Seder Nezikin · Massechet Horayot · Perek Bet · Mishná 1 de 7

A decisão do sacerdote ungido para si mesmo

הוֹרָה כֹהֵן מָשִׁיחַ לְעַצְמוֹ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Quando o Sumo Sacerdote decide para si mesmo, de modo inadvertido, e age de modo inadvertido segundo sua própria decisão.
O sacerdote ungido decidiu para si mesmo — de modo inadvertido — e agiu de modo inadvertido: traz um touro.
הוֹרָה כֹהֵן מָשִׁיחַ לְעַצְמוֹ, שׁוֹגֵג וְעָשָׂה שׁוֹגֵג, מֵבִיא פָר.
Quando há descompasso entre a decisão e o ato — um inadvertido e o outro deliberado, em qualquer ordem — o Sumo Sacerdote fica isento, pois sua decisão para si mesmo equivale à decisão do tribunal para a congregação.
Decidiu de modo inadvertido e agiu de modo deliberado; ou decidiu de modo deliberado e agiu de modo inadvertido: está isento — pois a decisão do sacerdote ungido para si mesmo é como a decisão do tribunal para a congregação.

— Abre o Perek Bet voltando-se ao caso do próprio Sumo Sacerdote (kohen mashiach, "o ungido", assim chamado por ter sido consagrado com o óleo da unção): quando ele mesmo, valendo-se de sua autoridade de decisor, erra ao permitir para si algo proibido pela Torá, e depois transgride de fato segundo aquele erro, a mishná o equipara ao próprio tribunal que erra para toda a congregação. Assim como o tribunal só se torna responsável pelo touro comunitário quando sua decisão equivocada é seguida por um ato inadvertido da congregação com base nela — e não quando a congregação simplesmente erra por conta própria, nem quando o tribunal decide corretamente mas o povo transgride por vontade própria —, também o Sumo Sacerdote só traz o touro individual quando a mesma dupla condição se cumpre nele: que ele tenha decidido por engano, e que, por causa exatamente desse engano, ele mesmo tenha agido de modo inadvertido. Se decidiu inadvertidamente mas depois transgrediu de propósito — abandonando conscientemente sua própria decisão equivocada —, ou se decidiu de propósito (sabendo que a ação era proibida, talvez emitindo uma decisão insincera) mas depois a executou por engano, não há a correspondência exigida entre decisão e ato, e ele fica isento de qualquer oferenda, tal como ocorreria com o tribunal em circunstância análoga.
שׁוֹגֵג וְעָשָׂה מֵזִיד, מֵזִיד וְעָשָׂה שׁוֹגֵג, פָּטוּר, שֶׁהוֹרָאַת כֹּהֵן מָשִׁיחַ לְעַצְמוֹ, כְהוֹרָאַת בֵּית דִּין לַצִּבּוּר:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת

Vayikrá 4:3
אִם הַכֹּהֵן הַמָּשִׁיחַ יֶחֱטָא לְאַשְׁמַת הָעָם, וְהִקְרִיב עַל חַטָּאתוֹ אֲשֶׁר חָטָא פַּר בֶּן בָּקָר תָּמִים לַה' לְחַטָּאת.
“Se o sacerdote ungido pecar, para culpa do povo, trará por seu pecado que pecou um touro, filho de vaca, sem defeito, ao Eterno, como sacrifício de pecado” — este é o versículo de abertura das leis do sacerdote ungido em Vayikrá, fundamento de todo o Perek Bet: a expressão “para culpa do povo” (לְאַשְׁמַת הָעָם) é lida pelos sábios como equiparação — a culpa do Sumo Sacerdote assemelha-se, em sua estrutura, à culpa do povo decorrente de uma decisão errada do tribunal, e é dessa equiparação que a mishná deriva a exigência de que a decisão equivocada do próprio sacerdote preceda e determine seu ato inadvertido.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Horayot 2:1
הורה כהן משיח לעצמו שוגג וכו': אמר בפרשת ויקרא אם הכהן המשיח יחטא וגו' והקריב על חטאתו אשר חטא פר בן בקר לחטאת וזה הפר הוא שנקרא פר הבא על כל מצות ואמרו לאשמת העם דבר על שגגת המעשה כמו שקדם לנו שהוא צריך שיורו בשגגה ויהיו עושים בשגגה על פיהם כמו כן המשיח לא יביא אלא על העלם דבר עם שגגת המעשה והוא עצמו שיעשה בשגגה על הוראתו שהורה לעצמו בשגגה וכבר נתבאר בהוראת ב"ד לציבור כי אם היה ב"ד בשני הפנים פטור כמו כן יהיה הוא בכמו אלה שני הענינים פטור מן הקרבן כי המזיד אינו חייב קרבן ומתנאי זה הכהן המשיח שיהיה חכם מופלא ויורה בפני עצמו ואז חייב כפרה בפני עצמו אבל כשהוא אינו מופלא או שנשתתף עם ב"ד בהוראה ועשה בכלל העושין כשהוא סומך על הוראתו עם הוראת ב"ד הרי הוא כמו איש אחד מב"ד שסומך על הוראת העדה אשר הוא ממנה ודינו כדין איש אחד משאר העם אם היו העושין רוב הקהל הוא יתכפר לו עם הציבור ואם היו מיעוט הוא אחד מהם: לבטל מקצת ולקיים מקצת כפי מה שהתנה בב"ד וג"כ צריך העלם דבר עם שגגת המעשה ואינו חייב אשם תלוי כשהוא מסתפק ולא נודע לו כגון ב"ד עם הציבור ועוד יתבאר זה:

