A Mishná · הַמִּשְׁנָה
Quando o Sumo Sacerdote decide e age isoladamente, sem envolver o tribunal — expia-se sozinho, com sua própria oferenda.
Decidiu por si mesmo e agiu por si mesmo: expia-se por si mesmo.
הוֹרָה בִפְנֵי עַצְמוֹ וְעָשָׂה בִפְנֵי עַצְמוֹ, מִתְכַּפֵּר לוֹ בִפְנֵי עַצְמוֹ.
Quando o Sumo Sacerdote participa da decisão do tribunal e transgride junto com a congregação — expia-se junto com ela, sem oferenda própria; e tanto o tribunal quanto o sacerdote ungido só se obrigam quando a decisão anula parte de um preceito e mantém parte dele — o mesmo vale para a idolatria.
Decidiu com a congregação e agiu com a congregação: expia-se com a congregação — pois o tribunal não é obrigado a menos que decida anular parte de um preceito e manter parte dele; e o mesmo vale para o sacerdote ungido. E também quanto à idolatria, não são obrigados a menos que decidam anular parte e manter parte.
— Esta mishná distingue duas configurações possíveis para o erro do Sumo Sacerdote. Se ele, sendo um decisor autônomo (מוּפְלָא), formulou sua própria decisão equivocada e a executou isoladamente, sem que o tribunal tenha decidido o mesmo erro, ele expia-se com um touro só seu, trazido em separado — pois, como ensina o versículo “pelo seu pecado que pecou”, só há oferenda individual quando o pecado lhe é exclusivo. Mas se ele participou da própria decisão do tribunal — sendo um dos juízes que erraram juntos — e depois transgrediu junto com a congregação com base nessa decisão comum, ele não traz oferenda separada: expia-se dentro do touro comunitário do ocultamento do assunto, tal como qualquer outro membro da congregação. A mishná aproveita para introduzir um princípio técnico central ao Perek Bet: nem o tribunal nem o sacerdote ungido se tornam responsáveis por qualquer decisão equivocada — só quando a decisão for do tipo que "anula parte e mantém parte" do preceito, isto é, quando reconhecem que parte da proibição permanece vigente mas erram quanto a outra parte dela (e não quando negam a proibição inteira, ou quando negam um princípio fundamental da Torá, caso em que a responsabilidade comunitária não se aplica). O mesmo critério vale também para a idolatria.
הוֹרָה עִם הַצִּבּוּר וְעָשָׂה עִם הַצִּבּוּר, מִתְכַּפֵּר לוֹ עִם הַצִּבּוּר, שֶׁאֵין בֵּית דִּין חַיָּבִים עַד שֶׁיּוֹרוּ לְבַטֵּל מִקְצָת וּלְקַיֵּם מִקְצָת, וְכֵן הַמָּשִׁיחַ. וְלֹא בַעֲבוֹדָה זָרָה, עַד שֶׁיּוֹרוּ לְבַטֵּל מִקְצָת וּלְקַיֵּם מִקְצָת:
Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת
Vayikrá 4:35
וְאֶת כָּל חֶלְבָּהּ יָסִיר כַּאֲשֶׁר יוּסַר חֵלֶב הַכֶּשֶׂב מִזֶּבַח הַשְּׁלָמִים, וְהִקְטִיר הַכֹּהֵן אֹתָם הַמִּזְבֵּחָה עַל אִשֵּׁי ה', וְכִפֶּר עָלָיו הַכֹּהֵן עַל חַטָּאתוֹ אֲשֶׁר חָטָא וְנִסְלַח לוֹ.
“...e o sacerdote fará expiação por ele, por seu pecado que pecou, e lhe será perdoado” — a expressão “por seu pecado que pecou” (עַל חַטָּאתוֹ אֲשֶׁר חָטָא), tomada como referindo-se a um pecado exclusivamente seu, é a base pela qual os sábios ensinam que o Sumo Sacerdote só traz uma oferenda separada, em seu próprio nome, quando o pecado lhe é próprio e não compartilhado com a decisão da congregação — fundamento direto da distinção desta mishná entre “decidiu por si mesmo” e “decidiu com a congregação”.
