Seder Nezikin · Massechet Makot · Perek Bet · Mishná 6 de 8

Até a morte do Sumo Sacerdote

רַבִּי יוֹסֵי בַּר יְהוּדָה אוֹמֵר, בַּתְּחִלָּה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Rabi Yosei bar Yehudá descreve o procedimento original: tanto o homicida intencional quanto o involuntário se adiantavam para as cidades de refúgio, de onde o tribunal os trazia de volta para julgamento — e, conforme o veredito, eram executados, absolvidos, ou devolvidos ao exílio.

Rabi Yosei bar Yehudá diz: no princípio, tanto o involuntário quanto o intencional se adiantavam para as cidades de refúgio, e o tribunal enviava e o trazia de lá. Aquele que foi considerado culpado de morte pelo tribunal, matavam-no; e aquele que não foi considerado culpado de morte, absolviam-no. Aquele que foi considerado culpado de exílio, devolviam-no ao seu lugar, como está dito (Bamidbar 35): "e a congregação o devolverá à sua cidade de refúgio" etc.Rabi Yosei bar Yehudá revela uma etapa processual anterior ao próprio julgamento: originalmente, qualquer pessoa que houvesse matado outra — fosse por erro genuíno, fosse deliberadamente — corria de imediato para uma cidade de refúgio, antes mesmo de o caso ser julgado, como refúgio provisório enquanto se aguardava a investigação. Somente depois o tribunal enviava emissários para buscá-la e submetê-la a julgamento formal. O resultado desse julgamento determinava seu destino final: se ficasse provado que agiu com plena intenção, era condenado à morte e executado ali mesmo; se ficasse provado que não havia culpa alguma — nem mesmo de erro genuíno, por exemplo, se a morte fosse resultado de acidente puro sem qualquer negligência —, era simplesmente libertado, sem exílio nem pena; e se ficasse provado tratar-se de homicídio por erro genuíno, o tribunal o devolvia à cidade de refúgio de onde viera, agora oficialmente como exilado. A mishná deriva esse procedimento de devolução do próprio texto bíblico, que pressupõe que o homicida já estava numa cidade de refúgio antes do julgamento.

רַבִּי יוֹסֵי בַּר יְהוּדָה אוֹמֵר, בַּתְּחִלָּה, אֶחָד שׁוֹגֵג וְאֶחָד מֵזִיד מַקְדִּימִין לְעָרֵי מִקְלָט, וּבֵית דִּין שׁוֹלְחִין וּמְבִיאִין אוֹתוֹ מִשָּׁם. מִי שֶׁנִּתְחַיֵּב מִיתָה בְּבֵית דִּין, הֲרָגוּהוּ. וְשֶׁלֹּא נִתְחַיֵּב מִיתָה, פְּטָרוּהוּ. מִי שֶׁנִּתְחַיֵּב גָּלוּת, מַחֲזִירִין אוֹתוֹ לִמְקוֹמוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר (במדבר לה) וְהֵשִׁיבוּ אֹתוֹ הָעֵדָה אֶל עִיר מִקְלָטוֹ וְגוֹ'.
A mishná define qual morte de Sumo Sacerdote liberta o exilado — qualquer um dos três modos de consagração ao cargo — e a razão comovente pela qual as mães dos sacerdotes cuidavam do sustento dos exilados.

Tanto [a morte de] um sacerdote ungido com o óleo da unção, quanto de um consagrado por múltiplas vestes, quanto de um que se afastou de sua unção — todos fazem retornar o homicida. Rabi Yehudá diz: também [a morte do sacerdote] ungido para a guerra faz retornar o homicida. Por isso as mães dos sacerdotes forneciam a eles sustento e vestimenta, para que não rezassem pela morte de seus filhos.Ao longo da história do Templo, os Sumos Sacerdotes foram consagrados de três formas diferentes: pela unção com o óleo sagrado (prática do Primeiro Templo, até o óleo ser escondido); por vestir as oito vestimentas exclusivas do cargo (prática do Segundo Templo, quando já não havia unção); e o caso do sacerdote que serviu temporariamente no lugar de um Sumo Sacerdote impedido, e depois "se afastou" de sua função quando o titular retornou. A mishná estabelece que a morte de qualquer um desses — mesmo que os outros dois ainda estejam vivos — já basta para libertar o exilado, pois o versículo bíblico menciona três vezes a expressão "o Sumo Sacerdote". Rabi Yehudá acrescenta uma quarta categoria: o sacerdote ungido especificamente para exortar os soldados antes da guerra. A consequência prática e humana dessa lei é notável: como a permanência do exilado dependia da vida contínua do Sumo Sacerdote, as próprias mães dos sacerdotes cuidavam de suprir os exilados com alimento e roupa — um gesto de compaixão calculada para que ninguém, na cidade de refúgio, tivesse motivo para desejar ou rezar pela morte prematura de seus filhos.

