A mishná estabelece um princípio de assimetria entre o principal e o que lhe é secundário: a oferenda de gratidão torna pigul os pães que a acompanham, mas os pães não têm o poder de tornar pigul a oferenda de gratidão; e o mesmo vale para os cordeiros de Shavuot e os pães que os acompanham. Em ambos os casos, a mishná ilustra a regra com os dois sentidos possíveis da intenção.
A oferenda de gratidão torna pigul os pães, mas os pães não tornam pigul a oferenda de gratidão. — A oferenda de gratidão (todá) é acompanhada por pães que dela dependem — são secundários a ela. A mishná estabelece que essa relação de dependência é assimétrica quanto ao pigul: o principal contamina o secundário, mas o secundário não contamina o principal.
Como é isso? Quem abate a oferenda de gratidão com a intenção de comer dela amanhã — ela e os pães são pigul. — Se a intenção de tempo errado recai sobre a própria oferenda de gratidão — o elemento principal — tanto ela quanto os pães que a acompanham tornam-se pigul.
Com a intenção de comer dos pães amanhã — os pães são pigul, mas a oferenda de gratidão não é pigul. — Mas se a intenção recai apenas sobre os pães — o elemento secundário — só os pães se tornam pigul; a oferenda de gratidão, sendo o principal, permanece apta.
Os cordeiros tornam pigul os pães, mas os pães não tornam pigul os cordeiros. — A mishná repete o mesmo princípio de assimetria para o segundo par já conhecido da mishná anterior: os dois cordeiros de Shavuot e os dois pães que eles habilitam. Também aqui o principal — os cordeiros — contamina o secundário — os pães —, mas não o contrário.
Como é isso? Quem abate os cordeiros com a intenção de comer deles amanhã — eles e os pães são pigul. — Se a intenção de tempo errado recai sobre os próprios cordeiros, tanto eles quanto os pães tornam-se pigul.
Com a intenção de comer dos pães amanhã — os pães são pigul, mas os cordeiros não são pigul. — Mas se a intenção recai apenas sobre os pães, só eles se tornam pigul; os cordeiros permanecem aptos.
Rambam explica a base do princípio: o pão segue a oferenda de gratidão como um ramo segue sua raiz, e da mesma forma os dois pães de Shavuot seguem os dois cordeiros. Quando a raiz se desqualifica, o ramo se desqualifica com ela; mas quando a desqualificação ocorre no que segue — o pão — apenas ele se desqualifica, permanecendo o principal, do qual ele depende, intacto em sua integridade. A mishná ensina que essa regra vale igualmente para os dois pares.
Bartenura formula o princípio como uma regra de secundariedade: o pão vem por causa da oferenda de gratidão e lhe é secundário, nunca o inverso; o mesmo vale para os dois pães de Shavuot em relação aos cordeiros. O principal torna pigul o secundário, mas o secundário não torna pigul o principal. Explica por que a mishná precisa ensinar a regra separadamente para os dois casos: se ensinasse apenas com a oferenda de gratidão, poder-se-ia pensar que os cordeiros — que foram associados aos pães no gesto de elevação ritual — seriam diferentes, contaminados também pela intenção sobre o pão; e se ensinasse apenas com os cordeiros, poder-se-ia pensar o oposto quanto à oferenda de gratidão, que não foi associada aos pães dessa forma. Por isso ambos os casos são necessários.
Rashi deriva a fonte do princípio de um detalhe da própria formulação do versículo: em vez de escrever "e trará os pães sobre a oferenda de gratidão" (o que faria dos pães o principal), o texto escreve "sobre a oferenda de gratidão, pães" — indicando que o termo "oferenda de gratidão" já engloba os pães. Por isso, quando o sacerdote pensa em comer "a oferenda de gratidão" amanhã, o pão é incluído implicitamente nessa intenção. Mas o animal da oferenda de gratidão não é chamado de "pão", e por isso, quando a intenção recai sobre o pão, o animal não é incluído. Rashi explica que, tanto para a oferenda de gratidão quanto para os cordeiros de Shavuot, é o abate do principal que consagra o pão — o pão segue e depende do principal, nunca o inverso.