Seder Moed · Massechet Meguilá · Perek Alef · Mishná 1 de 11

Os cinco dias possíveis para a leitura da Meguilá

מְגִלָּה נִקְרֵאת בְּאַחַד עָשָׂר
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná abre o tratado estabelecendo os cinco dias possíveis para a leitura da Meguilá — do onze ao quinze de Adar — e distingue de imediato entre as cidades muradas desde os dias de Yehoshua bin Nun, que leem no dia quinze, e as aldeias e cidades grandes, que leem no catorze, com a permissão especial de as aldeias anteciparem sua leitura para o dia da reunião.

A Meguilá é lida no onze, no doze, no treze, no catorze, no quinze — não menos e não mais.O calendário de Purim, ao contrário de quase todas as outras datas fixas do ano judaico, admite cinco dias possíveis de leitura em vez de um único dia, e a mishná já adianta que essa faixa tem limites precisos: nunca antes do dia onze de Adar, nunca depois do dia quinze.

As cidades muradas desde os dias de Yehoshua bin Nun leem no quinze; as aldeias e as cidades grandes leem no catorze — exceto que as aldeias antecipam para o dia da reunião.A data básica, catorze de Adar, é a que vale para a maioria da população — aldeias e cidades grandes sem muralha antiga; as cidades muradas desde a conquista da terra por Yehoshua leem um dia depois, em homenagem a Shushan, onde o milagre de Purim culminou no quinze; e as aldeias, cuja população se reúne nas cidades vizinhas apenas em dias fixos da semana, recebem a permissão adicional de antecipar sua leitura para esse dia de reunião, o que explica por que a faixa de datas se estende ainda mais para trás, até o dia onze.

מְגִלָּה נִקְרֵאת בְּאַחַד עָשָׂר, בִּשְׁנֵים עָשָׂר, בִּשְׁלֹשָׁה עָשָׂר, בְּאַרְבָּעָה עָשָׂר, בַּחֲמִשָּׁה עָשָׂר, לֹא פָחוֹת וְלֹא יוֹתֵר. כְּרַכִּין הַמֻּקָּפִין חוֹמָה מִימוֹת יְהוֹשֻׁעַ בִּן נוּן, קוֹרִין בַּחֲמִשָּׁה עָשָׂר. כְּפָרִים וַעֲיָרוֹת גְּדוֹלוֹת, קוֹרִין בְּאַרְבָּעָה עָשָׂר, אֶלָּא שֶׁהַכְּפָרִים מַקְדִּימִין לְיוֹם הַכְּנִיסָה:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Ester 9:19
עַל כֵּן הַיְּהוּדִים הַפְּרָזִים הַיֹּשְׁבִים בְּעָרֵי הַפְּרָזוֹת עֹשִׂים אֵת יוֹם אַרְבָּעָה עָשָׂר לְחֹדֶשׁ אֲדָר שִׂמְחָה וּמִשְׁתֶּה וְיוֹם טוֹב וּמִשְׁלֹחַ מָנוֹת אִישׁ לְרֵעֵהוּ
Por isso os judeus das aldeias, que habitam nas cidades sem muralha, fazem do dia catorze do mês de Adar dia de alegria e banquete e dia bom, e de envio de porções cada um ao seu próximo.

O verso distingue explicitamente entre "os judeus das aldeias" e o resto do povo, e é dessa distinção que a mishná deriva toda a sua estrutura de datas. Alguns versos antes, o texto de Ester já havia contado que os judeus de Shushan, a capital murada, descansaram e celebraram no quinze, um dia depois dos demais — porque ali a guerra contra os inimigos se estendeu também ao catorze. Os Sábios, comparando a expressão "os judeus das aldeias" com outro verso sobre "as cidades das aldeias" na época da conquista de Yehoshua bin Nun, estabeleceram por guezerá shavá (analogia verbal) que o critério para ler no quinze não é a condição atual da cidade, mas se ela já era murada nos dias de Yehoshua — um gesto deliberado de honra à Terra de Israel, que estava em ruínas na época de Mordechai e Ester, permitindo que suas cidades antigas fossem tratadas como Shushan mesmo sem muralha hoje. Já a permissão de antecipar a leitura, dada às aldeias menores, não vem diretamente do verso citado, mas de outro, em Ester 9:31, que fala em "seus tempos" no plural — indicando que os Sábios tinham autoridade para instituir tempos adicionais de leitura além dos dois mencionados explicitamente no texto bíblico.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam codifica a distinção entre cidade murada e cidade aberta, e o critério preciso — a época de Yehoshua bin Nun, não o estado atual da muralha.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Meguilá 1:6
כָּל מְדִינָה שֶׁהָיְתָה מֻקֶּפֶת חוֹמָה מִימֵי יְהוֹשֻׁעַ בִּן נוּן בֵּין בָּאָרֶץ בֵּין בְּחוּצָה לָאָרֶץ אַף עַל פִּי שֶׁאֵין לָהּ עַכְשָׁו חוֹמָה קוֹרִין בְּט"ו בַּאֲדָר. וּמְדִינָה זוֹ הִיא הַנִּקְרֵאת כְּרַךְ. וְכָל מְדִינָה שֶׁלֹּא הָיְתָה מֻקֶּפֶת חוֹמָה בִּימוֹת יְהוֹשֻׁעַ וְאַף עַל פִּי שֶׁהִיא מֻקֶּפֶת עַתָּה קוֹרְאִין בְּי"ד.
Toda cidade que era murada desde os dias de Yehoshua bin Nun, seja na Terra de Israel ou fora dela, ainda que hoje não tenha muralha, lê-se nela no quinze de Adar; e essa cidade é a chamada craque (cidade murada antiga). E toda cidade que não era murada nos dias de Yehoshua, ainda que esteja murada agora, lê-se nela no catorze.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rambam expõe a estrutura geral dos cinco dias; Bartenura explica a origem do "dia da reunião"; Rashi detalha por que a faixa de datas cresce até chegar ao onze.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Meguilá 1:1
מגילה נקראת באחד עשר בשנים עשר בי"ג כו': אמרו ז"ל לקיים את ימי הפורים האלה בזמניהם זמנים הרבה תקנו להם חכמים... ואם היתה מוקפת חומה מימות יהושע בן נון אפילו נפלה החומה ונהרסה לא נחוש לזה. ויום הכניסה הוא יום שני ויום חמישי לפי שאנשי הכפרים מתכנסים בהם לשמוע ספר תורה.

