‘Consagrei minha filha’ — ‘eu a consagrei e a divorciei enquanto ela era menor, e eis que ela ainda é menor’ — ele é confiável. ‘Eu a consagrei e a divorciei enquanto ela era menor, e eis que ela já é maior’ — ele não é confiável. ‘Ela foi cativada e eu a resgatei’ — seja ela menor ou maior — ele não é confiável. Aquele que, na hora de sua morte, diz: ‘Tenho filhos’ — ele é confiável. ‘Tenho irmãos’ — ele não é confiável. Aquele que consagra sua filha sem especificar [qual], as maiores não estão incluídas. — A Torá confere ao pai autoridade exclusiva sobre o casamento da filha enquanto ela é menor — e, por extensão, também sobre seu divórcio, desde que ele afirme que tanto o kidushin quanto o guet ocorreram nesse período: se, no momento em que fala, ela ainda é menor, sua palavra é aceita, pois a autoridade paterna ainda está em vigor. Mas se ela já é maior no momento da declaração, ele não é mais confiável, porque sua autoridade sobre ela já cessou, e uma afirmação retroativa sobre o passado não pode desqualificá-la agora que está fora de seu domínio. Sobre o cativeiro, a mishná é ainda mais restritiva: mesmo que ela seja menor, o pai não é confiável para declará-la resgatada de cativeiro — o que a tornaria suspeita de relação proibida e a desqualificaria para o sacerdócio —, pois a Torá lhe concedeu autoridade apenas sobre o casamento, não sobre fatos alheios a essa esfera. Já a declaração em leito de morte segue lógica distinta: dizer ‘tenho filhos’ é confiável porque liberta a esposa do vínculo do levirato; mas dizer ‘tenho irmãos’ — o que sujeitaria a esposa ao levirato — não é confiável, pois contraria a presunção anterior de que ela estava livre. Por fim, a mishná fecha com uma regra geral: quando o pai consagra ‘minha filha’ sem especificar qual delas, presume-se que ele se refere apenas às filhas ainda menores ou adolescentes, sob sua autoridade — as filhas já maiores, fora de seu domínio, nunca estão incluídas nessa consagração genérica.
Rambam fundamenta a confiabilidade do pai sobre a filha menor no versículo ‘Dei minha filha a este homem’ (Devarim 22): ao mencionar ‘este homem’, a Torá o autoriza a proibi-la a todos os demais; ao poder identificar ‘este’ outro homem depois, ele a libera para ele — por isso ele é confiável para declará-la divorciada, desde que ainda menor. Mas se ela já é maior, sua palavra não a desqualifica mais do sacerdócio. Sobre o cativeiro, a Torá confiou nele apenas quanto ao casamento, não quanto ao cativeiro. E quando um pai consagra genericamente muitas filhas, todas ficam proibidas ao homem que se apresenta, e cada uma precisa de get, exceto as já maiores, como dito.
Bartenura detalha cada cláusula: ‘e a divorciei’ significa que ele recebeu o get dela; ‘e eis que é menor’ refere-se ao momento em que ele fala; e sua confiabilidade decorre do versículo ‘Dei minha filha a este homem’ — ao dizer ‘a este’, ele a proíbe a todos, e ao esclarecer depois ‘a este outro’, ele a libera. Se ela já é maior quando ele fala, sem ter dito isso antes enquanto menor, ele não é confiável. Sobre o cativeiro, a Torá confiou no pai apenas quanto ao casamento da filha, não quanto ao cativeiro. ‘Tenho filhos’ evita o levirato; ‘tenho irmãos’ o impõe, revertendo a presunção anterior de liberdade. E as filhas maiores não estão incluídas na consagração genérica porque já não estão sob autoridade do pai para serem consagradas por ele — mesmo que a maior o tenha designado como seu agente, presume-se que ninguém abandonaria o cumprimento de um dever que lhe é atribuído (consagrar as menores) para cumprir um que não lhe é atribuído (a maior); por isso, todas as menores e adolescentes precisam de get por dúvida, já que não se sabe qual delas foi de fato consagrada.
Rashi esclarece cada expressão técnica da mishná: ‘a divorciei’ significa que o pai recebeu o get em nome dela; a palavra do pai é confiável para desqualificá-la do sacerdócio apenas quando, no momento em que ele fala, ela ainda é menor; se ele só faz essa afirmação depois que ela já cresceu, sem tê-la feito antes, ele não é confiável, e ela permanece apta a se casar com um cohen. Sobre o cativeiro, Rashi observa que a mulher cativa fica desqualificada para o sacerdócio por dúvida de ter sido violada (safek zoná) — e a Guemará discute e explica por que, nesse ponto específico, mesmo o pai não é uma fonte confiável.