אֶחָד מָשׁוּחַ בְּשֶׁמֶן הַמִּשְׁחָה וְאֶחָד הַמְרֻבֶּה בִבְגָדִים וְאֶחָד שֶׁעָבַר מִמְּשִׁיחָתוֹ, מַחֲזִירִין אֶת הָרוֹצֵחַ. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, אַף מְשׁוּחַ מִלְחָמָה מַחֲזִיר אֶת הָרוֹצֵחַ. לְפִיכָךְ אִמּוֹתֵיהֶן שֶׁל כֹּהֲנִים מְסַפְּקוֹת לָהֶן מִחְיָה וּכְסוּת, כְּדֵי שֶׁלֹּא יִתְפַּלְּלוּ עַל בְּנֵיהֶם שֶׁיָּמוּתוּ.
A mishná fecha com a regra temporal precisa que determina se a morte do Sumo Sacerdote liberta ou não o exilado, conforme ela ocorra antes ou depois da conclusão do julgamento.

Se, depois que seu julgamento foi concluído, morreu o Sumo Sacerdote — eis que este não é exilado. Se, antes que seu julgamento fosse concluído, morreu o Sumo Sacerdote e nomearam outro em seu lugar, e depois disso se concluiu seu julgamento — ele retorna com a morte do segundo.A mishná fixa um marco temporal preciso: se o julgamento do homicida já havia sido formalmente concluído — condenando-o ao exílio — antes de o Sumo Sacerdote morrer, essa morte já o liberta imediatamente, sem sequer chegar a cumprir o exílio de fato. Mas se o Sumo Sacerdote morreu antes de o julgamento estar concluído, e um segundo foi nomeado em seu lugar, e só então o julgamento do homicida se completou — a morte do primeiro Sumo Sacerdote, ocorrida antes da sentença, não conta para libertá-lo; ele deve aguardar a morte do segundo, o que estava em funções no momento em que sua sentença de exílio efetivamente se concretizou.

מִשֶּׁנִּגְמַר דִּינוֹ מֵת כֹּהֵן גָּדוֹל, הֲרֵי זֶה אֵינוֹ גוֹלֶה. אִם עַד שֶׁלֹּא נִגְמַר דִּינוֹ מֵת כֹּהֵן גָּדוֹל וּמִנּוּ אַחֵר תַּחְתָּיו, וּלְאַחַר מִכֵּן נִגְמַר דִּינוֹ, חוֹזֵר בְּמִיתָתוֹ שֶׁל שֵׁנִי:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