Halachot · הֲלָכוֹת
Rambam · Perush HaMishná, Horayot 2:2
הורה בפני עצמו וכו': היה עולה על הדעת שכהן גדול אפילו עשה בהוראת ב"ד לא יתכפר לו עם הציבור הואיל ואינו מתכפר עמהם בצום כפור אלא בקרבן מיוחד לו בפני עצמו כמו שבאר במקרא פר החטאת אשר לו והודיענו בכאן שמתכפר לו עם הציבור כשנשתתף עמהם בשגגה כמו שאמר יתעלה על חטאתו אשר חטא ר"ל שיהיה חטאו מיוחד לו לבדו אותה שעה יביא קרבן בפני עצמו אבל כשנשתתף עם הציבור לא ולמדנו ע"כ משאר מצות לפי שנאמר בשאר מצות ונעלם דבר מעיני הקהל ונאמר בע"כ והיה אם מעיני העדה כמו שלשם באמרו דבר ולא כל הגוף כן באמרו בע"כ ואיני צריך לבאר כי בכל מקום שאמרנו שאר מצות או כל המצות בענין זה באיזה מקום שבא כי אמנם נרצה לומר האחת ושלשים מצות לא תעשה שחייבין על זדונן כרת ועל שגגתן חטאת:
Rambam observa que se poderia supor que o Sumo Sacerdote, mesmo agindo segundo a decisão do tribunal, nunca se expiasse junto com a congregação — já que, no Yom Kipur, ele não se expia junto com o povo, mas com um sacrifício próprio, exclusivo, como está dito “o touro do sacrifício expiatório que é seu”. A mishná vem ensinar que isso não é assim: quando ele participa da decisão junto com a congregação, expia-se com ela, pois o versículo “por seu pecado que pecou” ensina que só traz oferenda separada quando o pecado lhe é exclusivo. Esclarece ainda que a regra de “anular parte e manter parte” se aprende, para as demais mitzvot, do versículo “e se ocultar um assunto dos olhos da congregação” — a palavra “assunto” (דָּבָר), e não “o corpo inteiro” do preceito, indicando um erro parcial; e o mesmo raciocínio se aplica, por igualação verbal, ao versículo sobre a idolatria, “e será, se dos olhos da congregação”. Explica por fim que, sempre que fala em “demais mitzvot” ou “todas as mitzvot” neste contexto, refere-se às trinta e uma proibições cuja transgressão deliberada acarreta carét e cujo erro acarreta sacrifício expiatório.
Bartenura · Horayot 2:2
מִתְכַּפֵּר לוֹ בִפְנֵי עַצְמוֹ. חַיָּב לְהָבִיא פָּר בִּפְנֵי עַצְמוֹ:
הוֹרָה עִם הַצִּבּוּר. שֶׁהָיָה הוּא אֶחָד מִן הַסַּנְהֶדְרִין שֶׁשָּׁגְגוּ בְּהוֹרָאָה:
מִתְכַּפֵּר לוֹ עִם הַצִּבּוּר. בְּפַר הֶעְלֵם דָּבָר שֶׁל צִבּוּר, וְאֵינוֹ צָרִיךְ קָרְבָּן אַחֵר. דְּסָלְקָא דַעְתָּךְ אֲמֵינָא כִּי הֵיכִי דִבְיוֹם הַכִּפּוּרִים אֵין מִתְכַּפֵּר עִם הַצִּבּוּר, דְּהָא כְתִיב (ויקרא טז) וְשָׁחַט אֶת פַּר הַחַטָּאת אֲשֶׁר לוֹ, הָכָא נַמִּי יִהְיֶה צָרִיךְ קָרְבָּן בִּפְנֵי עַצְמוֹ, קָמַשְׁמַע לָן דְּלָא. וְנָפְקָא לָן מִקְּרָא דִּכְתִיב (שם ד) עַל חַטָּאתוֹ אֲשֶׁר חָטָא, בְּחֵטְא הַמְיֻחָד לוֹ מֵבִיא קָרְבָּן בִּפְנֵי עַצְמוֹ, וּבְחֵטְא שֶׁאֵינוֹ מְיֻחָד לוֹ אֵינוֹ מֵבִיא קָרְבָּן בִּפְנֵי עַצְמוֹ:
שֶׁאֵין בֵּית דִּין חַיָּבִים. כְּלוֹמַר, דִּין הוּא שֶׁהַמָּשִׁיחַ מִתְכַּפֵּר עִם הַצִּבּוּר, שֶׁהֲרֵי אֵין בֵּית דִּין חַיָּבִין וְכוּ', וְכֵן הַמָּשִׁיחַ, אַלְמָא הֻשְׁוָה הַמָּשִׁיחַ לְבֵית דִּין בְּכָל עִנְיָנָיו, אִם כֵּן כְּשֶׁהוֹרָה עִם הַצִּבּוּר דִּין הוּא שֶׁיִּהְיֶה שָׁוֶה לַצִּבּוּר וְיִתְכַּפֵּר עִם הַצִּבּוּר:
וְלֹא בַעֲבוֹדָה זָרָה עַד שֶׁיּוֹרוּ לְבַטֵּל מִקְצָת. לְפִי שֶׁנֶּאֱמַר בִּשְׁאָר מִצְוֹת (ויקרא ד) וְנֶעְלַם דָּבָר מֵעֵינֵי הַקָּהָל, וְנֶאֱמַר בַּעֲבוֹדָה זָרָה (במדבר טו) וְהָיָה אִם מֵעֵינֵי הָעֵדָה וְגוֹ', מַה בִּשְׁאָר מִצְוֹת וְנֶעְלַם דָּבָר וְלֹא כָּל הַגּוּף, אַף בַּעֲבוֹדָה זָרָה דָּבָר וְלֹא כָּל הַגּוּף:
