Seder Kodashim · Massechet Meilá · Perek Vav · Mishná 6 de 6 — última do tratado

A pruta consagrada caída na bolsa: Rabi Akiva e os Sábios

פְּרוּטָה שֶׁל הֶקְדֵּשׁ שֶׁנָּפְלָה לְתוֹךְ הַכִּיס
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Fechando o tratado, a mishná trata da pruta consagrada que se perde ou se mistura, sem identificação possível, dentro de uma bolsa de moedas comuns — e da disputa entre Rabi Akiva e os Sábios sobre em que momento o gasto da bolsa constitui meilá

Uma pruta consagrada que caiu dentro da bolsa, ou que disse: ‘Uma pruta nesta bolsa é consagrada’ — assim que gastou a primeira, cometeu meilá — palavras de Rabi Akiva. E os Sábios dizem: até que gaste toda a bolsa.

Há dois casos equiparados: uma pruta consagrada que efetivamente caiu, sem querer, dentro de uma bolsa cheia de moedas comuns, tornando-se indistinguível das demais; e alguém que declara, sobre uma bolsa de moedas comuns, que uma delas — sem especificar qual — é consagrada. Em ambos os casos, não se sabe qual moeda exata é a consagrada. Rabi Akiva sustenta que, assim que a pessoa gasta a primeira moeda da bolsa, ela já comete meilá, pois há sempre a possibilidade real de que aquela moeda gasta fosse exatamente a consagrada — e essa possibilidade concreta já basta para gerar responsabilidade. Os Sábios discordam: como nenhuma moeda individual pode ser identificada como a consagrada, ninguém comete meilá até que gaste a última moeda da bolsa — pois só então, com certeza retroativa, sabe-se que a pruta consagrada foi necessariamente gasta em algum ponto do processo.

פְּרוּטָה שֶׁל הֶקְדֵּשׁ שֶׁנָּפְלָה לְתוֹךְ הַכִּיס, אוֹ שֶׁאָמַר, פְּרוּטָה בְכִיס זֶה הֶקְדֵּשׁ, כֵּיוָן שֶׁהוֹצִיא אֶת הָרִאשׁוֹנָה, מָעַל, דִּבְרֵי רַבִּי עֲקִיבָא. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים, עַד שֶׁיּוֹצִיא אֶת כָּל הַכִּיס.
A mishná fecha o tratado com a concessão de Rabi Akiva aos Sábios, num caso em que a formulação da declaração é diferente: quando se fala de uma pruta pertencente especificamente à bolsa, e não meramente presente dentro dela

Rabi Akiva concorda, quanto àquele que diz ‘uma pruta desta bolsa é consagrada’, que ele vai gastando até que gaste toda a bolsa.

Há uma diferença sutil de formulação entre “uma pruta nesta bolsa é consagrada” (a moeda está dentro da bolsa) e “uma pruta desta bolsa é consagrada” (a moeda pertence à bolsa, é parte dela). Nesta segunda formulação, mesmo Rabi Akiva concorda com os Sábios que não há meilá até que se gaste a bolsa inteira — pois, ao vincular a consagração à bolsa como um todo e não a uma moeda dentro dela, a pessoa deixa em aberto, moeda por moeda, qual delas continuará a carregar a santidade até o fim, permitindo o uso das demais sem responsabilidade imediata.

מוֹדֶה רַבִּי עֲקִיבָא בְּאוֹמֵר פְּרוּטָה מִן הַכִּיס זֶה הֶקְדֵּשׁ, שֶׁהוּא מוֹצִיא וְהוֹלֵךְ עַד שֶׁיּוֹצִיא אֶת כָּל הַכִּיס.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Meilá 6:6

Rambam explica que é coisa simples que o sentido de “gastar” e de “até que gaste” refere-se a quando gasta e usa para seu próprio benefício, e não simplesmente a tirar da bolsa. E o sentido em que Rabi Akiva concorda é naquele que diz “não se libertará esta bolsa do consagrado de uma pruta”, ou algo de sentido semelhante a este; e então ele concorda que não comete meilá até que use tudo o que está na bolsa; mas, se restar dela uma pruta, aquela pruta será consagrada, e ele não cometerá meilá. E a lei não segue Rabi Akiva.