Bamidbar 35:25,28 — o retorno até a morte do Sumo Sacerdote
וְהִצִּילוּ הָעֵדָה אֶת הָרֹצֵחַ מִיַּד גֹּאֵל הַדָּם, וְהֵשִׁיבוּ אֹתוֹ הָעֵדָה אֶל עִיר מִקְלָטוֹ אֲשֶׁר נָס שָׁמָּה, וְיָשַׁב בָּהּ עַד מוֹת הַכֹּהֵן הַגָּדֹל אֲשֶׁר מָשַׁח אֹתוֹ בְּשֶׁמֶן הַקֹּדֶשׁ׃ ... כִּי בְעִיר מִקְלָטוֹ יֵשֵׁב עַד מוֹת הַכֹּהֵן הַגָּדֹל, וְאַחֲרֵי מוֹת הַכֹּהֵן הַגָּדֹל יָשׁוּב הָרֹצֵחַ אֶל אֶרֶץ אֲחֻזָּתוֹ.
"E a congregação livrará o homicida da mão do vingador do sangue, e a congregação o devolverá à sua cidade de refúgio, para onde havia fugido, e ali habitará até a morte do Sumo Sacerdote, que foi ungido com o óleo sagrado. [...] Pois em sua cidade de refúgio habitará até a morte do Sumo Sacerdote; e depois da morte do Sumo Sacerdote, o homicida retornará à terra de sua propriedade."
Aplicação na mishná: a expressão "o Sumo Sacerdote" repete-se três vezes ao longo desta passagem (incluindo o versículo 32, "até a morte do sacerdote"), e a mishná deriva dessa repetição os três modos de consagração cujo falecimento igualmente liberta o exilado — o ungido com óleo, o consagrado por vestes, e o que se afastou de sua função temporária.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Makot 2:6
רַבִּי יוֹסֵי בַּר יְהוּדָה אוֹמֵר בַּתְּחִלָּה אֶחָד שׁוֹגֵג כו': אֶחָד מָשׁוּחַ בְּשֶׁמֶן הַמִּשְׁחָה וְאֶחָד הַמְרֻבֶּה בִבְגָדִים כו': מִשֶּׁנִּגְמַר דִּינוֹ מֵת כֹּהֵן גָּדוֹל הֲרֵי זֶה אֵינוֹ גוֹלֶה כו': כֹּהֵן שֶׁעָבַר מִמְּשִׁיחָתוֹ הוּא כְּשֶׁיֶּאֱרַע בּוֹ מוּם, אוֹ אֵרַע בּוֹ קֶרִי בְּכֹהֵן גָּדוֹל בְּיוֹם הַכִּפּוּרִים וּמִנּוּ אַחֵר תַּחְתָּיו, וּבָא בְּהוֹרֵג נֶפֶשׁ זְכִירַת כ"ג ג' פְּעָמִים: וְר' יְהוּדָה שֶׁאוֹמֵר מְשׁוּחַ מִלְחָמָה, לְפִי שֶׁנֶּאֱמַר בְּהוֹרֵג נֶפֶשׁ לָשׁוּב לָשֶׁבֶת בָּאָרֶץ עַד מוֹת הַכֹּהֵן, וַחֲכָמִים אֵינָם דּוֹרְשִׁים זֶה הַפָּסוּק לְפִי שֶׁלֹּא אָמַר בּוֹ הַכֹּהֵן הַגָּדוֹל, וּכְשֶׁיָּמוּת אֶחָד מֵאֵלֶּה חוֹזֵר אַף עַל פִּי שֶׁהָאֶחָד חַי. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה.

Rambam esclarece que "aquele que se afastou de sua unção" refere-se a um sacerdote impedido temporariamente — por um defeito físico adquirido, ou por ter tido uma emissão que o desqualificou no próprio Yom Kipur — sendo substituído por outro, que depois retorna ao cargo quando o impedimento passa. E explica que a base textual para os três (e não apenas um) modos de consagração relevantes está na tríplice repetição de "o Sumo Sacerdote" na passagem bíblica. Sobre Rabi Yehudá, mostra que ele deriva sua posição de um versículo diferente ("até a morte do sacerdote", sem o qualificador "grande"), enquanto os Sábios não o leem dessa forma — por isso a halachá não segue Rabi Yehudá.

Bartenura · Makot 2:6
וְאֶחָד הַמְרֻבֶּה בִּבְגָדִים. שֶׁאַחַר שֶׁנִּגְנְזָה צְלוֹחִית שֶׁל שֶׁמֶן הַמִּשְׁחָה לֹא הָיָה מִתְחַנֵּךְ לִהְיוֹת כֹּהֵן גָּדוֹל אֶלָּא בִלְבִישַׁת שְׁמֹנָה בְגָדִים: וְאֶחָד שֶׁעָבַר מִמְּשִׁיחָתוֹ. שֶׁאֵרַע קֶרִי לְכֹהֵן גָּדוֹל בְּיוֹם הַכִּפּוּרִים וּמִנּוּ אַחֵר תַּחְתָּיו. בְּמִיתַת כָּל אֶחָד מֵאֵלּוּ הוּא חוֹזֵר, אַף עַל פִּי שֶׁהָאַחֵר חַי, דְּשָׁלֹשׁ פְּעָמִים כֹּהֵן גָּדוֹל כְּתִיב בַּפָּרָשָׁה: רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר אַף מְשׁוּחַ מִלְחָמָה. דִּקְרָא אַחֲרִינָא כְתִיב (במדבר לה) לָשׁוּב לָשֶׁבֶת בָּאָרֶץ עַד מוֹת הַכֹּהֵן. וְרַבָּנָן, כֵּיוָן דְּלֹא כְתִיב בְּהַהוּא קְרָא הַכֹּהֵן הַגָּדוֹל, לֹא דָרְשֵׁי לֵיהּ. וַהֲלָכָה כַּחֲכָמִים: שֶׁלֹּא יִתְפַּלְּלוּ עַל בְּנֵיהֶם שֶׁיָּמוּתוּ. וְהֵם פָּשְׁעוּ, שֶׁהָיָה לָהֶם לְבַקֵּשׁ רַחֲמִים עַל דּוֹרָם שֶׁלֹּא יֶאֱרַע בָּהֶן תַּקָּלָה, וְלֹא בִקְשׁוּ: מִשֶּׁנִּגְמַר דִּינוֹ. לְגָלוּת. דְּמִשֶּׁנִּגְמַר דִּינוֹ וְעוֹמֵד לְגָלוּת כְּאִלּוּ גָלָה:

