Como assim? Duas mulheres, esta com dois ninhos e aquela com dois ninhos: se [um filhote] voou desta para aquela, desqualifica um em seu ir. Se voltou, desqualifica um em seu voltar. Se voou e voltou, voou e voltou [repetidamente], não se perde mais nada, pois, mesmo que estejam misturadas, não há menos de duas [válidas].
A mishná ilustra a regra anterior com números concretos. Cada mulher tem dois ninhos não designados (quatro aves cada). Um filhote voa do grupo de uma para o da outra: agora há três aves de um lado e cinco do outro. Das três, só se pode oferecer duas (uma chatat, uma olá); das cinco, também apenas duas de cada tipo — uma ave a mais em cada lado torna-se irremediavelmente desqualificada, pois não se sabe se é a ave original ou a intrusa. Se, em seguida, um filhote voa de volta, cada grupo passa a ter quatro aves, e novamente se perde uma de cada lado. Mas o ponto central da mishná é que, depois desse primeiro ir-e-vir, voos e retornos adicionais — ainda que se repitam mil vezes — não acrescentam nenhuma perda além da já ocorrida: o piso mínimo de aves válidas está garantido pela regra geral de mistura entre obrigatórias iguais (1:3), segundo a qual, mesmo em confusão total, metade do total permanece válida — nunca menos de dois ninhos completos entre os quatro originais.
Rambam esclarece que, em todas essas halachot, “voltou” não significa que a mesma ave voltou, mas que, depois que uma ave voou de um grupo para outro, alguma ave voou de volta ao primeiro grupo — podendo ser a mesma ou outra. Exemplo: junto a Rachel, dois ninhos; junto a Lea, dois ninhos; um filhote voa de Rachel para Lea — agora há cinco aves junto a Lea e três junto a Rachel. Das cinco de Lea, apenas três são válidas (duas se perdem: a que voou, e uma em seu lugar); das três de Rachel, ao oferecer duas para um lado e uma para o outro, uma das duas é necessariamente válida.
Se depois uma das cinco de Lea voar de volta, misturando-se com as três de Rachel, perde-se, nesse retorno, mais uma de cada lado: restam a Rachel apenas duas válidas das quatro que voltaram a ela, e a Lea, igualmente, duas válidas das quatro que lhe restaram. Mas esse julgamento vale apenas para o primeiro retorno; tudo o que ocorrer depois — ainda que voe e volte mil vezes — não acrescenta perda alguma, pois o limite máximo de perda, numa mistura completa, é sempre metade válida e metade desqualificada, como se ensinou no primeiro capítulo: dos oito (quatro de cada mulher), quatro permanecem válidos — dois para cada uma — e é isso “não há menos de duas”.
Tudo isso vale para dois ninhos contra dois ninhos; se o número for maior, perde-se também no segundo, terceiro e quarto retorno, na proporção do número maior, como a próxima mishná explicará.
Bartenura explica: “voou” — uma única ave desta para aquela. “Desqualifica um em seu ir”: do lugar de onde se separou; e o desqualificado é ela mesma, ou outra, no lugar onde se misturou. Pois, quando uma ave voa de dois ninhos para outros dois, ficam três aves de um lado e cinco do outro; das três, só se oferecem duas (uma olá, uma chatat), pois, se fizerem duas olot, a terceira ficaria fixada como chatat pela regra da chatat misturada com a obrigatória (1:2); e das cinco, também apenas duas chatot e duas olot, pois, se fizerem três de um tipo, talvez as façam de dois ninhos de uma só mulher — e de dois ninhos só se podem fazer duas chatot e duas olot.
“Se voltou, desqualifica um em seu voltar”: se uma das cinco aves voa de volta para as três, resultando quatro de cada lado, desqualifica-se novamente uma em cada lado, pelo mesmo raciocínio — pois não se sabe se a ave que voou de volta é a mesma que veio antes, ou uma das aves originais daquele grupo. Por isso, em cada lugar, só se pode oferecer uma olá e uma chatat (ou, no máximo, duas de um tipo e uma do outro, desde que o total permaneça consistente). E se voltarem a se misturar juntas, nunca terão menos de dois ninhos válidos ao todo.