Bartenura · Meilá 6:6
כֵּיוָן שֶׁהוֹצִיא אֶת הָרִאשׁוֹנָה. לְצֹרֶךְ תַּשְׁמִישׁוֹ, מָעַל: וַחֲכָמִים אוֹמְרִים. לֹא מָעַל: עַד שֶׁיּוֹצִיא. כָּל הַמָּעוֹת שֶׁבַּכִּיס לְצֹרֶךְ חֻלִּין. וַהֲלָכָה כַּחֲכָמִים: פְּרוּטָה מִן הַכִּיס זֶה. כְּלוֹמַר לֹא תִכְלֶה פְרוּטָה מִכִּיס זֶה עַד שֶׁיְּהֵא בָהּ הֶקְדֵּשׁ:

Bartenura explica, sobre “assim que gastou a primeira”: para seu próprio uso, comete meilá. Sobre “e os Sábios dizem”: não comete meilá. Sobre “até que gaste”: todo o dinheiro que está na bolsa, para uso comum — e a lei segue os Sábios. Sobre “uma pruta desta bolsa”: isto é, não se esgotará uma pruta desta bolsa sem que nela haja consagrado.

הַדְרָן עֲלָךְ “הַשָּׁלִיחַ שֶׁעָשָׂה שְׁלִיחוּתוֹ”, וּסְלִיקָא לַהּ מַסֶּכֶת מְעִילָה

Com esta mishná, encerra-se o Perek Vav, sexto e último capítulo, e com ele toda a Massechet Meilá. A Guemará do Talmud Bavli fecha o tratado, em Meilá 22a, com a fórmula tradicional acima — “Retornaremos a ti, 'O emissário que cumpriu sua missão', e concluída está a Massechet Meilá” —, o hadran que expressa o compromisso de retornar ao estudo deste tratado, citando as palavras de abertura do próprio Perek Vav.

Este último capítulo, distribuído por Meilá 20a–22a, tratou das leis do emissário (shaliach) enviado a lidar com bens consagrados — a única exceção conhecida, em toda a Torá, à regra de que não há emissário para transgressão (6:1); o envio por mão de quem não tem capacidade de agência, e o modo de resgatar a pruta perdida entre as moedas do lojista (6:2); a compra de velas e pavios, e a diferença entre uma ordem sem local especificado e uma ordem com local especificado (6:3); a disputa de Rabi Yehudá sobre o etrog e a romã, a túnica e o manto, quando o emissário acrescenta à sua missão por conta própria (6:4); o depósito de moedas junto ao trocador, ao dono da casa e ao lojista, conforme estejam atadas ou soltas (6:5); e, por fim, a pruta consagrada perdida dentro de uma bolsa comum, com a disputa entre Rabi Akiva e os Sábios sobre o momento exato em que se comete meilá (6:6).

Massechet Meilá, dedicada às leis do uso indevido de bens consagrados ao Templo, percorreu seis perakim e trinta e oito mishnayot: desde os fundamentos do próprio conceito de meilá e o efeito da aspersão do sangue sobre a carne santíssima (Perek Alef), passando pela extensão dessa análise a nove categorias adicionais de oferendas e doações (Perek Bet), por um conjunto heterogêneo de casos que vão das oferendas condenadas a morrer até o ninho na árvore consagrada (Perek Guimel), pelo princípio da soma entre consagrados, impurezas e medidas legais (Perek Dalet), pela fronteira exata entre benefício e dano que define a meilá (Perek Hei), até este capítulo final sobre o emissário, o depósito e a pruta perdida na bolsa. Massechet Meilá é o oitavo tratado de Seder Kodashim. Segue-se, na ordem, Massechet Tamid, dedicada à descrição do serviço diário permanente no Templo.