Rambam explica que o versículo “se o sacerdote ungido pecar, para culpa do povo” introduz o touro chamado “o touro que vem por todos os preceitos”, e que a expressão “para culpa do povo” ensina que, tal como o tribunal só se obriga quando decide por engano e a congregação age por engano segundo essa decisão, também o sacerdote ungido só traz oferenda pelo ocultamento do assunto junto com o erro da ação — sendo ele mesmo quem age de modo inadvertido com base em sua própria decisão equivocada. Esclarece ainda que essa condição pressupõe que o Sumo Sacerdote seja um sábio destacado (מוּפְלָא), capaz de decidir por conta própria; caso contrário, ou caso tenha decidido em conjunto com o tribunal e agido junto com a maioria da congregação, seu caso se equipara ao de um indivíduo comum dentre o povo, expiando-se junto com a congregação se esta for maioria, ou como indivíduo isolado se for minoria. Antecipa também que, tal como o tribunal, é preciso “anular parte e manter parte” do preceito, e que o sacerdote ungido nunca traz sacrifício de culpa suspensa (אָשָׁם תָּלוּי) por dúvida, assunto que será desenvolvido adiante.

Bartenura · Horayot 2:1
הוֹרָה כֹהֵן מָשִׁיחַ. כֹּהֵן גָּדוֹל הַמָּשׁוּחַ בְּשֶׁמֶן הַמִּשְׁחָה הוֹרָה הֶתֵּר לְעַצְמוֹ וְעָשָׂה מַעֲשֶׂה בְּעַצְמוֹ בְּדָבָר שֶׁחַיָּבִים עַל זְדוֹנוֹ כָּרֵת.

Bartenura explica, de modo conciso, que “o sacerdote ungido decidiu” refere-se ao Sumo Sacerdote consagrado com o óleo da unção, que decidiu para si mesmo permitir algo proibido, e depois efetivamente transgrediu, em algo cuja violação deliberada acarreta carét — extirpação espiritual.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ״י
Rashi sobre a Guemará de Horayot, 6b
פרק שני — הורה כהן משיח

מתני' הורה כהן משיח — הורה שוגג ועשה מזיד או שהורה מזיד ועשה שוגג פטור מקרבן שהוראת כהן משיח לעצמו כהוראת ב"ד לצבור מה הוראת ב"ד לצבור אין חייבין אלא על העלם דבר עם שגגת מעשה אף הוראת כהן משיח לעצמו אינו חייב אלא על העלם דבר עם שגגת מעשה כדמפרש בגמרא לאשמת העם הרי משיח כצבור וכי הורו בית דין מזידין ועשו קהל שוגגין לא הוי הוראה והוי שגגת מעשה לחודיה והוו יחידין ומייתו כל חד וחד כשבה או שעירה אבל כהן משיח כי הורה מזיד ועשה שוגג לא דיניה כיחיד ופטור לגמרי דהכי אמרינן בפרק בתרא (דף יא.) מעם הארץ פרט למשיח דאינו מביא קרבן בשגגת מעשה:

Rashi assinala que o Perek Bet se abre com o título “decidiu o sacerdote ungido”, e explica a estrutura da mishná: se decidiu de modo inadvertido e agiu de modo deliberado, ou decidiu de modo deliberado e agiu de modo inadvertido, está isento de qualquer oferenda, porque a decisão do sacerdote ungido para si mesmo equivale à decisão do tribunal para a congregação — assim como o tribunal só se obriga pelo ocultamento do assunto junto com o erro da ação, também o sacerdote ungido só se obriga por essa mesma dupla condição, como se explicará no versículo “para culpa do povo”, que equipara o sacerdote ungido à congregação. Explica ainda que, quando o tribunal decide deliberadamente e a congregação age por engano, não há decisão válida, tratando-se apenas de erro de ação isolado, de modo que cada um dos que transgrediram é tratado como indivíduo e traz uma cordeira ou uma cabra; mas o Sumo Sacerdote, quando decide de propósito e age por engano, não recebe esse mesmo tratamento de indivíduo comum — fica totalmente isento, pois, como se ensina adiante no tratado, a expressão “do povo da terra” exclui explicitamente o sacerdote ungido, que não traz oferenda por mero erro de ação isolado, sem que tenha havido decisão equivocada de sua parte.