Bartenura precisa que a consagração por vestes tornou-se a norma depois que o frasco do óleo da unção foi escondido, no fim do período do Primeiro Templo — daí em diante, o Sumo Sacerdote era investido apenas pela vestimenta das oito peças exclusivas do cargo. Sobre a razão pela qual as mães dos sacerdotes forneciam sustento aos exilados, Bartenura acrescenta uma nuance moral aguda: elas próprias eram, em certo sentido, responsáveis — pois deveriam ter implorado misericórdia por sua geração, para que uma tragédia como essa não acontecesse a seus filhos por meio de um exilado desesperado, e não o fizeram. E esclarece que "desde que seu julgamento foi concluído" já basta — mesmo que o exilado ainda não tenha fisicamente chegado à cidade de refúgio, ele já é considerado, para efeitos desta lei, como se já estivesse exilado.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi · רש״י
Makkot 11a-11b, s.v. מתני' אחד כהן משוח בשמן המשחה; וישב בה עד מות הכהן הגדול; שהיה להן לבקש רחמים על דורן; ה"ז אינו גולה; נגמר דינו בלא כ"ג
מַתְנִי' אֶחָד כֹּהֵן מָשׁוּחַ בְּשֶׁמֶן הַמִּשְׁחָה — הֵם כֹּהֲנִים גְּדוֹלִים שֶׁהָיוּ עַד יֹאשִׁיָּהוּ: וְאֶחָד הַמְרֻבֶּה בִּבְגָדִים — הֵם שֶׁשִּׁמְּשׁוּ מִיֹּאשִׁיָּהוּ וָאֵילָךְ, שֶׁנִּגְנַז שֶׁמֶן הַמִּשְׁחָה, וְשׁוּב לֹא נִמְשְׁחוּ כֹהֲנִים וְלֹא הָיְתָה נִכֶּרֶת כְּהֻנָּה גְדוֹלָה בָּהֶם אֶלָּא בְּרִבּוּי בְּגָדִים שֶׁמְּשַׁמֵּשׁ בִּשְׁמוֹנָה בְגָדִים: גמ' וְיָשַׁב בָּהּ עַד מוֹת הַכֹּהֵן הַגָּדוֹל — הָא חַד; כִּי בְּעִיר מִקְלָטוֹ יֵשֵׁב עַד מוֹת הַכֹּהֵן הַגָּדוֹל, הָא תְּרֵי; וְאַחֲרֵי מוֹת הַכֹּהֵן הַגָּדוֹל יָשׁוּב הָרוֹצֵחַ, הָא תְּלָתָא: שֶׁהָיָה לָהֶן לְבַקֵּשׁ רַחֲמִים עַל דּוֹרָן — הִלְכָּךְ לָאו קִלְלַת חִנָּם הִיא: מַתְנִי' הֲרֵי זֶה אֵינוֹ גוֹלֶה — מְפָרֵשׁ טַעְמָא בַּגְּמָרָא מִקַּל וָחֹמֶר: נִגְמַר דִּינוֹ בְּלֹא כֹהֵן גָּדוֹל — שֶׁלֹּא מִנּוּ אַחֵר תַּחְתָּיו עַד שֶׁנִּגְמַר דִּינוֹ שֶׁל זֶה לְגָלוּת:

Rashi identifica historicamente as duas categorias: os Sumos Sacerdotes ungidos com óleo serviram até o reinado de Yoshiyahu, quando o frasco do óleo da unção foi escondido; a partir daí, a legitimidade do cargo se manifestava apenas pela investidura das oito vestes. Na Guemará, Rashi conta as três menções de "o Sumo Sacerdote" no próprio versículo de Bamidbar 35 — a base textual para os três tipos de consagração cuja morte liberta o exilado. E sobre as mães dos sacerdotes, complementa a explicação de Bartenura: precisamente porque elas tinham a obrigação de rezar por sua geração — e não o fizeram —, não se trata de uma "maldição gratuita" caso, apesar de seus cuidados, algum exilado ainda viesse a desejar a morte de seus filhos.