Bartenura explica que “expia-se por si mesmo” significa que o Sumo Sacerdote deve trazer um touro em separado; e que “decidiu com a congregação” refere-se ao caso em que ele era um dos membros do próprio Sinédrio que erraram juntos na decisão. Explica que “expia-se com a congregação” significa que ele se expia no próprio touro comunitário do ocultamento do assunto, sem precisar de oferenda adicional — e antecipa a objeção óbvia: poder-se-ia pensar que, assim como no Yom Kipur o Sumo Sacerdote não se expia junto com a congregação, mas com um sacrifício próprio (“o touro do sacrifício expiatório que é seu”), também aqui ele precisaria de oferenda separada; a mishná ensina que não é assim, derivando do versículo “por seu pecado que pecou” que só se traz oferenda separada quando o pecado é exclusivo dele, e não quando é compartilhado com a congregação. Sobre “pois o tribunal não é obrigado”, explica que, sendo o sacerdote ungido equiparado ao tribunal em todos os seus aspectos, é lógico que, quando ele decide junto com a congregação, também se iguale a ela e se expie junto com ela. E sobre a idolatria, explica a mesma regra do “assunto e não o corpo inteiro”, derivada por igualação verbal entre os versículos das demais mitzvot e o versículo sobre a idolatria.
Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים
Rashi רַשִׁ״י
Rashi sobre a Guemará de Horayot, 7a
מתני' הורה — כהן משיח בעצמו כגון דמורו בתרי איסורי ב"ד בחלב והוא בעבודת כוכבים:
נתכפר לו בפני עצמו — דמביא פר בפני עצמו דאי הורה הוא בפני עצמו ולא הורו ב"ד כלל לא איצטריך למיתני דחייב להביא פר דמקרא מלא הוא אלא כי איצטריך למיתני כגון שהורו בשני איסורים:
הורה עם הצבור — ב"ד כגון דהורו בחדא איסור הוא בחלב והן בחלב:
נתכפר לו עם הצבור — שהוא מתכפר בשל ב"ד ומפני מה מתכפר בשל בית דין עם הצבור כי הורה עם הצבור לפי שבדברים הרבה שוה משיח לב"ד שאין ב"ד חייבין קרבן עד שיורו לבטל מקצת וכן המשיח וכו' והואיל והושוה משיח לב"ד הלכך כי הורה עם הצבור ועשה עם הצבור מתכפר עם הצבור והא דקתני שאין ב"ד חייבין ולא קתני שאין צבור חייבין סתמא כר"מ דאמר לעיל בפ"ק ב"ד מביאין על ידיהן פר והן פטורין:
ולא בעבודת כוכבים — אין חייבין קרבן:
Rashi esclarece que “decidiu”, no início da mishná, refere-se ao próprio Sumo Sacerdote decidindo sozinho — por exemplo, quando ele e o tribunal decidiram sobre duas proibições diferentes (ele quanto ao sebo proibido, eles quanto à idolatria). Sobre “expia-se por si mesmo”, explica que ele traz um touro separado — pois, se ele decidiu sozinho e o tribunal não decidiu nada, seria óbvio pelo próprio versículo que ele deve trazer o touro; a mishná só precisa ensinar esse caso quando ambos, ele e o tribunal, decidiram sobre proibições diferentes, e ainda assim ele expia-se à parte. Já “decidiu com a congregação” refere-se ao caso em que ele e o tribunal decidiram sobre a mesma proibição (por exemplo, ambos quanto ao sebo). Explica que ele se expia com o touro do tribunal porque, em muitos aspectos, o sacerdote ungido é equiparado ao tribunal — inclusive na regra de que nenhum dos dois se obriga sem decidir “anular parte e manter parte” — e, sendo assim equiparados, quando ambos decidem e agem juntos com a congregação, ele se expia junto com ela. Nota ainda que a expressão “pois o tribunal não é obrigado”, sem mencionar explicitamente a congregação, segue a opinião anônima de Rabi Meir, para quem é o tribunal (e não a congregação) quem traz o touro, ficando esta isenta.