a primeira santificação valeu para o seu tempo e valeu para o tempo por vir. E quero dizer com "primeira santificação" aquela que Salomão, a paz esteja sobre ele, realizou; e, quanto ao próprio Templo, todos concordam que essa santidade é permanente. Mas quanto à santidade do restante da Terra de Israel, há disputa entre os Sábios — e nos apoiamos, quanto a isso, na santificação de Ezra, que é chamada "segunda santificação"; e, segundo todos, essa segunda santificação — tudo aquilo que os que subiram da Babilônia ocuparam — também santificou para o seu tempo e santificou para o tempo por vir.
Bartenura explica que se ouviu a tradição de que se oferecem sacrifícios ainda que não haja Templo em pé, porque a santidade com que Salomão santificou a Casa valeu para o seu próprio tempo e valeu também para o tempo por vir; e do mesmo modo, a santidade de Jerusalém santificou para sempre. Já a santidade do restante da Terra de Israel não se santificou pela primeira conquista (de Josué) senão para aquele tempo, até que os que retornaram da Babilônia a santificaram de novo, numa segunda santificação — e essa segunda santificação sim valeu para o tempo por vir, permanecendo até hoje.