Rabi Tarfon diz: os mamzerim podem se purificar. Como? Um mamzer que desposou uma escrava — o filho é escravo. [Se ele] o libertou, eis que o filho se torna homem livre. Rabi Eliezer diz: eis que este é um escravo mamzer. — Continuando o princípio da mishná anterior — de que o filho de escrava é escravo, seguindo o status materno —, Rabi Tarfon propõe uma via de ‘purificação’ para a linhagem mamzer: se um mamzer se casa com uma escrava, o filho nasce escravo — e um escravo, por definição, não carrega o status de mamzer, já que escravos não têm linhagem (yuchassin) alguma reconhecida pela lei judaica. Se, depois, o dono liberta esse filho, ele se torna um homem livre comum — e, tendo perdido toda ligação de linhagem tanto com a condição de escravo quanto com a de mamzer (pois um liberto é, para efeitos jurídicos, ‘como um recém-nascido’), sua descendência futura já não carrega mais a marca da mamzerut original. Rabi Eliezer discorda frontalmente dessa estratégia: para ele, mesmo depois de libertado, o filho continua sendo tecnicamente um ‘escravo mamzer’ — a alforria não apaga completamente o vínculo original com a linhagem proibida, e a via de purificação proposta por Rabi Tarfon não é reconhecida como eficaz.
Rambam esclarece que Rabi Tarfon não discorda no caso inverso — o de um escravo (não mamzer) que se casa com uma mamzeret —, onde todos concordam que o filho é mamzer, pois escravos não têm linhagem alguma que possa ‘purificar’ a mãe; a disputa existe apenas quando é o mamzer, e não a escrava, quem carrega o status a ser dissolvido. E Rabi Tarfon permite essa estratégia mesmo de início (lechatchilá). Rambam conclui que a halachá segue Rabi Tarfon.
Bartenura confirma que, segundo Rabi Tarfon, um mamzer pode legitimamente, mesmo de início, casar-se com uma escrava com o propósito específico de purificar sua futura descendência — e que a halachá segue Rabi Tarfon. Acrescenta que mesmo Rabi Tarfon concorda que, no caso inverso — um escravo comum que se casa com uma mamzeret —, o filho é mamzer, pois o escravo não tem linhagem alguma capaz de neutralizar o status materno.
Rashi explica que a proposta de Rabi Tarfon visa especificamente livrar a futura descendência do próprio status de mamzer, não do escravo em si: o filho nascido da união com a escrava é escravo, e não mamzer, exatamente porque segue o status materno; uma vez libertado, ele se torna um homem livre comum, apto a se casar com qualquer filha de Israel — rompendo definitivamente a cadeia de mamzerut. Sobre a posição contrária de Rabi Eliezer, Rashi observa que a Guemará traz e discute o fundamento pelo qual, para ele, mesmo depois de liberto, o filho continua carregando o status técnico de ‘escravo mamzer’.
Com esta mishná encerra-se o Perek Guimel de Massechet Kidushin — treze mishnayot dedicadas aos casos mais complexos de kidushin condicional (tenaim), ao kidushin por agente, às declarações do pai sobre a filha menor, e à extensa mishná sobre a linhagem do filho segundo a validade e a licitude da união dos pais (3:12), com sua disputa final sobre a purificação da descendência mamzer. O tratado prossegue no Perek Dalet, o último de Massechet Kidushin, com a presunção de linhagem, as famílias que subiram da Babilônia, e os ofícios recomendados e desaconselhados.