Beit Shamai dizem: um homem não deve divorciar sua esposa a menos que tenha achado nela um dvar ervá (algo de indecência), como está dito: "porque achou nela ervat davar (indecência de algo)." E Beit Hilel dizem: mesmo que ela tenha queimado seu cozido, como está dito: "porque achou nela ervat davar." Rabi Akiva diz: mesmo que tenha achado outra mais bela do que ela, como está dito: "e será, se ela não achar graça a seus olhos." — A mishná encerra o tratado com a discussão mais célebre e mais citada de toda a literatura talmúdica sobre o divórcio: qual é o motivo mínimo que justifica um homem a divorciar sua esposa. Todas as três opiniões se apoiam no mesmo versículo de Devarim (24:1), mas o leem de formas opostas. Beit Shamai interpreta a expressão "ervat davar" enfatizando a palavra "ervá" (indecência, impropriedade sexual ou moral grave): só um motivo sério e real — algo próximo, ainda que não idêntico, a uma transgressão de caráter — justificaria o divórcio. Beit Hilel, em contraste, enfatiza a segunda palavra, "davar" (uma coisa qualquer, um assunto qualquer): a expressão como um todo significaria "qualquer coisa indevida", por mais trivial que seja — incluindo o exemplo extremo dado pela mishná, o de a esposa ter simplesmente queimado a comida ao cozinhar. Rabi Akiva vai ainda mais longe, apoiando-se não na expressão "ervat davar" em si, mas na continuação do mesmo versículo — "e será, se ela não achar favor a seus olhos" —, para permitir o divórcio mesmo sem qualquer falha da esposa, pelo simples fato de o marido ter encontrado outra mulher que lhe pareça mais bela. A mishná não declara explicitamente qual opinião prevalece, mas a tradição halachá estabelecida, seguindo a Guemará, decide como Beit Hilel.
As três opiniões da mishná disputam a leitura de um único versículo — a fonte bíblica de todo o instituto do get, na abertura da passagem de Devarim sobre o divórcio e o novo casamento.
Rambam confirma que a lei não segue Rabi Akiva, ainda que reconheça que o divórcio é sempre permitido em última instância; Bartenura detalha a base exegética de cada uma das três posições e confirma que a halachá segue Beit Hilel.
Rambam resume com precisão a base exegética de cada opinião: Beit Shamai apoia-se especificamente na palavra "ervá" (indecência), Beit Hilel na palavra "davar" (qualquer coisa). Quanto à opinião de Rabi Akiva, Rambam a rejeita explicitamente como não sendo a halachá: segundo ele, se um homem encontra outra mulher mais bela, o caminho correto é que ele a tome também como esposa — se puder —, mas não que divorcie a primeira, que não cometeu transgressão alguma e cujo comportamento é plenamente compatível com o caráter dele. A halachá segue Beit Hilel.
Bartenura explica que "queimar o cozido" (hikdicha tavshilo) significa que ela o estragou, seja pelo fogo, seja por excesso de sal — um defeito doméstico trivial, mas suficiente na leitura de Beit Hilel, que interpreta "ervat davar" como "ou ervá, ou davar": ou uma indecência propriamente dita, ou qualquer outro tipo de falha que não chega a ser indecência. Quanto a Rabi Akiva, Bartenura explica que ele lê o versículo completo como oferecendo três motivos distintos e cumulativos para o divórcio: "se ela não achar graça a seus olhos" (motivo autônomo, mesmo sem falha alguma), "ou se ele achou nela indecência", "ou algo de falha" — e, sobre qualquer um desses três motivos, o marido pode divorciá-la. A halachá, encerra Bartenura, segue Beit Hilel.
Rashi, na última folha da Guemará de Guitin (90a), fecha o tratado com a leitura filológica precisa de "hikdicha" e com a posição extrema atribuída a Rabi Akiva.
Rashi fixa o sentido preciso do verbo "hikdicha": queimar, seja pela ação do fogo — que ele identifica pelo termo em língua vernácula de sua época —, seja pelo excesso de sal, comparando-o ao uso poético do mesmo verbo em Devarim 32:22 ("porque um fogo se acendeu em minha ira"). E confirma que, para Beit Hilel, a expressão "ervat davar" se desdobra em duas possibilidades distintas: ou uma indecência propriamente dita, ou qualquer outro tipo de falha ou defeito que não chega a se qualificar como indecência.
Rashi resume, em poucas palavras, a extensão máxima da posição de Rabi Akiva: mesmo que o marido não tenha encontrado na esposa absolutamente nenhuma falha — nem indecência, nem sequer o defeito mais trivial —, o simples fato de ter encontrado outra mulher mais bela já é, para ele, motivo suficiente e legítimo para o divórcio. É com esta frase, no alto da última folha de Massechet Guitin, que Rashi conclui seu comentário sobre o tratado inteiro.
Com esta mishná encerra-se o Perek Tet e, com ele, todo o tratado de Massechet Guitin — nove perakim, setenta e cinco mishnayot, dedicados às leis do get: os modos válidos de sua redação e entrega, os defeitos que o invalidam, os poderes e limites do agente que o leva ou o traz de terras distantes, os formatos do get simples e do get mekushar, e, por fim, nesta última mishná, a própria razão de ser de todo o tratado — os motivos que legitimam um homem a pôr fim ao casamento. A Guemará conclui a leitura desta mishná, e do tratado inteiro, com uma nota de gravidade: aquele que divorcia sua primeira esposa, ensina Rabi Elazar, é acompanhado até pelo próprio altar do Templo em lágrimas — um lembrete final de que, mesmo onde a lei permite o divórcio com largueza, como Beit Hilel, ele nunca deixa de ser tratado, na tradição, como uma ruptura grave e dolorosa. Hadran alach HaMegaresh, veslika lah Massechet Gitin — "Voltaremos a ti, HaMegaresh, e concluída está a Massechet Guitin."