Seder Nashim · Massechet Kidushin · Perek Dalet · Mishná 1 de 14

As dez linhagens que subiram da Babilônia

עֲשָׂרָה יוֹחֲסִין עָלוּ מִבָּבֶל
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Abrindo o Perek Dalet, a mishná enumera as dez categorias de linhagem (yuchassin) que, segundo a tradição, subiram da Babilônia com Ezra para a Terra de Israel, antes da construção do Segundo Templo — e estabelece, em três grupos concêntricos, quais delas podem se casar entre si.

Dez linhagens subiram da Babilônia: sacerdotes, levitas, israelitas, chalalim, convertidos e libertos, mamzerim, guibeonitas, shetukim e assufim.Segundo a tradição transmitida nesta mishná, quando Ezra subiu da Babilônia para reconstruir a vida judaica na Terra de Israel, ele trouxe consigo — e assim separou da massa dos exilados — representantes de todas as dez categorias de linhagem então reconhecidas: os cohanim (sacerdotes), os leviim (levitas) e os israelitas de linhagem plena; os chalalim, descendentes de uniões sacerdotais proibidas; os guerim (convertidos) e os charurim (escravos libertados); os mamzerim, nascidos de uniões proibidas sob pena de karet; os netinim, descendentes dos guibeonitas que se converteram nos dias de Josué; e, por fim, os shetukim e os assufim, cuja linhagem é incerta — categorias que a mishná seguinte define.

עֲשָׂרָה יוֹחֲסִין עָלוּ מִבָּבֶל, כַּהֲנֵי, לְוִיֵּי, יִשְׂרְאֵלֵי, חֲלָלֵי, גֵּרֵי, וַחֲרוּרֵי, מַמְזֵרֵי, נְתִינֵי, שְׁתוּקֵי, וַאֲסוּפֵי:
A mishná organiza as dez linhagens em três círculos concêntricos de permissão matrimonial: os mais restritos podem se casar apenas entre si; os intermediários se abrem a um círculo mais amplo; e os de status mais incerto ou mais baixo podem todos se casar livremente entre si.

Sacerdotes, levitas e israelitas são permitidos a vir uns com os outros. Levitas, israelitas, chalalim, convertidos e libertos são permitidos a vir uns com os outros. Convertidos e libertos, mamzerim e guibeonitas, shetukim e assufim — todos são permitidos a vir uns com os outros.A mishná traça três círculos sucessivos, cada um mais amplo que o anterior. No primeiro, mais restrito, apenas cohanim, leviim e israelitas — as três linhagens de status pleno — podem se casar entre si. No segundo, o círculo se amplia para incluir leviim, israelitas, chalalim, convertidos e libertos — de modo que, por exemplo, um levita já pode se casar com uma convertida, mas não um cohen. No terceiro círculo, o mais amplo, todas as linhagens de status inferior ou incerto — convertidos e libertos, mamzerim, guibeonitas, shetukim e assufim — podem se casar livremente entre si, ainda que não com israelitas de linhagem plena.

כַּהֲנֵי, לְוִיֵּי וְיִשְׂרְאֵלֵי, מֻתָּרִים לָבֹא זֶה בָזֶה. לְוִיֵּי, יִשְׂרְאֵלֵי, חֲלָלֵי, גֵּרֵי וַחֲרוּרֵי, מֻתָּרִים לָבֹא זֶה בָזֶה. גֵּרֵי וַחֲרוּרֵי, מַמְזֵרֵי וּנְתִינֵי שְׁתוּקֵי וַאֲסוּפֵי, כֻּלָּם מֻתָּרִין לָבֹא זֶה בָזֶה:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Kidushin 4:1
עֲשָׂרָה יוֹחֲסִין עָלוּ מִבָּבֶל כְּשֶׁעָלָה עֶזְרָא מִבָּבֶל לֹא הִנִּיחַ בָּהֶם פְּסוּל בְּשׁוּם פָּנִים, אֶלָּא כֹּהֲנִים לְוִיִּם וְיִשְׂרְאֵלִים מְיֻחָסִים. וְכֵן אָמְרוּ: לֹא עָלָה עֶזְרָא מִבָּבֶל עַד שֶׁעֲשָׂאָהּ כְּסֹלֶת נְקִיָּה, וְהֶעֱלָה עִמּוֹ אֵלּוּ הָעֲשָׂרָה מִשְׁפָּחוֹת מִפְּנֵי שֶׁחָשַׁשׁ שֶׁמָּא יִתְעָרְבוּ עִמָּם אַחַר שֶׁלֹּא הָיָה שָׁם בֵּית דִּין הַגָּדוֹל שֶׁיִּשְׁתַּדְּלוּ עַל כָּךְ. וּנְתִינִים הֵם הַגִּבְעוֹנִים שֶׁנִּתְגַּיְּרוּ בִּימֵי יְהוֹשֻׁעַ.