"A Meguilá é lida no onze, no doze, no treze, etc.": disseram nossos sábios, de abençoada memória, a respeito do verso "para confirmar estes dias de Purim em seus tempos" — muitos tempos os Sábios instituíram para o povo, e disseram: "por isso os judeus das aldeias fazem do dia catorze"; e quando os habitantes das aldeias faziam no catorze, os habitantes das cidades muradas faziam no quinze. E se a cidade era murada desde os dias de Yehoshua bin Nun, ainda que a muralha tenha caído e sido destruída, não nos preocupamos com isso — o critério é histórico, não presente.

E "o dia da reunião" é a segunda-feira e a quinta-feira, pois os habitantes das aldeias reúnem-se nesses dias para ouvir a leitura da Torá. É proibido ler a Meguilá em Shabat, pelo mesmo motivo que explicamos a respeito do shofar e do lulav. E a leitura em dias diferenciados aplicava-se quando nossa mão estava estendida e forte para cumprir os mandamentos em sua plenitude; mas em nosso tempo — isto é, desde que se compilou a Guemará até que venha o Mashiach, rapidamente em nossos dias — não se lê senão em seu tempo próprio, que é o dia catorze e o quinze, como explicamos.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Meguilá 1:1
מגילה נקראת באחד עשר בשנים עשר. פעמים בזה ופעמים בזה, כדמפרש ואזיל: מימות יהושע בן נון קורין בחמשה עשר. דכתיב על כן היהודים הפרזים עושים את יום ארבעה עשר, ומדפרזים בארבעה עשר שמע מינה דמוקפין בחמשה עשר. ומימות יהושע נפקא לן גזירה שוה מפרזי פרזי.

"A Meguilá é lida no onze, no doze": às vezes num desses dias, às vezes noutro, como a própria mishná explica em seguida.

"Desde os dias de Yehoshua bin Nun leem no quinze": pois está escrito "por isso os judeus das aldeias fazem o dia catorze" — e do fato de que os das aldeias fazem no catorze aprendemos que os das cidades muradas fazem no quinze. E que o critério é "desde os dias de Yehoshua" deriva-se por guezerá shavá (analogia verbal) entre a palavra "aldeias" aqui e a mesma palavra usada a respeito da conquista da terra por Yehoshua. E instituíram que as cidades muradas desde os dias de Yehoshua, ainda que hoje não tenham muralha, leiam no quinze como Shushan — para dar honra à Terra de Israel, que estava em ruínas nos dias de Mordechai e Ester, a fim de que fossem consideradas como cidades muradas mesmo estando hoje destruídas, e para que houvesse memória da Terra de Israel nesse milagre.

"Exceto que as aldeias antecipam": ou seja, já que as muradas leem no quinze e as não muradas no catorze, tudo já estaria incluído nesses dois dias — como então se chega ao onze, doze e treze? Porque deram às aldeias permissão de antecipar sua leitura ao dia da reunião, a segunda-feira anterior ao catorze ou a quinta-feira anterior, que é quando os habitantes das aldeias se reúnem nas cidades para julgamento, pois os tribunais sentam-se às segundas e quintas por instituição de Ezra.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Meguilá 2a — a extensão da faixa de datas e o motivo do dia da reunião
מתני' מגילה נקראת בי"א וכו' - פעמים בזה ופעמים בזה ולקמן מפרש ואזיל: לא פחות ולא יותר - לא פחות מי"א ולא יותר מט"ו: מימות יהושע - בגמ' מפרש לה: אלא שהכפרים מקדימין ליום הכניסה - כלומר מאחר שהמוקפין קורין בט"ו ושאין מוקפין קורין בי"ד הרי הכל בכלל תו היכי משכחת י"א י"ב י"ג אלא שהכפרים נתנו להן חכמים רשות להקדים קריאתה ליום הכניסה.

"A Meguilá é lida no onze, etc." — às vezes num desses dias, às vezes noutro, como a mishná explica mais adiante.

"Não menos e não mais" — não menos que onze e não mais que quinze.

"Desde os dias de Yehoshua" — a Guemará explica essa expressão em detalhe.

"Exceto que as aldeias antecipam para o dia da reunião" — ou seja, já que as cidades muradas leem no quinze e as não muradas no catorze, todo o povo já estaria incluído nesses dois dias; onde então se encontra ainda o onze, o doze e o treze? Os Sábios deram às aldeias permissão para antecipar sua leitura ao dia da reunião — a segunda-feira anterior ao catorze, ou a quinta-feira, que é quando as aldeias se reúnem nas cidades para julgamento, pois os tribunais sentavam-se nas cidades às segundas e quintas por instituição de Ezra; e os habitantes das aldeias não eram peritos o bastante para ler a Meguilá sozinhos, precisando que alguém da cidade a lesse para eles, e os Sábios não os sobrecarregaram exigindo que voltassem justamente no catorze — e por vezes esse dia da reunião cai no treze, e por vezes no onze.