Rambam explica que, quando Ezra subiu da Babilônia, ele não deixou naquela terra nenhum resquício de linhagem defeituosa — apenas cohanim, leviim e israelitas de linhagem plena permaneceram lá sem que ele os separasse. Por isso os Sábios disseram que Ezra não subiu da Babilônia sem primeiro fazer dela algo como “farinha pura”: ele trouxe consigo essas dez famílias precisamente porque temia que, sem um grande tribunal na Babilônia para zelar pela pureza das linhagens, elas viessem a se misturar indevidamente com as famílias de linhagem plena. E os netinim, esclarece Rambam, são os descendentes dos guibeonitas que se converteram nos dias de Josué.

Bartenura · Kidushin 4:1
עֲשָׂרָה יוֹחֲסִין עָלוּ מִבָּבֶל. שֶׁהִפְרִישׁ עֶזְרָא כָּל הַפְּסוּלִים שֶׁהָיוּ בְּבָבֶל וְהוֹלִיכָן עִמּוֹ, כְּדֵי שֶׁלֹּא יִתְעָרְבוּ עִם הַמְיֻחָסִין, מֵאַחַר שֶׁאֵין שָׁם בֵּית דִּין. חֲלָלֵי — כֹּהֲנִים שֶׁנּוֹלְדוּ מִן הַפְּסוּלוֹת לַכְּהֻנָּה. חֲרוּרֵי — עֲבָדִים מְשֻׁחְרָרִים. נְתִינֵי — גִּבְעוֹנִים שֶׁמָּלוּ בִּימֵי יְהוֹשֻׁעַ, וְנֶאֶסְרוּ לָבֹא בַקָּהָל. גֵּרֵי וַחֲרוּרֵי מַמְזֵרִין כוּ' כֻּלָּם מֻתָּרִין לָבֹא זֶה בָזֶה — דִּקְהַל גֵּרִים לֹא אִקְּרֵי קָהָל.

Bartenura confirma que Ezra separou todos os desqualificados que havia na Babilônia e os trouxe consigo, precisamente para que não se misturassem, na Babilônia, com as famílias de linhagem íntegra, já que ali não havia tribunal para zelar por isso. Define os chalalim como cohanim nascidos de uniões desqualificantes para o sacerdócio; os charurim como escravos libertados; e os netinim como os guibeonitas que se circuncidaram nos dias de Josué e foram proibidos de entrar na assembleia. Sobre o terceiro grupo — todos permitidos entre si —, explica que uma “assembleia de convertidos” não é chamada tecnicamente de “assembleia” (kahal) para efeitos da proibição bíblica, razão pela qual mamzerim podem se casar com convertidos sem violar a proibição de o mamzer “entrar na assembleia do Eterno”.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi · רש״י
Kiddushin 69b, s.v. דברי ריבות בשעריך וקמת ועלית; אשר העלה ואשר הביא את בני ישראל מארץ צפון
דִּבְרֵי רִיבוֹת בִּשְׁעָרֶיךָ וְקַמְתָּ וְעָלִיתָ וְגוֹ' — מִכָּאן שֶׁהַמִּקְדָּשׁ גָּבוֹהַּ מִכָּל אֶרֶץ יִשְׂרָאֵל, דְּכָל צְדָדֶיהָ סְתָם וְכָתַב וְעָלִיתָ: אֲשֶׁר הֶעֱלָה וַאֲשֶׁר הֵבִיא אֶת בְּנֵי יִשְׂרָאֵל מֵאֶרֶץ צָפוֹן — דְּהַיְנוּ בָּבֶל, וּמִכָּל הָאֲרָצוֹת אֲשֶׁר הִדַּחְתִּים שָׁם, וּכְתִיב אֲשֶׁר הֶעֱלָה:

A Guemará, ao discutir a expressão “subiram da Babilônia” com que se abre esta mishná, observa que a própria Torá já emprega a linguagem de “subida” (aliyah) para qualquer deslocamento em direção a Jerusalém e ao Templo — daí o versículo sobre levar disputas “às tuas portas” e então “te levantarás e subirás” ao lugar que o Eterno escolher, do qual Rashi deriva que o Templo está, em termos jurídicos, mais elevado que qualquer outro ponto da Terra de Israel. E cita o versículo de Jeremias sobre o Eterno que “fez subir” e “trouxe” os filhos de Israel “da terra do norte” — isto é, da Babilônia, e de todas as terras para onde os havia dispersado —, mostrando que a mesma linguagem de “subida” usada por essa mishná para o retorno de Ezra ecoa a linguagem profética sobre o retorno de todo o povo do exílio.